Tempo
|
Graça Franco
Opinião de Graça Franco
A+ / A-

​Somos uma democracia com falhas

05 fev, 2021 • Opinião de Graça Franco


Os amigos do amiguismo, os nepotistas, os ingénuos “ultrapassadores” de filas, os pedidos de favorzinhos, de cunhas de jeitinhos, somos nós. Há demasiado tempo. Vemo-nos ao espelho e não gostamos que nos vejam como uma democracia com falhas.

Não ter noção, mesmo vaga, do que significa aprovar agora a lei da eutanásia é de uma insensibilidade atroz. Não perceber, até que ponto, quando se vive uma situação de medicina de guerra e os médicos já poderão ser forçados pelas circunstâncias a decidir quem salvar e quem deixar morrer, esta lei só pode passar esta mensagem de sinal duplamente errado: veem como há vidas que valem mais do que outras. As que valem e as que já não valem ser vividas?

Para cúmulo, no momento em que todos os especialistas alertam para o risco grave de um agravamento da saúde mental que começa a atingir-nos transversalmente, o que se visa com esta nova lei?

Politicamente está à vista. Cumpre-se integralmente a agenda fracturante do Bloco. Embora, é evidente, que é sempre possível lançar uma nova “fraturancia” para assegurar que o partido não desaparece. O último resultado eleitoral não foi animador e a federação dos descontentes já encontrou novas alternativas.

Qual é a pressa? É para aumentar o medo? A confusão e a angústia? É para não perder o balanço das presidenciais e fazer com que Marcelo (que nunca é fácil de condicionar) não esqueça ter prometido que não deixaria que as suas convicções pessoais interferissem na eventual decisão presidencial de veto? Se for isso, estou convicta que falharam a jogada, porque há muito que Marcelo terá decidido o que fazer e, embora seja totalmente imprevisível, não serão outros a mudar-lhe a decisão.

Se decidir promulgar, não o fará agora com mais facilidade do que faria antes. Pelo contrário, o ânimo social nunca poderá ser pior do que este onde o medo vai paralisando os mais velhos com ou sem esse cenário estar ainda sobre a mesa.

Neste momento, talvez pela primeira vez nas nossas vidas, e com bem mais intensidade do que se praticou em plena guerra em África, a medicina de catástrofe já se pratica infelizmente em todo o lado. Porque, tal como notamos nos campos da batalha, não podendo salvar todos o bom senso aplica-se. E salvam-se os que parecem ter mais probabilidade de reagir com sucesso à terapia disponível. E quem tem de decidir qual o doente que avança para o equipamento mais sofisticado pode sair ainda mais exausto do serviço, mas nem por isso deixou de fazer o seu melhor.

Tenta-se por todos os meios salvar todos e depois a constatação feita pelos próprios médicos dói. Porque essa é simplesmente uma impossibilidade.

O ano passado foi este o cenário que nos fez despertar cedo para a pandemia. O caso de Itália, de Espanha, o que continua a ver-se em tantas zonas de Brasil. Agora é aqui e, contudo, os corações foram endurecendo para a fase do salve-se quem puder. A fase da indiferença relativa. Do só acontece aos outros. Um negacionismo de máscara e álcool gel, mas que nem por fazer os mínimos parece compreender a onda de morte que submerge todo o sistema de saúde, a começar no SNS. O que desprezamos e subfinanciamos anos a fio e que é, bem no fundo, a única esperança quando nos encontramos entre a vida e a morte.

Nem os pais de crianças oncológicas conseguem vencer o medo de as ver partir ainda mais cedo se as levarem atempadamente ao IPO. O medo do contágio tornou-se irracional. Vamos pagá-lo caríssimo nos próximos anos. Em sobrecarga de custos e em mortes inúteis se atempadamente tratados os primeiros sintomas.

E enquanto o país vive este drama fica ainda mais a descoberto que o que nos caracteriza mesmo, quando se vê já uma luz ao fundo do túnel, é uma total falta de sentido de Estado, de respeito pela comunidade de fraternidade e compaixão pelo outro de crescimento do individualismo mais puros.

