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Entrevista

Vacina portuguesa contra a Covid-19 pode estar no mercado no próximo ano

12 fev, 2021 - 21:04 • Olímpia Mairos

Sem necessidade do recurso a seringas e agulhas, a nova vacina vai ser administrada por via nasal. Terá um preço acessível e, se correr bem, chega ao mercado no terceiro trimestre de 2022. A empresa de Cantanhede já está a preparar os ensaios clínicos.

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A Immunethep, sedeada no Biocant Park, em Cantanhede, está a desenvolver uma vacina para a Covid-19, composta pelo vírus inativado e destinada a potenciar a imunidade pulmonar.

Em entrevista à Renascença, o CEO da empresa biotecnológica, Bruno Santos, adianta que os ensaios clínicos devem avançar dentro de seis meses. A vacina portuguesa, com administração intranasal, deve estar no mercado em 2022.

A Immunethep está a preparar uma nova vacina contra a Covid-19. Quais são as suas principais caraterísticas?

Nós estamos a preparar uma vacina para a Covid que tem em conta tentar melhorar aquilo que são as vacinas que estão neste momento no mercado, ou seja, uma vacina que seja menos suscetível a variações do vírus.

O que a distingue das vacinas que já se encontram no mercado?

Nós usamos um vírus inativado, usamos o vírus todo e não apenas uma parte do vírus, como as vacinas que estão neste momento no mercado. Também procuramos reforçar a nossa resposta imune, com um adjuvante, que é algo que é utilizado nas vacinas para promover essa resposta do nosso sistema imune, que aumenta a nossa capacidade de resposta para diferentes vírus.

E, finalmente, apostamos também numa administração que permita criar a maior parte dos anticorpos, digamos assim, a nossa preparação, a nossa resposta nos pulmões. E, para isso, temos uma administração intranasal que permite exatamente reforçar a imunidade.

Uma vacina que dispensa as seringas?

É engraçado que a nossa opção, por ter sido mais para aumentar a capacidade de resposta, acaba por ser uma vantagem hoje em dia, porque, com as vacinas que estão a tentar ser produzidas pelo mundo todo, há escassez dos frascos da vacina, das seringas, esses produtos passaram a ser produtos que estão completamente esgotados, quase como aconteceu com as máscaras. No nosso caso, como temos um inalador, é bastante diferente e não temos essa limitação.

Em que fase se encontra o processo de produção da vacina e quando estará disponível no mercado?

Neste momento, estamos a preparar o lote para ser usado em humanos, para conseguirmos, dentro de cerca de meio ano, estarmos a iniciar os ensaios clínicos.

A expetativa é que os ensaios possam demorar cerca de nove meses, como aconteceu também com as outras vacinas, e ao fim desses nove meses, termos dados suficientes já para fazer um pedido provisório de aprovação, para conseguirmos colocar a vacina no mercado. Estaremos a falar de 2022.

Pelo que julgo saber, até ao momento os ensaios têm sido realizados em ratos...

Sim. Temos dois tipos de ensaios em animais: um primeiro para ver a resposta do animal à vacina, se era capaz de gerar anticorpos; e, neste momento, estamos a avaliar se depois esses anticorpos permitem a proteção e que nível de proteção. Portanto estamos a meio destes ensaios.

Nos ensaios com ratos, a vacina tem dado mostras de eficácia?

Até agora está a decorrer tudo de acordo com o planeado.

Se a vacina vier a ser aprovada, qual é capacidade de produção? A empresa está preparada para produzir quantas doses?

O que nós falamos, em termos dos nossos parceiros, é conseguirmos, pelo menos, 30 a 40 milhões de doses. A nossa preocupação, quando fechamos este acordo, seria garantir necessidades que cobrissem pelo menos o nosso país, mas, depois, vendo a forma como as coisas estão a ser feitas e são feitas a uma escala europeia, estamos a tentar ver, porque as vacinas são compradas a nível central europeu e depois distribuídas pelos diferentes países europeus. Estamos a avaliar a possibilidade de aumentar essa capacidade junto do nosso fornecedor. Mas, para já, estamos a falar de cerca de 30 milhões de doses por ano.

Há aqui uma vontade de ajudar o país…

Neste momento, como vemos, todas as vacinas ajudam, porque está a haver uma dificuldade imensa de fazer chegar as vacinas suficientes às pessoas todas.

Em termos de preços, será uma vacina acessível?

Estamos a falar de preços mais próximos daquilo que é o preço da vacina da AstraZeneca, bastante mais barato do que os preços das vacinas da Pfizer ou da Moderna, devido às tecnologias e a não exigir aquele circuito de -80 de frio, que é muito complicado, não só para Portugal.

Uma das coisas que é importante para nós é, depois, poder exportar esta vacina e nomeadamente para países que não têm essa capacidade, como alguns países africanos ou países em desenvolvimento, podermos ter uma forma de transporte que exija no máximo um frigorífico normal, uma refrigeração normal e não uma refrigeração de 80 graus negativos, incomportável.

O que representa para a Immunethep este projeto?

O nosso objetivo, como empresa, é trabalhar para um futuro melhor. Isso acaba por ser o que nos direciona, o caminho. E, por isso, o trabalho que nós fazíamos antes, e que continuamos a fazer, está relacionado com soluções e, neste caso, também uma vacina para infeções bacterianas, aquelas desconhecidas das superbactérias que os antibióticos já não são capazes de dar resposta. E este produto enquadra-se perfeitamente naquilo que são os nossos objetivos de ingressar esses problemas mais críticos à escala global e, como tal, queremos ajudar também e fazer a nossa parte.

Comentários
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  • Ivo Pestana
    18 fev, 2021 RaM 13:22
    Então vou esperar por essa. Dizem que o que é nacional é bom.
  • Cidadao
    13 fev, 2021 Lisboa 11:23
    Disponível a partir da data em que a população já está total ou quase totalmente vacinada ... Bem, se se confirmar que o vírus é tipo vírus da Gripe e teremos de nos vacinar anualmente, ainda vem a tempo.

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