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​Entrevista

Javier Cercas: “Num mundo feliz, seguramente não haveria literatura”

08 jan, 2021 - 09:00 • Maria João Costa

Venceu o Prémio Planeta 2019 com o livro “Terra Alta”, que agora é editado em português. O escritor espanhol Javier Cercas confessa estar a reinventar-se como autor. No novo livro há polícias, jihadistas, os atentados de Barcelona e o movimento independentista catalão.

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Quando acaba um livro, a primeira coisa que Javier Cercas quer fazer é esquecê-lo, mas com “Terra Alta” isso não aconteceu. O livro com que venceu o Prémio Planeta 2019 tem no centro da ação Melchor Marin, um polícia que não largou a cabeça de Cercas. De tal forma este polícia com um passado delinquente ficou agarrado ao seu criador que o escritor espanhol já está a fazer uma sequela.

Em entrevista ao programa Ensaio Geral da Renascença, Javier Cercas conta como os atentados de Barcelona, de 2017, e o movimento independentista catalão são parte da intriga deste seu novo livro editado pela Porto Editora.

Numa conversa à distância, o escritor fala ainda da atual situação de pandemia. Cético, Javier Cercas considera que poderíamos aprender muito com a pandemia, mas afirma: “temo que não vamos aprender. Vamos continuar os mesmos estúpidos de sempre, a cometer as mesmas barbaridades”.

Depois de ter escrito livros como “Soldados de Salamina”, “O impostor” e “O Monarca das Sombras”, que perfazem uma espécie de trilogia sobre os heróis, neste “Terra Alta” procurou explorar outro caminho. O livro é uma espécie de policial?

Gostaria que marcasse um novo caminho. Este livro surge, sobretudo, de uma urgência de me renovar e reinventar como escritor. Quando acabei o meu último livro, “O Monarca das Sombras” – que era um livro muito importante para mim, era o livro que sempre quis escrever – senti que era o fim de alguma coisa, de um ciclo que tinha começado com “Soldados de Salamina”, há 20 anos.

Sentiu vontade de se reinventar?

Senti que, se continuasse pelo mesmo caminho, corria o pior risco que pode correr um escritor que é o de repetir-se. E converter-se num mero imitador de si mesmo. Quando isso acontece, um escritor está morto, já não pode dizer nada de novo. Então, levei algum tempo a escrever “Terra Alta”. É uma tentativa de reinventar-me como escritor, de encontrar um território novo para poder dizer coisas novas. É essa a impressão que tenho depois de ter terminado o livro. Consegui entrar numa espécie de selva virgem, e é uma sensação maravilhosa!


"Os escritores trabalham com a obscuridade, mas também com o lixo, com o mau, com as crises e a dor. Num mundo feliz, seguramente não haveria literatura. Pelo menos, não haveria romances"

Com este livro venceu o Prémio Planeta, em 2019. No centro da ação está a história de Melchor Marin, um jovem polícia com um passado delinquente. Quem é este homem que se converteu num herói?

Melchor Marin, o protagonista do romance, é um personagem muito peculiar. Os meus livros, talvez desde o princípio, são uma interrogação sobre o que é ser um herói. É uma pergunta moral, no fundo, e ética. O herói representa a excelência ética e moral. Então de algum modo, os meus livros anteriores eram uma investigação do que era um herói.

Efetivamente, Melchor Marin é um personagem muito peculiar e singular, é um homem muito jovem que teve uma vida muito difícil, muito mais difícil do que a minha! Nasceu no bairro mais humilde e pobre de Barcelona, a sua mãe é uma prostituta, não conhece o seu pai, teve uma infância e juventude terrivelmente duras e violentas. É um personagem violento que num determinado momento da sua vida, na prisão, transforma-se por completo.

Essa transformação é contada ao leitor de “Terra Alta” pelo próprio Melchor Marin, que se transforma num leitor compulsivo. “Os Miseráveis”, de Vitor Hugo, despertou-o para a leitura na cadeia e muda o rumo da sua vida.

Melchor Marin não é um intelectual, é o contrário disso. Mas por sorte, quando lê esse livro na prisão sente algo milagroso e mágico. Na realidade é algo que todos os leitores sentimos, em algum momento das nossas vidas. Há um verso de Horário que diz: “de te fabula narratur”, “a história fala de ti”! É o que sente Melchor Marin.

Este velho livro está a falar de si mesmo, da sua própria vida e “Os Miseráveis” transformam-se num espelho da sua vida. Através de “Os Miseráveis” ele compreende-se a si mesmo, não só descobre a sua vocação profissional e que quer ser polícia, mas descobre-se a si mesmo. Este livro devolve-lhe a sua própria existência.


Fala deste seu protagonista com muita paixão. Parece que é uma personagem que se colou a si. Melchor Marin ainda vive em si?

Com este livro passaram-se muitas coisas estranhas. Quando acabo um livro a primeira coisa que tento fazer é esquecer-me dele. É o que tento logo fazer para poder escrever o seguinte. Mas neste caso, foi impossível, porque Melchor Marin não me queria abandonar, nem as personagens que o rodeiam me queriam deixar. Então, quando acabei “Terra Alta”, soube que era um livro em si, independente, mas era também parte de um ciclo maior.