Afinal, o português abnegado e solidário entra já só na mitologia de um povo tão individualista quanto os demais. Quantos Eanes temos? Quantos, chegada a hora serão capazes de ceder o “seu único ventilador” à jovem mãe de filhos que ameaça morrer ao seu lado? Arrisco a dizer: nenhum. O médico escolherá por ele, mas não esperemos gestos heroicos.

O país onde um espelho impiedoso nos mostra como somos não é fácil de reconhecer como o nosso. Habituámo-nos à falta de escrutínio, à ausência de exigência à vulgar mediocridade. Já não nos escandalizamos, nem com a ausência de profissionalismo nem com a ausência de cooperação, nem com o nepotismo das escolhas, nem com a falta de frontalidade e correção. O pântano de que Guterres fugiu continua aí. A dar razão e atualidade às “Farpas” de Eça e de Ramalho. As nossas caricaturas estão todas lá. Ficámos algures no início do século XIX.

Sabemos que não primamos pelo planeamento, mas um fracasso no plano de vacinação não é tão só uma fatura inútil de mais mortes e de ainda maior colapso das estruturas médicas, é o afundar da economia muito para além de 2023 ou 2024, datas que infelizmente se começam a apresentar como credíveis para a recuperação plena dos níveis de vida e de 2019.

É, também e, sobretudo, o risco de, bastante antes disso, se verificar o colapso da nossa frágil estrutura económica e social com uma enorme perda de emprego e empobrecimento já este ano (senão conseguirmos “salvar” o turismo a tempo do Verão), agravada por mais dois anos perdidos na educação das nossas crianças e na formação da nossa mão de obra com ainda menor competitividade.

Para ganhar a batalha e evitar tudo isto é fundamental que o plano de vacinação não corra bem, corra muitíssimo bem. Ou seja, se consiga recuperar o atraso com o qual já nos debatemos por vicissitudes várias e, uma vez na posse das doses necessárias, sejamos capazes de as distribuir no tempo certo e por duas vezes aos 5 milhões de portugueses que assegurarão a imunidade de grupo.

A nomeação de Francisco Ramos não foi apenas um erro de casting. Foi o erro do costume. Foi o princípio de Peter a funcionar na roda de amigos.

Francisco Ramos foi, até aqui, um governante competente. Fez o que lhe pediram bem ou muito bem, mas nunca lhe deviam ter pedido para comandar a maior operação logística do século. A sua área não é essa.

Às vezes vale a pena olhar a experiência na escolha para certos cargos (mas se precisámos de um ano para nos escandalizar a escolha do procurador europeu anti-corrupção, porque seria neste caso diferente?). Parecia evidente que um militar seria uma escolha mais segura? Parecia. Mas podia também ser um gestor de uma grande cadeia de distribuição, alguém capaz de fazer chegar produtos frescos a todo o país em poucas horas, produtos frágeis, perecíveis... minimizando o desperdício.

Planeamos de menos e improvisamos demais. Estamos mais preocupados em encontrar culpados do que em descobrir soluções. Temos uma justiça anquilosada e adormecida, e uma comunicação social hiperactiva e justiceira.

Contraditamos as palavras sem antes ter tido tempo de as ouvir. E depois, espantamo-nos que nos rankings mundiais Portugal desça para o grupo dos países classificados como “democracias com falhas”. O que diríamos de um país em que um primeiro-ministro estivesse preso e quase uma década passada ainda ninguém soubesse exactamente de que está acusado? E o juiz se dá ao luxo de anunciar que não só não cumprirá os prazos legais de decisão como a anunciará quando lhe apetecer…

Um país onde o Governo e oposição acordassem em escrutinar-se menos, reduzindo, de comum acordo, os debates parlamentares. Onde fosse possível matar à chegada ao aeroporto um cidadão estrangeiro, à pancada, às mãos de uma policia nacional e o caso demorasse nove meses a envergonhar-nos. Pior: demitida a responsável do SEF e mal começado o julgamento a senhora acabasse reconduzida para conselheira de outro cargo governamental.

