Opinião de Luís António Santos
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​Como chegou Bolsonaro ao coração de tantos brasileiros?

08 out, 2018 • Opinião de Luís António Santos


Sendo ainda cedo demais para entender, em toda a complexidade, o que aconteceu parece desde já relevante deixar algumas notas sobre o uso e apropriação dos média durante a campanha.

A madrugada desta segunda-feira mostrou-nos que o Brasil adiou, por muito pouco, uma quase inédita eleição à primeira volta de um candidato presidencial identificado com posicionamentos que questionam a própria existência de um sistema político democrático.

Sendo ainda cedo demais para entender, em toda a complexidade, o que aconteceu parece desde já relevante deixar algumas notas sobre o uso e apropriação dos média durante a campanha. Numa entrevista que deu há dias ao jornal ECO, Sérgio Denicoli, director da agência AP Exata (que se dedica à análise de dados em rede), focou dois aspetos fulcrais: em primeiro lugar, no Brasil de hoje, “nenhum tema tem capacidade de sobressair na agenda de conversas se não for abraçado pelas redes sociais” e, em segundo lugar, “as pessoas votam por paixão, com base em preceitos de cunho pessoal, em detrimento das ideologias”.

Quem geriu a campanha de Jair Bolsonaro entendeu muito bem este novo enquadramento e, por isso, preparou o candidato para dar respostas repetitivas (ao jeito de slogans) durante as entrevistas nos média tradicionais, por isso não teve receio de o retirar do último debate entre todos os candidatos para o apresentar, à mesma hora, numa entrevista solitária num canal propriedade de um pastor evangélico que declarou apoiá-lo e, por isso, ativou um dispositivo de contas e grupos em redes sociais em que se disseminaram, sem distinção, conteúdos verdadeiros, conteúdos truncados e conteúdos falsos.

Entre essas plataformas ganha especial relevo a Whatsapp que, no contexto brasileiro, se tornou no principal veículo de comunicação entre as pessoas. Numa sociedade que vive sob o espectro da insegurança, o ‘ZapZap’ traz o conforto da existência em grupos (família, amigos, colegas de trabalho, colegas de profissão, etc.) e numa sociedade ainda com problemas severos de iliteracia (formal ou informal) o ‘ZapZap’ permite a troca de mensagens em áudio ou vídeo (‘Me manda um áudio’ é uma expressão corrente).

Disseminar mensagens nestes ‘espaços de confiança’ é conseguir, em simultâneo, agregar a cada partilha não apenas o que vai em cada conteúdo, mas também o capital social de quem a enviou aos seus amigos e/ou familiares. E como duvidar do que me envia um primo meu? Ou um vizinho? Ou um parceiro com quem andei na escola primária?

[Um dos vídeos com mais partilhas no final de campanha usava um excerto de vídeo, filmado durante a visita do Papa Francisco ao Brasil em 2013, em que um grupo de mulheres quebrava imagens sacras e sugeria que tais eventos teriam ocorrido nas manifestações contra Bolsonaro no âmbito da iniciativa #EleNão; o apelo associado era bem explícito – mostrem às vossas tias, mães e avós o que essa turma do PT e Ciro querem para o país...em contraponto a um candidato que diz: ‘Deus acima de tudo’].

É certo que a campanha de Jair Bolsonaro foi desenvolvida e financiada por um ‘tripé’ poderoso e com uma influência muito significativa nos aparelhos político, judiciário e mediático daquele país – o sector agroalimentar e extrativo (com interesses no desaparecimento de políticas ambientalistas), o chamado ‘sector da bala’ (produtores, importadores e vendedores de armas) e o sector evangélico (com uma expansão assinalável nas últimas décadas e com uma mensagem simplista que se propaga com eficácia, através de uma rede capilar de espaços de culto e de um controle de centenas de canais mediáticos).

Mas do conjunto variado de explicações para o sucesso de Bolsonaro não pode afastar-se esta (nova) disseminação de mensagens aparentemente esvaziadas de ideologia e centradas em tópicos com genuíno apelo para os cidadãos – a segurança, o respeito pela propriedade, o exercício da política com rigor e respeito por uma certa moralidade.

O facto de que muitas delas foram produzidas com desprezo considerável pela ética e pela lealdade do jogo democrático e o facto de que, para uma larga maioria de cidadãos, isso nem sequer é relevante põe a nu a mais séria fragilidade de um regime de governo que também é o nosso.

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