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Hora da Verdade
Uma parceria entre a Renascença e o jornal “Público”. Entrevistas aos protagonistas da atualidade. Quinta às 23h20.
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Entrevista a David Martelo - Hora da Verdade
Entrevista a David Martelo - Hora da Verdade
Coronel David Martelo no programa Hora da Verdade. Foto: Nelson Garrido/Público

Hora da Verdade

"A história é uma sucessão de feridas físicas e morais. Temos de viver com isso"

29 abr, 2021 • Eunice Lourenço (Renascença), Helena Pereira (Público)


David Martelo, historiador e coronel do Exército, lembra que Portugal “era um país pobre para poder ambicionar um império colonial” e defende o fim das “autoflagelações sobre o colonialismo”

David Martelo combateu na Guerra Colonial e tem dedicado os últimos anos a estudá-la. Tem vários livros publicados e é membro do Conselho Científico da Comissão Portuguesa de História Militar.

Militar e historiador, o coronel elogia o discurso do Presidente da República na sessão solene do 25 de Abril e deixa o desafio a um debate sobre quais seriam as alternativas ao colonialismo.

MRS na sua intervenção no 25 de abril disse que devia discutir se a guerra colonial sem alibis e omissões. Ao fim destes anos todos, que alibis e omissões ainda existem?

Uma vez que tenho feito vasta investigação sobre o assunto, parece-me que é um tipo de frases feitas de pessoas que têm lido muito pouco sobre o que se tem publicado acerca da guerra colonial. Estão publicados mais de 600 títulos sobre a guerra colonial e a maior parte foi escrita por antigos combatentes. Como tem havido uma diminuição intensa do estudo da história, cada vez que um assunto destes vem para a ribalta, as pessoas agarram-se a estes chavões, mas não têm fundamento para o fazer.

MRS leu poucos desses livros, é isso?

Não, não. O PR está noutro plano. Ele foi extremamente hábil em ter aproveitado um tema que esteve muito recentemente em discussão, sobretudo, ao falecimento do tenente-coronel Marcelino da Mata e percebeu e muito bem que surgiram nessa altura posições extremamente surpreendentes até do ponto de vista do bom-senso histórico e, portanto, como professor, quis utilizar a cerimónia do 25 de Abril como uma aula de pedagogia. Só tenho a louvá-lo. Terá sido também uma maneira para não falar de outros assuntos que são muito mais difíceis de abordar num dia festivo como a corrupção.

No dia a seguir, surgiram uma série de artigos de opinião que são esmagadoramente a favor e elogiosos do discurso do PR. O único que não era tão elogioso foi o de Manuel Loff. A determinada altura escreveu: "Quando Marcelo nos pede para não “[exigir] aos que viveram esse passado que pudessem antecipar valores (...) agora tidos por evidentes, intemporais e universais”, persiste num dos mais velhos erros metodológicos da leitura reacionária do passado: o de inventar um tempo em que os valores dominantes seriam tão consensuais que nenhuns outros teriam sido enunciados. Em todas as épocas os valores dominantes tiveram alternativas; todas as ordens tiveram resistência; todas as verdades do tempo tiveram quem as denunciasse".

É aqui que está a questão que mais necessita de ser debatida: as tais alternativas. Eu até sugeria aos mais novos que começassem por ler a carta de Pero Vaz de Caminha sobre o achamento do Brasil, onde conta o encontro dos marinheiros portugueses e os habitantes locais. Ele faz a descrição minuciosa de como ele estavam seminus e como se conseguiam entender. A partir daí é necessário dizer quais eram as alternativas aquilo que se fez depois de os europeus, através dos portugueses saberem que existiam essas terras habitadas por seres humanos que segundo Charles Boxer estavam na idade da pedra. O desafio que eu faço é: digam lá quais eram as alternativas. Os marinheiros chegavam lá e, em vez de irem imbuídos das bulas papais que foram concedidas ao rei de Portugal para as Descobertas, iam atuar com a moral atual?

É a isso que o PR chama a atenção.

Eu já fiz essa tentativa de saber como se lidava com essas populações. Quando uma pessoa diz que é contra o colonialismo, fico com a dúvida sobre o que essa pessoa está a dizer: uma coisa é ser contra o colonialismo numa perspetiva pós II Guerra Mundial, outra é ser contra o colonialismo e recuar às colónias gregas e fenícias e condenar isso tudo e pedir indemnizações. Tudo isso tem que ser devidamente contextualizado com bom-senso.

Uma das posições que, embora não concordando, aceitaria seria dizer: "Quando os portugueses chegaram às costas do Brasil e viram que estavam lá seres humanos com os quais não se entendiam, o que deviam fazer era terem feito meia-volta e terem os deixado lá estar em paz". A partir deste absurdo, vamos discutir se havia alternativas como disse o prof. Manuel Loff. Estou desejoso de saber quais são. Fico à espera que com este desafio do PR e a resposta do prof. Manuel Loff, que seja o próximo plano do debate para acabarmos de vez com estas suspeições e estas autoflagelações que têm sido feitas nos últimos tempos.

