Tempo
|
Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
A+ / A-

Verdades e fantasias sobre imigrantes

29 jan, 2021 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Portugal não é um país atrativo para imigrantes. Mesmo assim, estes têm aumentado nos últimos anos. Na maioria são imigrantes pouco qualificados, mas indispensáveis para tarefas que os portugueses já não querem fazer, na agricultura e na construção civil por exemplo. E ganham menos do que os trabalhadores nacionais.

Como é sabido, o problema das migrações divide a UE. Entre nós é relativamente consensual que a economia portuguesa necessita de mais imigrantes para compensar a tendência em curso de diminuição da população. Há 12 anos consecutivos que em Portugal há mais mortes do que nascimentos. E a pandemia veio agravar essa tendência. Há seis anos que não nasciam tão poucas crianças no nosso país como em 2020; as indicações que já existem apontam para mais uma provável descida nos nascimentos em 2021.

Vários sectores queixam-se da falta de gente para trabalhar – construção civil, agricultura, etc. O turismo só não se queixa de falta de trabalhadores porque a pandemia praticamente parou a entrada de turistas no país, afetando desde a hotelaria à restauração e mandando muitos milhares para o desemprego, entre eles numerosos imigrantes.

Os trabalhadores estrangeiros em Portugal têm remunerações médias 5,4% inferiores às dos trabalhadores nacionais. Mas não se pode dizer que, por ser mais barato o trabalho dos imigrantes, eles vêm tirar o trabalho aos portugueses. Na maior parte das vezes, os imigrantes que obtém emprego fazem o que os portugueses, hoje, recusam fazer. A maioria dos imigrantes que Portugal recebe tem contratos de trabalho precários, quando os tem. Desgraçadamente, há muitos imigrantes ilegais que são explorados na nossa sociedade e, na prática, quase não têm direitos. Trata-se, sobretudo, de imigrantes vindos de países africanos e asiáticos.

E também há uma minoria de imigrantes com apreciáveis qualificações académicas, que em Portugal não são reconhecidas. Tivemos milhares de imigrantes ucranianos que eram engenheiros e aqui só tinham trabalho nas obras ou pouco mais. Agora são os médicos venezuelanos que, em plena crise de falta de médicos nos hospitais, para sobreviverem têm que aceitar tarefas braçais (o bastonário da Ordem dos Médicos já veio esclarecer que a falta de reconhecimento dos médicos venezuelanos tem a ver com objeções colocadas por universidades portuguesas e não por qualquer posição daquela Ordem).

Não é por acaso que inúmeros refugiados e imigrantes que chegam a Portugal tudo fazem com o objetivo de conseguirem deslocar-se para outro país europeu, mais desenvolvido. Apesar de, entre 2017 e 2020 quase ter duplicado o número de imigrantes residentes em Portugal, o número de os estrangeiros a residir no nosso país situa-se muito abaixo da média europeia – nessa matéria estamos em vigésimo lugar na UE.

Não sendo Portugal um país atrativo para imigrantes estrangeiros (excepto estrangeiros ricos), percebe-se que entre nós o problema da imigração ainda não tenha ganho a importância política e social que tem hoje em França, no Reino Unido, na Alemanha e noutros países europeus. Mas existe na sociedade portuguesa um preconceito contra os imigrantes que um partido como o Chega acabará por utilizar (para já, contenta-se com hostilizar os ciganos). Por isso, convém estarmos preparados para fantasias populistas.

Quantas vezes já ouvimos portugueses queixarem-se de que os imigrantes em Portugal vivem de subsídios e apoios estatais? Uma falsidade que tem décadas, mas é difícil de erradicar, mesmo quando há muito se repete que aquilo que os imigrantes recebem da Segurança Social (SS) é muito inferior ao dinheiro com que eles contribuem para a própria SS. Em 2019 a SS teve um saldo positivo na comparação entre subsídios e apoios que deu a imigrantes e as contribuições que deles recebeu: 884,4 milhões de euros, mais do dobro do saldo, também positivo, registado em 2016. É dinheiro que o Estado recebe de imigrantes geralmente pobres, que são apenas 7% da população.

