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Entrevista Renascença

Arsénio foi uma das figuras do Arouca e mantém-se no clube na I Liga

03 jun, 2021 - 08:36 • Eduardo Soares da Silva

O extremo português chegou em janeiro e tornou-se indispensável nas opções de Armando Evangelista. Arsénio diz que o Arouca provou que merece estar na I Liga e confirma que vai continuar no clube na próxima época.

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Arsénio foi uma das grandes figuras do Arouca esta temporada, apesar de só ter chegado ao clube em janeiro. O clube garantiu a subida à I Liga depois de ter vencido o Rio Ave no "play-off", por 5-0 no agregado das duas mãos.

O extremo, de 31 anos, regressou a Portugal em janeiro depois de uma temporada ao serviço do Al-Fayha, da Arábia Saudita, e teve impacto imediato no Arouca.

Em 23 jogos de utilização, Arsénio apontou seis golos e um deles sentenciou a eliminatória com o Rio Ave, em Vila do Conde, no jogo da segunda mão. Aos golos, o médio português juntou ainda seis assistências.

Com a promoção do Arouca à I Liga, Arsénio soma já três subidas ao escalão principal, depois de Belenenses, em 2012/13, e Moreirense, em 2013/14. Arsénio não teve medo de "dar um passo atrás" e regressar à II Liga. O jogador revela à Renascença que vai continuar no clube na próxima temporada.

Como estão a ser as celebrações da subida do Arouca? Ainda se prolongam ou já foram de férias?

A festa [que começou no domingo] foi até terça-feira [1 de junho], com a equipa e as pessoas de Arouca. Terminou com a receção na câmara. Desde que acabou o jogo até à terça à noite foi sempre a celebrar. Foi uma época não muito longa, mas desgastante. Acabou da melhor maneira e aproveitamos para festejar bem, dentro das regras agora impostas.

Conte-me o que aconteceu após o apito final em Vila do Conde. Foram celebrações efusivas no relvado, mas rapidamente foram para Arouca festejar.

Mal terminou o jogo [fomos para Arouca]. Não estávamos em nossa casa, tem de haver respeito pelo Rio Ave, que desceu de divisão. Contivemo-nos um pouco no relvado. Abraçámo-nos, mas tentámos confortar os jogadores do Rio Ave, alguns de nós tinham jogado lá, como o Pedro Moreira. Sentiu que deveria fazer isso. Também tentei dar uma palavra de conforto.

Depois disso, com respeito, festejámos no relvado, balneário, autocarro até Arouca, sempre a festejar.

Poucos acreditavam inicialmente que o Arouca podia ganhar ao Rio Ave...

Internamente sempre tivemos o objetivo de subir, mesmo não passando isso para fora. Era o nosso objetivo. Tivemos períodos em que uma vitória nos aproximava, mas não conseguíamos. Mas nesta reta final e depois do empate em Vizela, decidimos que era, ou não era. Demos as mãos e não perdemos mais nenhum jogo.

Se dúvidas restassem em relação à nossa qualidade, coroámos [a subida] com este "play-off" contra uma equipa da I Liga, demos a machadada final e provámos que merecemos estar na I Liga.

Como foi a expetativa do jogo com o Rio Ave? Era uma equipa de I Liga, tinha estado perto de eliminar o AC Milan no "play-off" da Liga Europa e era uma incógnita, mas venceram logo de forma clara por 3-0 em Arouca.

Muitos de nós vivíamos em Arouca e muitas vezes viamos jogos juntos da I Liga e do Rio Ave. Sempre achámos estranho estarem naquela posição, tinha estado na Liga Europa, quase eliminou o AC Milan e eliminou o Besiktas, que foi campeão na Turquia.

Quando nos calhou o Rio Ave, achámos que iria ser muito difícil, como foi, mas nós tornamo-lo fácil. Sempre acreditámos que poderíamos vencer. Eu ainda não estava, mas o Arouca jogou com o Vitória de Guimarães para a Taça de Portugal e deram uma boa réplica.

Estávamos confiantes, nós estávamos com mais confiança, e eles a lutar para não descer foram mais abaixo animicamente. Aproveitámos esse fator para nos superiorizarmos.

