Opinião de Eunice Lourenço
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​Para lá dos pezinhos de dança

22 fev, 2018 • Eunice Lourenço , editora de política da Renascença • Opinião de Eunice Lourenço


Marcelo Rebelo de Sousa encantou São Tomé e Príncipe, mas a primeira visita de um chefe de Estado português desde 2000 foi muito mais do que isso.

Marcelo chegou, beijou, dançou, voltou a dançar, apitou um jogo de futebol, dançou outra vez, recebeu remédios de curandeiros e encantou São Tomé e Príncipe.

A visita de Estado do Presidente da República Portuguesa a São Tomé - a primeira desde 2000 - foi, contudo, muito mais do que isso. Primeiro, porque reconheceu como massacre um episódio da história dos dois países.

Depois porque mostrou como Portugal muda a vida de milhares de pessoas neste país lindo, mas que continua a não conseguir dar a volta e sair da pobreza.

Pensar que os surdos santomenses não tinham uma língua gestual até há quatro anos ou que até há muito pouco tempo uma santomense que precisasse de uma ecografia tinha de ser levada para Lisboa, dá bem noção das fragilidades deste país.

A entrevista do primeiro-ministro santomense à agência Lusa - em que Patrice Trovoada manifestava insatisfação com a cooperação portuguesa - esteve quase sempre presente e foi lida, nos meios ligados à cooperação como uma "cuspidela no prato da sopa". E o Presidente português fez questão de ir dando "bofetadas" de luva branca.

Chegou ao ponto de, na noite do primeiro dia, arrastar a ministra da Saúde - que, coincidentemente é prima de Trovoada - para uma visita não prevista ao Hospital Ayres de Menezes, onde as missões médicas portuguesas e a telemedicina fazem toda a diferença. Terá sido com um sorriso cerebral que Marcelo escutou a ministra reconhecer a importância da cooperação portuguesa - que envolve 23 instituições públicas e privadas - nesta área.

O Presidente também quis deixar bem claro que Trovoada bem sabia que vem aí um reforço da cooperação portuguesa. E disse que Portugal não quer exclusivos, não se importa que São Tomé tenha outros parceiros. Mas sabe bem como a língua é um fator importante onde quase não há bilíngues. E a história da máquina de TAC e das salas de cirurgia montadas por Taiwan lá estão para mostrar.

Pelo meio da festa que rodeou toda a visita, Marcelo foi gerindo o que dizia para garantir que, pelo menos alguma coisa ia chegando a Portugal. Na escola portuguesa mandou uma "boca" sobre esquerda e direita, na obra das irmãs franciscanas apitou um jogo de futebol e prestou-se a comparações sobre o papel de árbitro da função presidencial, no príncipe - no balanço da viagem - anunciou o almoço de segunda-feira com Rui Rio.

Terá sido sobretudo isso que chegou aos portugueses, que continuam desvanecidos com o Presidente dos afetos e da descontração, como os santomenses também ficaram. Mas o que fica desta viagem é mais do que isso: é o compromisso de continuar a melhorar, ou mesmo mudar, a vida de um povo que nestes dias fez a festa em que Marcelo brilhou.

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  • MASQUEGRACINHA
    23 fev, 2018 TERRADOMEIO 18:06
    É pá, a vida é mesmo injusta... nós por aqui com tanto bilingue, trilingue, enfim, plurilingue, e a levar com quatro anos à espera de uma consulta ou a jogar no euro-milhões para ver se consegue arranjar os dentes. Eu até arranho algum mandarim, e com a poupança de TACs que por aí vai, talvez ainda me venha a ser útil...