Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​Incertezas britânicas e francesas

12 dez, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O discurso de T. May nos Comuns e o de Macron no Eliseu não parecem ter resolvido grande coisa. Aumentaram as incertezas.

Na tarde de segunda-feira passada dois destacados líderes europeus, acossados nos seus países, apareceram em público. Mas é duvidoso que tenham ganho qualquer coisa com essas intervenções.

A primeira-ministra T. May, falando na Câmara dos Comuns, adiou a votação parlamentar do “acordo de divórcio” com a UE. T. May rejeita um novo referendo sobre o Brexit, bem como adiar a saída da UE. Ela procura obter mais garantias sobre a fronteira irlandesa.

Este foi o problema mais difícil das negociações do acordo de divórcio. Aliás, o problema não foi resolvido, apenas adiado. Recordo que, há dois anos, uma declaração política da UE e do governo britânico sobre este tema, bastante ambígua, permitiu avançar para as negociações.

Não admitindo a UE renegociar o acordo obtido, de quase 600 páginas, resta a May solicitar à UE uma nova declaração política sobre esta matéria, que dificilmente poderá ser menos ambígua do que a anterior, pois o que se pretende é a quadratura do círculo – manter aberta a fronteira entre a República da Irlanda e o Ulster (Irlanda do Norte), quando a primeira faz parte da união aduaneira da UE e o segundo é parte do Reino Unido, que ficará fora dessa união.

Tal declaração, a concretizar-se, não irá convencer os mais de cem deputados que faltam a May para fazer aprovar o acordo na Câmara dos Comuns. Uma saída da UE sem acordo de divórcio é, assim, cada vez provável na Grã-Bretanha.

Em Paris, o presidente Macron tentou conter a revolta dos “coletes amarelos”. Anunciou uma viragem de 180 graus na sua política, o que, à partida, lhe retira credibilidade reformista – até aqui a sua principal bandeira.

Aumentar os apoios sociais prometidos por Macron custará cerca de 10 mil milhões de euros. Por exemplo, o salário mínimo sobe 100 euros por mês – mas isso será pago pelo Estado (ou seja, pelos contribuintes) e não pelos empregadores.

A França já tem a mais alta carga fiscal da UE e o presidente também prometeu não aumentar impostos. Logo, será difícil cumprir as suas promessas sem violar as regras do euro sobre o défice orçamental.

O clima de contestação generalizada e inorgânica a Macron leva muita gente, em França, a considerar insuficientes as medidas anunciadas pelo presidente. É natural, pois as reivindicações – incluindo as mais absurdas – todos os dias se multiplicam. Por isso tudo indica que Macron será mais um presidente francês derrotado pela rua. E a França continuará ingovernável, uma vez que a maioria dos franceses quer mais apoios sociais e simultaneamente pagar menos para o Estado social.

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