Ainda antes, na última jornada, o Arouca chegou a estar virtualmente na I Liga, porque o Vizela estava empatado com o Vilafranquense. No fim do jogo, sentiram desilusão por falhar a subida direta, ou já não era a expetativa inicial?

O lugar que dependia de nós era o terceiro, só precisavamos de ganhar ou empatar. O "play-off" já era um prémio pela época que fizemos e queríamos outra oportunidade para a subida. Obviamente que queríamos o lugar e sabendo que o Vizela estava empatado deu-nos algum alento.

Como não dependíamos de nós, é mais complicado estar a contar com os outros para nos ajudar. O que dependia de nós foi feito. Houve alguma desilusão quando acabou, mas houve uma mentalização rápida para nos focarmos nos dois jogos com o Rio Ave. Foi o pensamento da equipa.

Esse plano mental também se sentiu a meio da eliminatória com o Rio Ave. O presidente e o treinador Armando Evangelista procuraram manter a calma e não davam a eliminatória como ganha, apesar do 3-0. Houve esse trabalho com o plantel?

O próprio grupo também teve esse cuidado, para não "embandeirar em arco" e festejar antes do tempo. Sabíamos que era muito difícil o Rio Ave reverter um resultado de 3-0, porque iriam ter de abrir muitos espaços e somos fortíssimos no contra-ataque.

Respeitámos sempre, se o Rio Ave marcasse muito cedo, poderia complicar. Mas sempre acreditámos, não fizemos muita festa para estarmos concentrados. Dentro do grupo, acreditámos que já não era possível tirarem-nos da I Liga.

Na segunda mão é o Arsénio que mata por completo a eliminatória, com o golo na primeira parte. Sentiu que tinha fechado a subida?

O nosso objetivo para os dois jogos era não sofrer golos, vínhamos bem cotados da II Liga como a melhor defesa, sabíamos que era muito difícil fazerem-nos golos e manter a baliza a zeros era o objetivo.

Depois, tentar a nossa sorte na frente, conseguimos isso. Tive felicidade de fazer o golo, notei que os jogadores do Rio Ave foram-se um pouco abaixo, tentaram sempre, foram dignos, mas ficava muito difícil.

Para si, a título individual, foi especial marcar no "play-off"?

Sim, felizmente tenho tido uma carreira com bastantes sucessos, fiquei ligado à história dos clubes por onde passei. Tenho três passagens pela II Liga e três subidas de divisão [Belenenses, Moreirense e Arouca]. No Moreirense marquei o golo que deu a subida, agora também foi especial ter marcado um golo importante na história do Arouca que nos deu a subida.

Voltando atrás, o Arsénio só chega em janeiro ao Arouca depois de ter feito várias épocas na I Liga. O que é que o convenceu a assinar pelo Arouca?

Voltei da Arábida Saudita em setembro, porque a pandemia adiou o calendário. Cheguei e as equipas já tinham plantéis fechados. Só poderia assinar e jogar a partir de janeiro. Aproveitei umas férias, não tinha sido fácil lá fora. Aproveitei com a família. O Arouca já tinha falado comigo desde julho, sempre adiei porque tinha de acabar o campeonato.

Continuaram a tentar contratar-me quando voltei a Portugal. O campeonato começou, fui vendo os jogos, gostei da maneira do Arouca de jogar. Vi bastantes jogos e contactei os responsáveis e começámos a falar do contrato.

Esteve esse período sem jogar, de setembro a janeiro, mas rapidamente entrou no 11 inicial do Arouca. Fisicamente não teve grandes problemas...

Sempre treinei, não parei. Não é igual, mas tive um mês desde dezembro até janeiro. Fui logo para lá para treinar, ambientar-me, conhecer o treinador e os métodos. Foi uma decisão acertada. Ajudou melhor à minha adaptação. Quando comecei a jogar já estava num ritmo muito bom.

Nessa fase, o Arouca estava confortável na tabela, mas não era apontado como um dos candidatos à subida. Sentia que poderia fazer a diferença?

Quando cheguei, o Arouca sempre mostrou grande qualidade de jogo e com bons jogadores. Mas, como disse, não estava a conseguir dar aquele salto que os transportava para outros lugares.

O primeiro jogo que faço é com a Académica e se ganhássemos penso que iríamos para segundo ou terceiro, mas perdemos esse jogo em casa. Faltava esse clique.