Um país onde as nomeações dos órgãos que escrutinam o Governo estivessem sujeitas ao que aconteceu com o ex-presidente do tribunal de Contas, e já antes acontecera com a Procuradora Geral da Republica.

Um Portugal onde o alto funcionalismo público estivesse pejado de boys e girls, onde ser amigo do primeiro-ministro dá livre passe entre gabinetes, e empresas públicas, e os apelidos abrem mais portas do que as fechaduras.

Onde a comunicação social é simultaneamente a maior fonte de escrutínio e um dos mais fracos poderes da Nação. Como se nos aplica o conselho do Papa Francisco: não fiquem nas secretárias, não se repitam uns aos outros, levantem-se nas vossas cadeiras e vão ver. O mundo que está fora dos comunicados dos políticos e do conforto das redações.

Vemo-nos ao espelho e não gostamos. Sabemos além disso que o pior ainda não chegou. É preciso prever a recuperação económica, não nos deixar afundar demais porque quanto mais fundo cairmos mais difícil será regressar à tona. Temos de evitar já a crise social, que todos estamos a fingir que existe. Temos de evitar já a falência de um sistema de ensino que, depois de dois anos parado, vai produzir, em série, uma geração de crianças a quem não se ensinou o mínimo e a quem se vai exigir o máximo. Vemo-nos ao espelho e não gostamos do que vemos.

E vão vir aí os fundos. Fonte de progresso e mina para a corrupção que se não prevenirmos desde já se pode tornar numa gigantesca derrota e vergonha nacional.

Os amigos do amiguismo, os nepotistas, os ingénuos “ultrapassadores” de filas, os pedidos de favorzinhos, de cunhas de jeitinhos, somos nós. Há demasiado tempo. Vemo-nos ao espelho e não gostamos que nos vejam como uma democracia com falhas. Acreditem que já será bastante bom se nos continuarem a ver como uma democracia. Há o risco real de um dia destes poder deixar de o ser. E garanto-vos que com a nossa capacidade antecipar, quase de certeza seremos os últimos a perceber. Nessa altura pode ser tarde demais para evitar que sejamos uma democracia falhada.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Maria
    07 fev, 2021 Palmela 15:59
    Quem acha que esta na altura de se discutir sobre eutanasia " nao se encontra na posse das suas faculdades mentais!
  • Ivo Pestana
    06 fev, 2021 Madeira 13:34
    Concordo com tudo o que a Dra Graça escreve. Muitos são democratas de fachada. A nossa constituição é contra a morte assistida, pois diz que a vida é inviolável, artigo 24° salvo erro. Nesta altura com muitos cidadãos a morrer e a lutar pela vida, nada oportuno. Não fizeram referendo porquê? Irá haver também fura filas para a injeção letal? E os médicos que fazem o juramento para salvar vidas, como ficam? Vão acabar com o juramento de fim de curso? Força Dra. Graça, gosto dos seus artigos, baseados em sabedoria e realidades, não em ideologia . O ser humano foi feito para viver, não para querer morrer, isso já está adquirido. Quem sofre tem que ter bons tratamentos, calor humano, é nisto que o Estado tem de investir. Agora, quem quer morrer, que morra, a vida é de cada um. Saúde para todos e vida da boa.
  • Observador
    06 fev, 2021 Portugal 11:17
    Se legalizaram o aborto, não percebo este escrúpulo todo por causa da Eutanásia. Matar, por matar ... No resto, excepto na parte da Educação onde terá de explicar melhor essa dos "2 anos parados", concordo em absoluto.
  • Anónimo
    05 fev, 2021 Lisboa 22:03
    Eu e toda a gente que eu conheço é a favor da eutanásia. Fracturante era a austeridade praticada pelo governo de Pedro Passos Coelho! E o "último resultado eleitoral" do Bloco de Esquerda foi de 9,5% nas eleições legislativas de 2019, tendo ficado em 3º lugar e elegido 19 deputados. Não me parece que esta senhora saiba do que fala.