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O que mostram os Censos? Delmira não tem estudos, vive sem casa de banho e nunca viu o mar

20 abr, 2021 - 07:37 • Liliana Carona

No concelho de Seia, 80% da população das 14 aldeias mais distantes da sede necessita de ajuda para responder aos Censos 2021. Até 3 de maio estão no terreno os recenseadores e os coordenadores de freguesia que se deslocam às habitações.

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Tia Delmira, assim é tratada Maria Delmira de 86 anos, conhece bem quem lhe está a bater à porta: o recenseador Marco Pina, 29 anos, que enverga um colete amarelo.

"A minha função é ser o elo: Vou estar em contacto com as pessoas e esclarecer dúvidas”, anuncia ao chegar junto da moradora de Sazes da Beira, viúva e mãe de quatro filhos.

Marco inicia o questionário. “Tia Delmira, vamos começar por fazer algumas questões e vai respondendo devagarinho. Quantas divisões tem em casa, sem contarmos com a cozinha, casa de banho e despensa?”, mas a octogenária interrompe para dizer que não tem casa de banho. “Não tenho esgoto e pago saneamento, tomo banho numa bacia”, lamenta a moradora. “E aquecimento em casa, tem?”, continua o recenseador Marco. “Tenho uma lareirita, mas é só fumo, nem acendo, só dois quartitos e uma salita”, conclui Delmira que recorda outros tempos. “Antigamente era tudo cheio de gente e agora nada, não há cá quase ninguém, mas para onde hei-de ir?”, atira.

“A minha data de nascimento? Não sei ler, nem sei nada, os meus pais não mandaram ensinar, fui agricultora toda a vida. Sei que faço anos três dias antes do Ano Novo", diz a sorrir.

Nascida em Sazes da Beira, nunca dali saiu

“Nunca viveu fora de Portugal?”, questiona o recenseador Marco Pina. Delmira apressa-se a garantir que nunca saiu da terra - nunca foi à praia ou viu o mar. “Com 200€ que recebo não dava para andar por lá. Tenho de economizar para comprar os remédios, agora já não posso cultivar. Mas já fiz a minha parte. Nem para pão, quanto mais”, assume.

“Está feito, não a chateio mais”, despede-se Marco, acompanhado pelo coordenador de freguesia dos Censos 2021, que é também presidente de junta da freguesia de Sazes da Beira.

“No último recenseamento eram 283 pessoas em Sazes. Vai haver uma quebra substancial, há bastantes casas desabitadas e algumas em estado de degradação”, revela Carlos Santos, 28 anos, ansioso pelo retrato à sua freguesia.

“Não temos de esconder este tipo de coisas, são realidades que temos. Cinco ou seis casas que têm fossas sépticas próprias, derivado à orografia do terreno. Não têm acessibilidade para escoamento para a rede pública. É uma situação complicada”, justifica.

O trabalho dos recenseadores e coordenadores implica percorrer vários quilómetros a pé. “Tem de se confirmar todos os alojamentos, moradas, georreferenciações”, esclarece Rodrigo Pinto, 25 anos, delegado sub-regional, responsável pelos municípios de Seia e Oliveira do Hospital.

“Coordeno as equipas de recenseadores, coordenadores, delegados, faço a ligação entre o INE e os municípios. Estamos a ter muita afluência, muita resposta, as pessoas estão a colaborar”, declara.

Mais de 80% da população necessita de ajuda para responder

No total de 21 freguesias, 14 estão mais distantes da sede do concelho de Seia e Adriano Lopes, 35 anos, delegado municipal, está responsável por fazer chegar os Censos 2021 às povoações mais longínquas, onde 80 a 90% da população precisa de ajuda para responder aos inquéritos.

“Em tempos de pandemia privilegiamos as respostas pela a Internet, mas para estas pessoas, que têm dificuldade, temos os recenseadores e os coordenadores de freguesia que se deslocam aos seus alojamentos. É onde há a população mais envelhecida, idosas, com dificuldade em aceder à internet, baixo nível de escolaridade”, revela.

Quem tem acesso à Internet pode responder aos Censos de forma digital, com os códigos das cartas do INE distribuídas pelo país. O questionário deve ser entregue até 3 de maio.

Segundo o portal do INE, até esta segunda-feira efetuaram-se, em Portugal, quinze recenseamentos da população e cinco recenseamentos da habitação, de acordo com as recomendações internacionais, iniciadas em 1853.

Os Recenseamentos da População e da Habitação – CENSOS – são as maiores operações estatísticas realizadas em qualquer país do mundo e destinam-se a obter informação sobre toda a população residente, as famílias e o parque habitacional.

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