Não digo que fui fundamental, mas tentei ajudar a que isso fosse possível e fizemos acreditar que isso fosse possível aos mais novos. Eu, o Marco Soares, o Pedro Moreira, e também o Sema Velázquez que chegou em janeiro e ajudou a transportar a equipa para outro patamar.

Fez seis golos e seis assistências em meia época. Muitas vezes não é fácil integrar um plantel a meio da época, mas rapidamente se tornou num jogador importante?

A nível de números correu bem. É sempre bom um jogador ofensivo fazer golos e assistências. É ótimo aliar qualidade de jogo, jogar quase sempre, golos e assistências. Pude ajudar a equipa de uma forma muito positiva.

Foi a terceira subida de divisão do Arsénio na carreira. Está a tornar-se numa espécie de especialista nas subidas?

E também tenho uma subida no Padroense da antiga terceira divisão para a II B, mas a nível profissional são essas três. Posso ser associado a isso, tive as duas subidas seguidas, fomos campeões nas duas. Quis ficar na I Liga, para não ficar com o rótulo de ser jogador de subidas na II Liga, quis mostrar algo mais.

Surgiu esta oportunidade e consegui mais uma para juntar ao currículo. Mas não me considero um talismã, nem um mestre de subidas, esse era o grande Vítor Oliveira.

O que nos pode dizer sobre o seu treinador, o Armando Evangelista. Sempre se manteve bastante recatado publicamente, mas superou as expetativas e conseguiu a subida de divisão.

Conhecia o treinador, mas não o seu trabalho. Gostei muito, é uma pessoa de bom trato, fala bem, os métodos de treino são muito bons, gosta de jogar futebol positivo. Gostei muito do homem e do treinador que encontrei.

O Armando Evangelista falou de não darem valor suficiente ao Arouca ao longo da temporada. Isso foi um fator de motivação extra para o plantel, sentia-se isso no grupo?

Sim, sentimos um pouco. Às vezes víamos jogos da II Liga, davam crédito a equipas que não estavam tão bem posicionadas como nós. Nós sempre estivemos perto da zona de subida, mas nunca nos deram esse crédito, colocaram-nos sempre fora da luta.

Obviamente que apresentámos uma qualidade de futebol muito boa, estávamos a crescer e não havia o reconhecimento. Isso magoou um bocado, fomos das melhores equipas do campeonato, não só pela tabela, mas pelo que fazíamos.

Fomos a melhor defesa, temos vários golos com a participação de toda a equipa, com 20 toques na bola, e não era dado o devido valor. Sentíamos isso. Serviu como estímulo para provar que tínhamos qualidade.

Subiram as duas equipas que vieram do Campeonato de Portugal, Vizela e Arouca. O que é que isto diz da II Liga atualmente e sobre o futebol português?

Voltei, já não jogava a II Liga desde 2014, e notei que a II Liga está com muita qualidade, com jogadores que fizeram carreira na I Liga e ainda podiam acrescentar lá, mas querem vir para a II Liga.

Está muito competitiva, as equipas quase todas apostam para subir. Os jogos já são televisionados, há uma envolvência da II Liga que ajuda que seja um campeonato muito mais competitivo.

O que lhe reserva o futuro? Tem contrato para a próxima época com o Arouca?

Tenho dois anos de contrato com o Arouca e é para seguir.

Que papel tem a direção neste projeto do Arouca, o presidente Carlos Pinho e o filho Joel?

São pessoas que pegaram no clube do nada e transportaram-nos até à Liga Europa. Tiveram uma queda grande, perceberam que nem tudo é um mar de rosas, as coisas não são fáceis, mas reergueram o clube, estão habituados a batalhar para ter as coisas. Transmitem isso aos jogadores que por lá passam.

Voltar à II Liga poderia ser uma decisão arriscada depois de tantos anos na I Liga. Sente agora que foi uma aposta ganha da sua parte?

Foi uma aposta ganha, nunca tive medo de dar passos atrás para depois tirar dividendos mais à frente. Sempre acreditei nas minhas qualidades e no que posso fazer.

Felizmente correu tudo bem, podia ter dado tudo mal, mas quando se tem confiança e se vai com vontade de fazer bem e ajudar, só tem que dar certo.


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