Tempo
|

Presidenciais

Ventura evoca legado Sócrates. “Castelo Branco pode bem ser o símbolo do que não deve ser a política em Portugal”

14 jan, 2021 - 20:34 • Fábio Monteiro

Candidato à Presidência da República fez um curtíssimo comício em Castelo Branco, esta quinta-feira. À imagem do que tem acontecido noutras localidades, André Ventura foi vaiado e chamado de “fascista” por um grupo de manifestantes.

A+ / A-

André Ventura, deputado único do Chega e candidato à Presidência da República, apareceu apetrechado com munições políticas em Castelo Branco, esta quinta-feira à tarde. Num brevíssimo comício, sob o signo da “corrupção” e “justiça”, o candidato evocou o legado de José Sócrates na Beira Baixa (o ex-primeiro-ministro é natural da Covilhã) e também o caso do ex-autarca socialista albicastrense, Luís Correia, que perdeu o mandato no ano passado.

“Em Castelo Branco, o nosso tema tinha que ser precisamente a justiça, não só por José Sócrates, por autarcas que foram condenados e perderam o mandato, mas porque Castelo Branco pode bem ser o símbolo do que não deve ser a política em Portugal. Uma cumplicidade entre família e poder, entre dinheiro, câmaras e juntas de freguesia”, atirou Ventura.

À chegada e durante todo o tempo que discursou, à imagem do que tem acontecido noutros distritos, o candidato do Chega foi vaiado e chamado de “fascista” por um grupo de manifestantes; num canto da praça onde decorreu o comício alguém, de antemão, afixou uma faixa onde se lia: “CB [Castelo Branco] Antifascista”.

“Estamos em Castelo Branco, onde um autarca socialista perdeu o mandato por fazer negócios com a própria família. E é contra mim que se manifestam, nesta terra, não é contra a corrupção, nem contra os que fizeram negócios com a família e destruíram aqueles que pagam impostos”, queixou-se Ventura.

Em julho de 2020, Luís Correia, ex-presidente da Câmara de Castelo Branco e marido da deputada socialista Hortense Martins, perdeu o mandato devido à atribuição de contratos municipais a familiares – sogro e pai; a decisão subiu e foi confirmada no Tribunal Constitucional.

Em Castelo Branco, André Ventura aproveitou também para evocar o nome do ex-primeiro-ministro José Sócrates, “um nome muito caro” ao município “por razões negativas”. “Onde é que estavam estes manifestantes quando José Sócrates destruía o país e se ria aqui em Castelo Branco e recebia a chave da cidade na Covilhã”, atirou.

O discurso de André Ventura aconteceu nas docas secas de Castelo Branco, bem no centro da cidade, e durou menos de meia-hora. Em vésperas de confinamento geral, apenas cerca de três dezenas de apoiantes e curiosos estiveram presentes.

António Amado foi um deles e explicou à Renascença o porquê: “Os partidos [no poder] têm sido sempre os mesmos, vão renovando com gente jovem, sempre a mesma linha de governar, sempre tudo igual. Acho que não comungo dessa ideia. Tem que haver uma mudança em Portugal, não pode ser sempre os mesmos partidos a governar. Porque as ideias são sempre as mesmas, é só passar dos avós para os filhos, dos filhos para os netos.”

O homem na casa dos 60 anos, “um português de bem”, na tipologia criada do líder Chega, defende que existem tantos casos de corrupção em Portugal hoje em dia, que “é pior do que no tempo do Salazar”. Já Ventura, o candidato presidencial, “é realmente aquilo que ninguém neste país foi capaz de dizer”.

Afinal, eram estudantes

Durante o curto comício em Castelo Branco, um grupo de jovens juntou-se para apupar André Ventura, que os apelidou de “subsídio-dependentes” que precisam de ir trabalhar. O candidato recusou conversar com os manifestantes.

“Não é bonito que, em cada distrito que vamos, andem estes subsídio-dependentes atrás de nós, não é bonito? Porque de facto, quem não tem nada para fazer se não andar com bandeiras coloridas às costas, em vez de trabalhar por Portugal e pelos portugueses, merece de nós uma palavra: vergonha", afirmou.

Ora, a bandeira a que Ventura se referia era a do arco-íris, associada aos direitos LGBTI+. E os protestantes eram jovens, quase todos estudantes universitários.

Porque escolheram estar presentes? “A partir do momento que há um partido que define um plano de confinamento específico para uma minoria, isso abrange todo tipo de violação dos direitos humanos. Não propriamente os meus, mas da sociedade onde estou e do país que eu quero", afirma Rita, uma estudante de Filosofia de 21 anos.

Marta Francisco, 20 anos, dá outro motivo. “Muitas pessoas não percebem o que o André Ventura representa e, portanto, apesar de não estarmos aqui a explicar o que ele representa, acho que é importante alertar.”

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+