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Empresas falam, falam, falam em sustentabilidade, mas em 44% não entra no orçamento

09 abr, 2021 - 10:00 • Fábio Monteiro

Apesar de ser uma bandeira importante na retórica, a sustentabilidade ainda não é uma prioridade no orçamento e organização de muitas empresas, revela o “Estudo de Impacto da Covid-19 na Sustentabilidade”, da Porto Business School. O “desafio da consciencialização das empresas, dos gestores, está ganho”. “Só que essa vitória pode ser uma vitória de Pirro se, de facto, não formos capazes de agora de transformar esse nível de consciência num nível de ação com o mesmo impacto”, avisa Rui Coutinho.

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Há palavras que pululam no universo empresarial, das conversas de copa às reuniões que direção, que de tão utilizadas, por vezes, se tornam chavões sem significado - mesmo quando o propósito por detrás das mesmas é benigno. "Sustentabilidade", porventura, é um exemplo.

A ideia (com raízes no campo ambiental), que entrou para o léxico há apenas alguns anos, é, nos dias que correm, uma bandeira e prioridade para muitas empresas nacionais. Pelo menos, é isso que passa para o exterior. Porém, ao nível interno, a retórica não parece corresponder aos atos. Ou, melhor, ao orçamento alocado para esses atos.

Um inquérito elaborado pela Porto Business School (PBS) e pela Aliados Consulting, cujos resultados foram divulgados esta semana, revela que 43,6% das empresas auscultadas admitiu não ter orçamento para medidas focadas em práticas de sustentabilidade; e 23% confessou ainda não saber qual o orçamento disponível ou saber se este existe sequer. (Ao mesmo tempo, quase metade (48,7%) das empresas disse considerar que a sustentabilidade é um tema “muito importante” na respetiva estratégia.)

Segundo Inês Santos Silva, CEO da Aliados Consulting, a percentagem de empresas sem verbas é expressão da “imaturidade para a área da sustentabilidade”. Mas, sublinha, isso “não acontece em todas”. “Muitas empresas percebem que isto é importante. E estão a dar passos. E esses passos podem passar por dar formação aos colaboradores”, explica à Renascença.

Rui Coutinho, diretor-executivo do Center for Business Innovation da Porto Business School (PBS), diz não ter ficado admirado com os resultados do “Estudo de Impacto da Covid-19 na Sustentabilidade”. “Posso dizer que fiquei até positivamente surpreendido a montante, com a percentagem de respostas que dão o tema como muito importante. Acho que isso é um sinal que atingimos alguma maturidade ao nível da consciência ambiental”, diz.

O responsável da PBS aponta que os números revelam que o “desafio da consciencialização das empresas, dos gestores, está ganho”. “Só que essa vitória pode ser uma vitória de Pirro se de facto não formos capazes de agora de transformar esse nível de consciência num nível de ação com o mesmo impacto”, afirma.

Para tal, diz, “são precisos instrumentos”. “O budget não é o único. Ganhamos a batalha da consciencialização, precisamos agora travar a batalha da ação.”

Diz-me quem fala de sustentabilidade, dir-te-ei a importância do tema na empresa

O inquérito da Porto Business School (PBS) e da Aliados Consulting – feito sob regime de anonimato –, decorreu entre outubro e dezembro do ano passado, e recolheu respostas de vários níveis de representantes hierárquicos de 39 empresas – de CEO, passando por diretores de comunicação a técnicos de qualidade. Segundo Rui Coutinho, da PBS, este é um dado relevante. De certa forma, espelha a importância atribuídas pelas empresas ao tema da sustentabilidade.

“O nosso interlocutor foi sempre diverso de empresa para empresa. Isto significa o quê? Que o tema da sustentabilidade em muitas empresas é tratado ao nível dos conselhos de administração e da liderança de topo, noutros casos está junto dos departamentos de recursos humanos, e noutros caso está junto de áreas de responsabilidade social corporativa. Ou seja, não há uma adequação clara da sustentabilidade no contexto organizacional”, diz.

As práticas de gestão sustentável e a função da sustentabilidade no setor empresarial português estão ainda “numa fase relativamente embrionária”, nota Rui Coutinho. Prova disso: a larga maioria das empresas nacionais ainda não têm um departamento dedicado exclusivamente à sustentabilidade. E, quando têm, são pequenos.

Segundo mesmo inquérito, das empresas que disseram ter um departamento responsável e/ou estrutura formal de governança responsável pela área da sustentabilidade, 98% têm entre 1 a 9 pessoas alocadas a essas funções - sendo que metade dessas empresas possui entre 200 e 5000 colaboradores.

As empresas maiores “têm feito um caminho mais maduro”, nota Inês Santos Silva. “Nas grandes empresas, em média, há equipas dedicadas à sustentabilidade, com três, quatro pessoas, por aí. Depois, quando estamos a falar das PME, aí isso é muito mais raro. Portanto, a questão da sustentabilidade, é um tópico que muitas vezes está sobre a alçada do CEO, do dono da empresa, e ainda não tem a alocação a um determinado departamento”, diz.

Perdidas, mas achadas

Sustentabilidade é mais que uma palavra bonita, é um objetivo: 66,7% das empresas que responderam ao inquérito da PBS e da Aliados Consulting preveem que a sustentabilidade seja um fator competitivo no rescaldo da Covid-19. Contudo, para isso, ainda há muito caminho a trilhar.

Muitas empresas “ainda não definiram a própria equipa interna ou um orçamento dedicado à questão da sustentabilidade. Até porque, pelo que nós percebemos, às vezes falta a blueprint, o mapa, o caminho que devo fazer para realmente ser mais sustentável no meu setor. A sustentabilidade é muito específica de setor em setor. Há coisas que são muito importantes em determinado setor, mas completamente diferentes noutro”, diz Inês Santos Silva.

Muitas empresas “ainda não definiram a própria equipa interna ou um orçamento dedicado à questão da sustentabilidade. Até porque, pelo que nós percebemos, às vezes falta a blueprint, o mapa, o caminho que devo fazer para realmente ser mais sustentável no meu setor. A sustentabilidade é muito específica de setor em setor. Há coisas que são muito importantes em determinado setor, mas completamente diferentes noutro”, diz Inês Santos Silva.

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