Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral

​O eixo franco-alemão na UE funciona

21 jun, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Merkel e Macron acordaram num passo simbólico para a reforma da arquitetura do euro.

No próximo Conselho Europeu, daqui a uma semana, estava inicialmente previsto que se debatesse o reforço da arquitetura do euro – tema para discutir entre os 17 países que pertencem à zona euro, naturalmente. Entretanto, a grave crise na Alemanha, que colocou em risco o futuro do governo de Berlim, levou a prever que os problemas da imigração iriam ocupar praticamente toda a atenção e todo o tempo desse Conselho, adiando mais uma vez as reformas no euro. Só que o encontro entre o presidente Macron e a chanceler Merkel, na passada terça-feira, mostrou que, afinal, ainda são previsíveis alguns avanços no euro, embora limitados. Mas quem segue os assuntos europeus nunca esperou mais do que isso.

A cimeira Merkel-Macron também transmitiu a mensagem de que o eixo Paris-Berlim funciona, apesar das dificuldades que Merkel enfrenta no seu país. Manteve-se, assim, a tradição de os líderes da França e da Alemanha concertarem posições nas vésperas dos Conselhos Europeus. Agora era grande a distância entre o maximalismo reformista de Macron e a prudência de Merkel, ciente de que a opinião pública alemã não apoiaria fazer da zona euro uma “união de transferências”, desviando dinheiro dos países mais ricos para os menos abonados, sobretudo na área das finanças públicas. Macron percebeu a difícil situação de Merkel e concordou com um pequeno, mas simbólico, passo na arquitetura do euro.

Tal passo foi o acordo sobre a necessidade de um orçamento próprio e comum para a zona euro, algo que não era bem visto por muitos alemães. O objetivo desse orçamento, que poderá funcionar a partir de 2021 caso seja aprovado pelos membros da zona euro, será ajudar a convergência das economias da zona e torná-las mais competitivas. Trata-se de um orçamento separado do orçamento comunitário. Como financiar esse orçamento do euro (talvez 1% do PIB de cada Estado)? Provavelmente será através de novos impostos europeus, mas ao certo ainda não sabemos. Como ainda falta propor como será e por quem será gerido o orçamento do euro.

Macron e Merkel também apoiaram um reforço do Mecanismo Europeu de Estabilidade, para que este possa ajudar países do euro em crise – como aquela que Portugal sofreu. Mas essa ajuda será um empréstimo, que os países que eventualmente o recebam deverão pagar uma vez ultrapassadas as suas dificuldades financeiras. Tudo isto é um tanto vago? É, mas Macron disse que entrar agora em pormenores seria contraproducente, na medida em que seria suscetível de prejudicar as negociações visando um consenso na zona euro sobre estas alterações. É capaz de ter razão.


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