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Morreu João Semedo, antigo líder e deputado do BE

17 jul, 2018


O médico de 67 anos debateu-se nos últimos anos com um cancro nas cordas vocais.

"Tive a vida que escolhi, a vida que quis, não tenho nada de que me arrependa no que foi importante. Segui sempre a minha intuição, nunca me senti a fazer o que não queria. Sim, fui muito feliz, sou e acho que continuarei a ser", disse João Semedo na última grande entrevista que concedeu ao "Observador", em abril de 2017. O ex-coodenador do Bloco de Esquerda morreu esta terça-feira, aos 67 anos, após uma batalha contra o cancro, revelou aquela estrutura partidária, através de uma nota de pesar publicada na Esquerda Net.

"Militante comunista contra a ditadura, defendeu a renovação do PCP e encontrou no Bloco de Esquerda o espaço de intervenção capaz de mudar a política portuguesa", pode ler-se no site.

O texto recorda que Semedo era filho de um engenheiro militante comunista e de uma professora, tendo crescido "num ambiente familiar em que se discutia abertamente o estado do país".

O início da atividade política de João Semedo coincidiu com o ocaso do Estado Novo, quando frequentava o ensino liceal, com a tragédia das cheias de 1967 e a mobilização estudantil no apoio às vítimas. "As sessões de conversas organizadas pelo padre Vítor Feytor Pinto, no Liceu Camões, fizeram-no abrir horizontes e conhecer o mundo que não se falava nas salas de aula", destaca a nota do BE.

O antigo coordenador do Bloco de Esquerda teve uma vida dedicada à atividade política nacional e internacional, às artes e à medicina, tendo mesmo sido um dos autores da nova proposta de Lei de Bases da Saúde.

Depois de um longo percurso como médico e político, lançou, em janeiro de 2018, em conjunto com António Arnaut, o livro "Salvar o SNS - Uma nova lei de bases da Saúde para defender a democracia".

Fundou, em 2003, com outros ex-dirigentes do PCP, o Movimento da Renovação Comunista. No ano seguinte, aceitou o convite de Miguel Portas para integrar como independente as listas do Bloco para o Parlamento Europeu.

A aproximação ao Bloco de Esquerda prosseguiu com a participação de João Semedo nas listas às legislativas pelo Porto e acaba por se tornar deputado, substituindo João Teixeira Lopes, em março de 2006.

Acabou por aderir ao Bloco de Esquerda em 2007 e protagonizou candidaturas autárquicas em Gondomar (enquanto independente em 2005), Gaia (2009) e Lisboa (2013).

BE fala de um "percurso ímpar"

O BE transmitiu "as mais sentidas condolências" pela morte do seu antigo coordenador João Semedo, considerando que a perda "é de todos os que partilharam o seu ímpar e diversificado percurso, que com ele lutaram, aprenderam e conviveram".

"O Bloco de Esquerda informa que morreu esta manhã João Semedo, com 67 anos, médico e militante político, e transmite à sua mulher, ao seu filho e a toda a família as mais sentidas condolências", lê-se numa nota enviada à agência Lusa.

O partido considera que "a perda de João Semedo é de todos os que partilharam o seu ímpar e diversificado percurso, que com ele lutaram, aprenderam e conviveram, na política e na vida".

"Como é de todos o orgulho e a alegria de o terem tido a seu lado", enaltece.

O BE sublinha ainda que "a doença prolongada e as crescentes limitações da voz não impediram" João Semedo de manter a atividade política. "Nos últimos meses da sua vida, João Semedo publicou um livro com António Arnaut para uma nova Lei de Bases da Saúde e deu força e conteúdo ao Movimento 'Direito a morrer com dignidade'", recordam.

"Convicções políticas" e "enorme gentileza"

O diretor do semanário "Expresso", Pedro Santos Guerreiro, diz à Renascença que a notícia da morte de Semedo "era relativamente esperada, tendo em conta o estado de saúde em que e encontrava".

"Era esperada pelo próprio. Ele falou sobre isso nos últimos anos, com grande desassombro e até motivando alguma comoção a quem lia as entrevistas que deu sobre o assunto", acrescenta.

O jornalista destaca as "fortíssimas convicções políticas" de João Semedo, facto que não impedia que fosse também "um homem de uma enorme gentileza".

Semedo teve "uma intervenção política permanente e até ao fim" e Santos Guerreiro lembra que ele "escreveu, com António Arnaut, o livro 'Salvar o SNS', que gerou propostas que levaram a uma intervenção da Assembleia da República sobre o Serviço Nacional de Saúde".

"As convicções e a participação política mesmo em momentos já de grande fragilidade física, de grande vulnerabilidade, mantiveram-se sempre. Isso é também um traço do seu caráter de homem político."

O diretor do "Expresso" lembra ainda que Semedo "nasceu em Lisboa, mas viveu 40 anos no Porto", sendo "um homem da cidade do Porto".

O velório de João Semedo decorre a partir das 17h00 desta terça-feira na Cooperativa Árvore, de onde o funeral sairá, amanhã, pelas 13h30, em direcção ao cemitério do Prado do Repouso.

[notícia atualizada às 12h20, com informação sobre o funeral]

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  • Fernando de Almeida
    18 jul, 2018 Porto 00:40
    Ao longo dos meus setanta e quatro anos nunca elogiei nenhum politico. Reconheço que tenho sido injusto quer tenham sido da União Nacional do "REVIRALHO" ou desta coisa que finge que anda, mas não anda, e que teimam em apelidar de DEMOCRACIA.Abro uma excepção: JOÃO SEMEDO
  • fanã
    17 jul, 2018 aveiro 17:01
    São "RAROS" os Homens Políticos que lutam por o bem comum, com convicção e altruísmo . João Semedo era um deles..Os meus sentimentos aos familiares e parceiros políticos do B.E !!!!
  • Vamos todos
    17 jul, 2018 Lisboa 09:04
    Descanse em paz.