Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
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Opinião

"Tricky season"

16 jul, 2018 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


Mal ou bem, a esquerda que nos governa proclama aos quatro ventos aquilo em que diz acreditar. A direita que nos governou, acredita em quê?

Entramos agora nas semanas da chamada silly season. Uma espécie de intervalo em que a vida pública dá lugar a uma agenda de episódios que é bom não levar a sério.

Em todo o caso, temas como Brexit, imigração, futuro da Europa, garantia da paz e do bem comum aconselham a que não se dê rédea livre ao disparate. E homens como Putin e Trump também não nos deviam deixar dormir muito descansados. Mesmo em férias. E no plano interno não é assim tão diferente: toda a atenção é pouca, não vá a silly season revelar-se, afinal, uma verdadeira tricky season.

Nas últimas semanas, por exemplo, têm sido visíveis os sobressaltos internos da "geringonça". Os parceiros que suportam o governo do PS medem forças e ponderam calendários.

PCP e Bloco nem dormem, só de pensar numa eventual maioria absoluta do PS nas eleições do próximo ano, que os dispense da função crucial de andarilhos da "geringonça".

Por isso, a negociação do Orçamento de 2019 que já decorre é tão vital para a manutenção do governo, como para a afirmação politico-eleitoral de comunistas e bloquistas.

Se não conseguirem impor reivindicações sindicais de vária ordem (como, por exemplo, as dos professores), Jerónimo de Sousa e Catarina Martins terão que optar entre engolir o sapo orçamental de Centeno ou desfazer a "geringonça", fazendo cair este governo.

Ora, neste campeonato entre Bloco e PCP para obter as boas graças sindicais, sabe-se que os comunistas partem em vantagem. O controle da CGTP permite a Jerónimo de Sousa maior tranquilidade e outra racionalidade nas posições. Não precisa de se colar aos sindicatos que por si próprio ainda controla.

Sem dominar a máquina sindical, o Bloco roça por vezes o desespero. Exemplo recente é o de Joana Mortágua. Inquirida sobre até que ponto estaria o Bloco disponível para alguma cedência ao Governo no que toca à contagem do tempo de serviço dos professores, a deputada bloquista limitou-se a dizer que a margem de cedência do Bloco é a linha vermelha dos sindicatos e dos professores. Cederá no que os sindicatos cederem, não transigirá no que os sindicatos não transigirem. Uma colagem perfeita. O discurso político de um deputado capturado pelo discurso sindical. Manda o sindicato, obedece o deputado.

É uma triste caricatura do sistema de representação: em vez de representarem o povo, ver deputados a representar corporações, quaisquer que elas sejam.

Mas se na geringonça cheira a Outono, à direita não há melhor tempo. Rui Rio tarda em definir-se. Suspira por se tornar no melhor amigo de Costa e não disfarça a distância em relação ao CDS de Assunção Cristas.

Se a "geringonça" ruir antes de eleições, o que fará Rio? A dúvida, só por si, alimenta a combustão interna contra o presidente do PSD.

E se à indefinição política se somar a indefinição ideológica do PSD, como agora se confirmou no debate da eutanásia, está aberto o flanco que permite ao CDS crescer e a Santana Lopes sonhar com outro partido ou movimento.

Para isso, o CDS precisa de estruturar melhor a proposta política e de clarificar a identidade ideológica. Se não o fizer, mais espaço abrirá para qualquer coisa que venha a nascer e que procurará ocupar um espaço que o centro-direita, por pudor ideológico, tem deixado órfão.

Com receio de não ser vista como moderna, a direita meteu, ao longos dos anos, muitos valores na gaveta e não descobriu novas metas que mobilizem o eleitorado mais jovem.

Mal ou bem, a esquerda que nos governa proclama aos quatro ventos aquilo em que diz acreditar. A direita que nos governou, acredita em quê?

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