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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Interrogações ecológicas

16 jun, 2021 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Entre nós multiplicam-se as interrogações e as ambiguidades em matéria de ambiente. Os painéis solares e as grandes ventoinhas das eólicas avançam aparentemente sem ponderação dos seus inconvenientes, até ambientais. E a oposição dos ecologistas a todo e qualquer investimento em barragens parece exagerado.

As alterações climáticas e o aquecimento global começam a ser encarados a sério por muita gente. Percebe-se que a defesa do ambiente é uma questão vital para o futuro do planeta e um imperativo ético para que haja justiça entre gerações, de modo a que não deixemos às próximas gerações um mundo em péssimo estado ambiental. É significativo que a reunião anual da NATO, em Bruxelas esta semana, tenha incluído na declaração final o compromisso de reduzir as emissões de CO2 nas suas atividades militares.

Entre nós, porém, multiplicam-se as interrogações e as ambiguidades em matéria de ambiente. Vejamos alguns exemplos.

Noticiou o jornal “Público” que, dos concelhos alentejanos do Alandroal, Borba, Estremoz e Vila Viçosa, saem por ano 400 mil toneladas de mármore, das quais 300 mil se destinam aos portos de Sines, Setúbal e Lisboa, na sua maioria para exportação. O que implica uma circulação de cerca de 11.700 camiões por ano (considerando que cada camião transporta, em média, 25,5 toneladas) entre as pedreiras da zona do mármore e os terminais marítimos.

Ora, acrescenta o “Público”, a emissão de CO2 provocada por este transporte rodoviário atinge as 3639 toneladas anuais. Mas se igual quantidade de pedra fosse transportada em comboios eléctricos, a emissão de gases com efeito de estufa seria reduzida em 74%, pois o transporte ferroviário emitiria apenas 946 toneladas de CO2. A diferença entre os dois modos de transporte é de 2693 toneladas de dióxido de carbono, sendo este o valor que Portugal deixaria de emitir se a linha férrea em construção entre Évora e Elvas incluísse um terminal de mercadorias na chamada Zona dos Mármores.

Se estes números se confirmarem e se a ferrovia não entrar neste transporte, estaremos perante mais um caso de um prejuízo que o país inflige a si próprio. Por isso, entre nós, as grandes proclamações oficiais em defesa do ambiente soam geralmente a falso.

Repare-se, por outro lado, na energia proveniente de painéis solares. Certamente que os governantes e as empresas fazem bem em apostar nas energias alternativas, libertando-nos de energias poluidoras. Só que a presente proliferação de painéis solares, sem uma estratégia clara, não é aceitável.

Escreve o diretor do jornal “Nascer do SOL”, Mário Ramires: “O problema são os milhares de hectares – sim, milhares de hectares – que se preparam para cobrir o país de lés a lés, do Alentejo ao Algarve, do Ribatejo ou das Beiras a Trás-os-Montes ou Minho, sem esquecer a Estremadura (...) Sem um plano estratégico associado, sem ninguém perceber onde começam e onde vão acabar, invadindo até zonas dunares, como na orla de Sines, onde se anunciou com toda a pompa e circunstância um megacentro de dados cuja alimentação energética até hoje está por explicar. Qual é a estratégia associada, ninguém sabe. Pela simples razão de que não existe”.

Os painéis solares já afetam muitas terras de cultivo agrícola. Nas eólicas, as enormes ventoinhas não apenas prejudicam a paisagem como provocam ruído – será que esses inconvenientes ambientais são devidamente ponderados? Se a resposta é afirmativa, então deveria ser divulgada. Receio, porém, que, também aí, predomine a lei da selva.

Hoje os ambientalistas portugueses manifestam-se sistematicamente contra barragens nos rios portugueses. Compreende-se que a construção e, depois, o funcionamento de uma barragem destruam equilíbrios ecológicos e restrinjam a biodiversidade. Mas não se pode ignorar o papel das barragens na produção de energia não poluente e também na regularização dos caudais dos rios, atenuando os efeitos destrutivos das cheias.

Estas e outras interrogações deveriam ser publicamente esclarecidas pelo ministério do Ambiente. Importa sobretudo que surjam estratégias claras para os vários problemas ambientais, permitindo ponderar caso a caso as vantagens e os inconvenientes das soluções a aplicar.

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