Noutro artigo, o mesmo Manuel Loff escreveu que enquanto "permanecem vivos os protagonistas imediatos da guerra colonial permanece forte a ideologia da legitimidade da dominação colonial”. Em Portugal, acha que ainda existe essa ideologia da legitimidade da dominação colonial? Acha que há uma nostalgia do império?

Tenho a certeza de que há uma pequena percentagem de antigos combatentes que ainda defende essa legitimidade, mas a maior parte ainda lamenta e com razão que no contexto desta discussão não reconheçam o enorme sacrifício que foi o terem lá ido. Há que separar a questão política do serviço obrigatório, de cumprir aquilo que estava estabelecido na altura. Muitos dos oficiais que fizeram o 25 de Abril foram ilustres combatentes da guerra colonial e foi exatamente por terem esse sentimento do dever cumprido que se sentiram com o ânimo e justificação para fazerem o 25 de Abril. Essa ligação da guerra colonial com o 25 de Abril que está perfeitamente consolidada nos militares que o fizeram não está por vezes feita de uma forma positiva na sociedade civil.

Marcelo Rebelo de Sousa também falou em dissecar tudo, mas que isso pode abrir feridas. Ou elas ainda estão abertas e tentamos ignorá-las?

Muitas feridas. As feridas existiram sempre a longo da história. A história é uma sucessão de períodos em que se aplicam ferimentos, uns físicos, outros morais. Temos que viver com isso e saber que não é nada de novo. A posição cómoda é não mexer nas feridas e é uma posição que deve ter séculos. Isto é tudo da natureza humana.

Um ex-PR, Jorge Sampaio, dizia que se falava mais de como a descolonização foi feita do que da própria guerra colonial, talvez para impedir que se falasse da violência colonial. Portugal já assumiu que cometeu crimes de guerra, por exemplo?

Sim, claro. Isso está perfeitamente assumido. As pessoas têm que ler nos livros onde isso foi publicado. É a tal história da história. Está assumido mas a história não se esgota aí. Temos que ter a noção que tem que ser tudo visto no seu conjunto. Eu estive em duas comissões em Angola e nunca tive conhecimento de nenhum massacre. Só os conheci muito depois, a partir do 25 de Abril. Só sabia de Wiriamu (1972), em Moçambique, porque foi tornado público cá em Portugal.

Manuel Loff lembra uma série de massacres coloniais como Pidjiguiti (1959), Viqueque (1959), Mueda (1960), Baixa do Kasanje (1961), Wiryamu (1972), Batepá (1953), os musseques de Luanda (1961), os contra-massacres do Norte de Angola (1961).

Mas isso em 13 anos de guerra é muito pouco se compararmos com o que está a acontecer agora no Norte de Moçambique ou na Lunda há cerca de um mês. Ninguém nega o ter acontecido, são situações extremas, mas não podemos fazer disso a chapa, o modelo da guerra colonial porque não foi isso.

Marcelo apelou a um debate sobre a guerra colonial que envolva os povos colonizados. Acha que está na altura de isso acontecer e de olharem todos juntos para a história desses massacres ou cada um vai continuar a fazer a sua história?

Vão fazendo a sua história. Há poucas publicações nesses países, mas esperamos que isso possa fazer também parte do debate. Mas há que ter em conta que a imagem que existe de Portugal nesses países não é inteiramente negativa. Digo mais: a maior parte dos habitantes de Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e Cabo Verde é claramente superior e com laços mais afetivos do que em outras colónias.

Está a dizer que houve um colonialismo bonzinho?

A ideia que por vezes vem a debate é essa. Mas sabe uma coisa? O colonialismo bonzinho, por vezes, é o resultado de não termos capacidade para sermos piores. A distância civilizacional entre nós e os africanos era menor do que entre os holandeses e os asiáticos ou os ingleses e os africanos. Como estávamos mais próximos deles talvez não fossemos tão arrogantes e por falta de meios financeiros não tínhamos a capacidade para sermos uns grandes colonialistas e isso foi talvez um dos erros maiores da história: foi querermos ter um império colonial, no final do séc. XIX, como a Inglaterra, ainda quisemos ter aquele território entre Angola e Moçambique. Isto era uma coisa absolutamente de loucos, nós não tínhamos meios. Eramos um país pobre, que não tinha riqueza nem excesso de população para poder ambicionar ter um império colonial. Quando chegamos à década de 50 e 60 é claro que foi um erro - assim que as outras potências começaram a descolonizar - o nosso Governo devia ter sido o primeiro a dizer: "Nós também!". Do ponto de vista político, foi um excesso. Parafraseando Camões, foi mais do que prometia a força humana. E há o aspeto humano dos militares que fizeram o sacrifício de lá estar e o dos que estavam lá como colonos.

A deputada Joacine Katar Moreira defende a retirada de pinturas com alusão à escravatura da Assembleia da República. O que acha disto?

Mas retirar para quê? Para esconder? A democracia não é renegar o percurso que fizemos na história. Quando se der o caso de lá irem visitas de escolas, deve-se aproveitar para explicar o que aconteceu.
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