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​Patrícia Reis escreve sobre a pandemia. “O livro serviu-me para aligeirar o medo”

09 abr, 2021 - 08:00 • Maria João Costa

“Da meia-noite às seis” é o novo livro de Patrícia Reis, editado pela D. Quixote. Tem como cenário os dias da pandemia e teve de aguardar que as livrarias reabrissem para chegar aos leitores. A história fala da rádio e do “poder imenso que é o encontro com a multidão através da voz”.

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Depois do último livro, “As Crianças Invisíveis”, Patrícia Reis sentiu que não tinha mais nada para escrever. Mas uma personagem de corpo inteiro bateu-lhe à porta durante o primeiro confinamento e a autora deixou-a entrar. “Se calhar, o livro serviu-me para aligeirar o medo”, diz Patrícia Reis, recorrendo às palavras sábias de Agustina Bessa-Luís que tanto admira.

Em “Da meia-noite às seis” conta a história de Susana Ribeiro de Andrade, uma locutora de rádio que faz as emissões das madrugadas. Em torno desta história surgem outras, vidas todas elas tocadas pela pandemia. O livro passa-se num futuro próximo, em 2022, mas tem um relato muito presente.

Em entrevista ao programa Ensaio Geral da Renascença, Patrícia Reis, explica que a “única” coisa que lhe interessa é escrever sobre pessoas. A pergunta cantada por Caetano Veloso: “Existirmos: A que será que se destina” marca o ritmo das páginas deste novo livro editado pela D. Quixote.

“Da meia-noite às seis” poderia ser o nome de um programa de rádio, mas é o título do seu livro que tem como pano de fundo a pandemia. Que história quis contar?

A pandemia serve apenas de contexto para falar daquilo que me importa sempre, que são as relações entre as pessoas e esta procura de identidade, de construção e destruição de identidade a partir de acontecimentos mais traumáticos. Quando comecei a escrever durante o primeiro confinamento, a Susana Ribeiro de Andrade, que é a personagem principal à volta da qual tudo gira, surgiu-me como não esperava que surgisse.

A personagem da Susana Ribeiro de Andrade impôs-se?

Eu achei sinceramente que não escreveria mais nada, depois de “As crianças invisíveis” que é o livro anterior, porque foi um processo muito duro. Senti que tinha fechado um ciclo quando entreguei o livro, um ciclo relativamente à infância e à adolescência que me foi muito importante e que está no “Por Este Mundo Acima”, no “A Construção do Vazio”, e em “As Crianças Invisíveis”.

A verdade é que entreguei o livro e não tinha nada na minha cabeça! Eu geralmente quando entrego um livro, já tenho outro, o que nunca me deixa órfã de personagens. Mas pensei, sinceramente: “olha, não há nada para escrever agora! Paciência!”. Quando me surgiu a Susana Ribeiro de Andrade, no final do mês de março do ano passado, foi uma surpresa.

E é curioso porque essa personagem em torno da qual escreve o livro, tal como outras, surge sempre com nome completo, nome e apelido.

As personagens aparecem-me assim, inteiras, com aspeto físico, já com o lixo e a tralha toda do passado, mas sempre com esta pergunta: “Quem é que eu sou? Para onde é que eu vou? O que é que eu vou fazer?

A Susana Ribeiro de Andrade é locutora de rádio e faz o programa das madrugadas. A história dela serviu-lhe para falar sobre aquilo que a pandemia sublinhou, nomeadamente a solidão, o luto?

São pessoas a discutir com elas próprias, como é isto de ser pessoa. Daí a canção do Caetano Veloso, “Cajuína” que interroga: “existirmos: a que será que se destina?”. Acho sinceramente, olhando para trás, que eu só escrevo sobre isto! Sobre a que é que se destina isto, de vivermos muitas vezes assolados por peripécias, acidentes, mágoas e desgostos, coisas boas e maravilhosas, e encontro felizes. O que é que isto significa para a nossa identidade? Estou sempre a escrever sobre isso.

E isso a pandemia pôs em evidência.

A única coisa que me interessa é escrever sobre pessoas, e claro que a pandemia levanta uma moldura incrível, porque levanta questões, nomeadamente como é que reestruturamos a nossa vida para de repente ficarmos em casa, confinados.

Outro dos personagens centrais deste livro é Rui Vieira, o jornalista que faz as madrugadas com Susana Ribeiro de Andrade. Ele, por um acontecimento traumático, perde a capacidade de falar, fica mudo. É simbólico também a forma como esta pandemia nos silenciou, nas nossas vidas sociais?

É uma metáfora desta necessidade imperativa de pararmos. Nós vivemos numa vertigem inacreditável. Estamos sempre ligados, a ver, ouvir, a ler coisas e a fazer comentários, “likes” e “emojis”. Precisamos um bocadinho de parar, dar dois passos atrás e perceber o que é que queremos da vida. Será que é só isto? Esta vida que vivemos com muita tecnologia tem um lado superficial que me incomoda muito.

A Agustina Bessa-Luís diz que “escrevemos para aligeirarmos o medo”, se calhar, no primeiro confinamento o livro serviu-me precisamente para isso, para aligeirar o medo e pensar como é que vamos viver agora, sem poder ver os amigos, os mais velhos, sem festejar? Como é que vai ser o Natal, a Páscoa? Como é que tudo isso se redesenha?

E estas duas personagens juntam-se para fazer uma rádio diferente em tempo de pandemia. Optam por contar histórias felizes, fugindo ao tema do vírus. Arriscam?

Vivemos dentro de um mono tema. É o vírus, as consequências do vírus, o vírus a nível económico, político e cultural. Precisamos de contrabalançar isto com histórias positivas e elas de facto existem. E nós estamos um bocadinho voyeuristas do mal.

Eles querem quebrar isso.

Sobretudo neste horário “Da meia-noite às seis”, na rádio é lhes dito que são horas mortas. É um horário para o qual ela se voluntaria depois da viuvez. E de facto, eles percebem primeiro que têm pessoas do outro lado que os ouvem, e que interagem, e que é possível encontrar alguma redenção através do outro. Acho que a rádio tem este poder imenso que é o encontro com a multidão só através da voz e isso é de uma intimidade incrível.

Este acaba também por ser um livro sobre essa redenção e o valor da amizade?

O que acontece é que a Susana descobre através da escrita, porque afinal o Rui Vieira não fala, que tem onde e a quem se agarrar. Ainda há esperança para algumas coisas! Além dos seus ouvintes. Porque, de repente, ela tem de fazer vários lutos de várias coisas. Como todos nós temos na vida.

É muito engraçado porque a nossa maneira de viver a morte mudou com a pandemia. E os rituais da morte fazem falta. E o que é que nos faz falta? É a partilha, o abraço, o saber que aquela pessoa vem dizer-nos: “lamento muito, estou aqui para ti. O que é que precisas?” Isso é muito importante. E estes dois, a Susana e o Rui, encontram-se por mero acaso e no fim do livro o que sobra é “estou aqui para ti, o que é que precisas? Não estás sozinho!”

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  • Ivo Pestana
    09 abr, 2021 Funchal 20:21
    Um bom livro ajuda e muito. Quando lemos um livro alguma coisa fica connosco. Parabéns a esta Senhora por além de bonita, escreve bem e é uma força viva do país.

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