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China contra-ataca. Nike e H&M podem sofrer boicotes no algodão

25 mar, 2021 - 13:40 • Marta Grosso com agências

Em causa, declarações dos dois gigantes de roupa a retalho sobre o uso de mão de obra forçada da minoria uigur na produção de algodão de Xinjiang, a região chinesa onde é produzido cerca de um quinto do algodão do mundo.

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A Nike e a H&M habilitam-se a sofrer boicotes por parte da China, como reação às preocupações manifestadas pelos dois grupos retalhistas sobre o uso de mão-de-obra uigur nas produções de algodão em Xinjiang (ou Sinquião, em português).

Em setembro do ano passado, a H&M publicou uma declaração onde se disse “profundamente preocupada com relatos de organizações da sociedade civil e dos órgãos de comunicação social, que incluem acusações de trabalho forçado e discriminação de minorias étnico-religiosas” em Xinjiang e que decidiu deixar de comprar algodão aos produtores da região.

Essa declaração deixou de estar disponível no site da marca.

Mais recentemente, a Nike seguiu o exemplo e publicou um comunicado expressando preocupações “sobre relatos de trabalho forçado” em Xinjiang (Sinquião).

“A Nike não adquire produtos” da região e “confirmámos junto dos nossos fornecedores que não usam têxteis ou fios fiados da região”.

Na quarta-feira, dia 24, a Nike encontrava-se no topo da lista de “pesquisas mais procuradas” do Weibo – uma das maiores redes sociais da China – uma reação incentivada por um ‘post’ da Liga da Juventude Comunista, que integra o Partido Comunista Chinês.

"Espalhar rumores para boicotar o algodão de Xinjiang e, ao mesmo tempo, ganhar dinheiro na China? Isso é muito pensamento positivo!", escreveram no Weibo, na quarta-feira de manhã, enquanto eram partilhadas imagens do comunicado da H&M.

Os chineses reagiram em fúria, incluindo figuras públicas, como Wang Yibo, Huang Xuan e Victoria Song, que decidiram cortar laços com as marcas. “Os interesses do país estão acima de tudo”, afirmaram.

Na quarta-feira à noite, pelo menos três grandes plataformas de comercio eletrónico chinesas (Pinduoduo, JD.com e Tmall) já tinham retirado os produtos da H&M do seu stock.

Por seu lado, os órgãos de comunicação social estatais chineses lançaram uma campanha para denegrir as marcas e defender, por outro lado, o algodão de Xinjiang. A CGTN partilhou mesmo um vídeo naquela rede social, com a alegada realidade da colheita de algodão na região, no qual um fazendeiro uigur afirmava que as pessoas "lutavam" para trabalhar por causa dos altos rendimentos.

A H&M "errou nos cálculos" ao tentar ser um "herói justo" e "deve pagar um preço alto pelas suas ações", defendeu a emissora estatal CCTV.

H&M garante respeito. Ocidente anuncia sanções

A empresa sueca já reagiu às ações chinesas, lançando um novo comunicado, desta vez no Weibo, garantindo que "respeita os consumidores chineses como sempre" e que "não representa nenhuma posição política".

Este ‘post’ também foi publicado na quarta-feira.

A empresa Hennes & Mauritz (H&M) tem um longo relacionamento com a China, que beneficia os dois lados: a China é um dos principais fornecedores de matéria-prima e a H&M tem vende para um grande mercado.

Pequim não aprecia de ser chamado a atenção sobre assuntos que considera internos e gosta de usar o seu poderio comercial para manter os governos silenciosos no que respeita aos direitos humanos.

Contudo, na segunda-feira, vários países ocidentais (como Reino Unido, Canadá, Estados Unidos e a própria União Europeia) anunciaram sanções à China na sequência de denúncias sobre o modo como o país trata a minoria uigur.

Xinjiang, os uigures e o mundo

Pequim é acusada de cometer graves violações dos direitos humanos contra esta minoria muçulmana, que se considera cultural e etnicamente próxima das nações da Ásia Central e que vive, na sua maioria em Xinjiang (Sinquião).

Mas é precisamente nesta região chinesa que se produz cerca de um quinto do algodão do mundo. Cerca de uma em cada cinco roupas de algodão vendidas globalmente contém algodão ou fios de algodão desta região.

A região é, em teoria, autónoma, mas as restrições por parte da parte da China têm vindo a aumentar e a autoridades chinesas são mesmo acusadas de ter implementado programas de trabalhos forçados àquela minoria.

Nas últimas décadas, a migração em massa de chineses han (a maioria étnica da China) para Xinjiang alimentou a tensão com os uigures, tendo mesmo ocorrido focos de violência com vítimas mortais.

Tal deu origem a uma maior repressão e um extenso programa de vigilância por parte do Estado, que os críticos dizem violar os direitos humanos dos uigures. A China afirma, por seu lado, que tais medidas são necessárias para combater o separatismo e o terrorismo.

Os uigures foram levados para campos, onde surgiram denúncias de tortura, trabalho forçado e abuso sexual. A China negou as acusações e afirma que os campos são instalações de "reeducação", destinadas a tirar os uigures da pobreza.

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