Tópicos
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • João Regallo
    19 abr, 2021 Sintra 07:34
    Há pouca verdade e muita mentira, ou contradição, neste artigo. Usarei o seu conteúdo para o provar: É verdade que a maioria dos imigrantes faz trabalhos duros, e não tem contrato, ou tem situação precária, e ainda recebe menos do que os portugueses; mas isso acontece mesmo para que os empregadores não forneçam boas condições a portugueses que até fariam esses trabalhos aqui, mas preferem imigrar para os fazer no estrangeiro, onde há melhores condições. Imigrantes sem contrato não fazem qualquer desconto para o estado, e portanto é mentira que trazem benefício fiscal. Imigrantes de contratos precários, e salários mais baixos do que o dos portugueses, também descontam menos para o estado do que descontariam portugueses com melhores salários e contratos. Muitos imigrantes sabotam o trabalho de colegas portugueses, pois recebem pagamento de outros imigrantes, desempregados, para que os sugiram a seus patrões como substitutos bons e baratos. Muitos imigrantes vivem amontoados em apartamentos pequenos, para poupar dinheiro; e claro que portugueses recusam fazer igual em Portugal. A maioria dos imigrantes, sobretudo ucranianos, apenas fala pouco ou mal o português, e mal o sabe escrever; portanto são analfabetos, e não importa quantos diplomas trouxeram. Muitos imigrantes que trabalham sem descontar recebem ajuda, em alimentos e roupa, de associações de apoio social; aumentando o gasto que a segurança social já faz por haver portugueses sem oportunidade, digna ou não, de trabalho.
  • João Regallo
    19 abr, 2021 Sintra 07:18
    Há pouca verdade e muita mentira, ou contradição, neste artigo. Usarei o seu conteúdo para o provar: É verdade que a maioria dos imigrantes faz trabalhos duros, e não tem contrato, ou tem situação precária, e ainda recebe menos do que os portugueses; mas isso acontece mesmo para que os empregadores não forneçam boas condições a portugueses que até fariam esses trabalhos aqui, mas preferem imigrar para os fazer no estrangeiro, onde há melhores condições. Imigrantes sem contrato não fazem qualquer desconto para o estado, e portanto é mentira que trazem benefício fiscal. Imigrantes de contratos precários, e salários mais baixos do que o dos portugueses, também descontam menos para o estado do que descontariam portugueses com melhores salários e contratos. Muitos imigrantes sabotam o trabalho de colegas portugueses, pois recebem pagamento de outros imigrantes, desempregados, para que os sugiram a seus patrões como substitutos bons e baratos. Muitos imigrantes vivem amontoados em apartamentos pequenos, para poupar dinheiro; e claro que portugueses recusam fazer igual em Portugal. A maioria dos imigrantes, sobretudo ucranianos, apenas fala pouco ou mal o português, e mal o sabe escrever; portanto são analfabetos, e não importa quantos diplomas trouxeram. Muitos imigrantes que trabalham sem descontar recebem ajuda, em alimentos e roupa, de associações de apoio social; aumentando o gasto que a segurança social já faz por haver portugueses sem oportunidade, digna ou não, de trabalho.
  • Antonio Ferreira
    31 jan, 2021 Philippines 03:48
    Obrigado Francisco pela sua cronica deveras esclarecedora. Sou um leitor assiduo das suas cronicas porque nelas simplifica e sintesiza temas complexos da actualidade. Entao, esta ultima sobre as verdades e fantasias a volta de emigracao merece um elogio especial. Infelizmente, o assunto da emigracao esta a ser manipulado e falsificado para ganhos politicos, faltando analises baseadas em estatisticas que trasmitam a verdade das problematicas em jogo. So deste modo, o cidadao comum pode chegar uma decisao racional e devidamente informada. Bem haja, Francisco. Por favor, continue com a sua cronica diaria no seu estilo habitual.
  • Ivo Pestana
    29 jan, 2021 Madeira 23:38
    Acho que o maior problema dos imigrantes, é quando não querem ser portugueses, vivendo cá. Criando problemas sociais de várias formas. Pena também tenho quando são escravizados e mal tratados por quem os emprega. Acho que o Chega esqueceu isso, muitos são tratados abaixo de humanos.
  • Jose Carlos Fonseca
    29 jan, 2021 Maia 15:37
    Falácia da Segurança Social. Se descontam, mais tarde vão receber, como subsidio de desemprego, reformas, baixas, etc.