Assim, a segunda parte de “Terra Alta”, que se chama “Independência”, vai ser publicada em espanhol, em março. Este território e Melchor Marin abriram-me um território novo, uma selva virgem que estou a explorar. Não sei quantos livros serão, acredito que pelo menos três ou quatro livros. Mas, para mim, é uma sensação maravilhosa, rejuvenescedora e muito exaltante.

Na trama deste “Terra Alta” vemos a história recente da Catalunha, o atentado terrorista na Rambla. São ingrediente reais, como de resto é o cenário do livro – Terra Alta – uma povoação vinícola nos arredores de Barcelona. Até que ponto a realidade interfere com a sua escrita?

Os acontecimentos históricos influenciam os meus livros, influenciam-me a mim como pessoa, e por vezes têm um papel importante nos livros. Os atentados de agosto de 2017, em Barcelona, que todos recordamos, em que um jihadista a conduzir uma carrinha pela Rambla matou, creio que 19 pessoas e depois, numa pequena povoação costeira, de verão, parte dessa mesma célula jihadista tentou outro atentado e matou uma pessoa. Essa célula foi aniquilada por um polícia que estava nessa povoação, chamada Cambrils, e que liquidou, em menos de 30 segundos, quatro jihadistas que estavam a apunhalar pessoas, e levavam cintos com explosivos que se soube depois que eram falsos.

Em algum momento na escrita do meu livro senti que esse polícia, cuja identidade desconhecemos, não sabemos quem é porque obviamente a polícia protegeu a sua identidade - se a conhecêssemos seria de imediato um alvo dos jihadistas - senti que Melchor Marin tinha de ser esse polícia desconhecido. Sabes o que se passa, é que nós, os escritores, trabalhamos com a obscuridade. Aquilo que não se conhece é ideal para nós. Se soubéssemos quem era esse polícia, não poderia ter escrito esse livro. Mas como não sabíamos, pude dar-lhe uma identidade.


"Melchor Marin não é um intelectual, é o contrário disso. Mas por sorte, quando lê "Os Miseráveis" na prisão sente algo milagroso e mágico. Na realidade é algo que todos os leitores sentimos, em algum momento das nossas vidas."

Aborda também aqui, não de uma forma direta, o que se passou na Catalunha com os movimentos independentistas. Não quis abordar muito o tema? A memória é ainda muito fresca?

No livro surgem algumas pinceladas sobre a crise catalã de 2017. Como disse um historiador catalão, essa crise e essa fileira independentista colocou o país à beira de uma guerra civil. No livro esses acontecimentos surgem numas pinceladas, mas para mim, como pessoa, foram decisivos. Eu sou outra pessoa depois desses acontecimentos.

Nunca acreditei que o sítio onde vivo, que é um dos mais privilegiados do mundo, poderia chegar a uma situação como essa. Isso transformou a minha vida pessoal, porque quando a História com maiúsculas chega a tua casa, não fica fora. Entra na tua casa e afeta-te pessoalmente. De algum modo, isto é o carburante deste livro. Eu sou um escritor diferente porque também sou agora uma pessoa diferente.

Nasceu próximo de Cárceres, mas vive há muito em Barcelona. Sentiu que se abriram feridas na cidade? Isso servia-lhe para pano de fundo para as aventuras de Melchor Marin?

Como te disse antes, os escritores trabalham com a obscuridade, mas também com o lixo, com o mau, com as crises e a dor. Num mundo feliz, seguramente não haveria literatura. Pelo menos, não haveria romances. Talvez houvesse poesia, pouca, e muito má! Mas de certeza que não haveria romances. Por isso acredito que a literatura é útil.

Os melhores escritores são como os alquimistas. Eles queriam transformar o ferro em ouro; os melhores de nós transformam a dor, a tristeza e as crises em sentido e em beleza. Por isso estou seguro que a literatura é útil.

Como é que tem vivido a situação de pandemia, como é que perspetiva os próximos tempos?

Em Espanha agora as coisas estão melhores. Com a vacina há uma luz ao fundo do túnel, esperamos que não seja a de um camião que nos atropele a todos! Eu penso tomar a vacina quando puder. É como um parto. Sabemos que há um final, esse final é a vacina para acabar com este pesadelo.

Como acha que vamos sair desta pandemia?

O mundo, infelizmente, não vai mudar. Perguntam-me muitas vezes por estes dias se acredito que vamos sair melhores desta situação tão terrível? A minha resposta é não, infelizmente não vamos sair melhores. Poderíamos aprender muitas coisas com esta imensa catástrofe: que precisamos de uma saúde pública melhor, que temos de investir em ciência e isso não é um capricho… Enfim, muitas coisas a nível pessoal e político. Mas temo que não vamos aprender. Vamos continuar os mesmos estúpidos de sempre, a cometer as mesmas barbaridades de sempre, como se todos quiséssemos dar razão a Bernard Shaw que escreveu: “o único que se aprende da experiência, é que não se aprende nada com a experiência”.

Comentários
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  • Desabafo Assim
    09 jan, 2021 Baguim do Monte 11:51
    Pois com o devido respeito permita-me discordar, por completo do título, num mundo feliz muitos mais romances seriam escritos. Justifico da seguinte forma, o animal e a criança são seres felizes nos primeiros tempos em que chegam a esta forma de vida, eles não pensam no futuro, vivem o presente ligados ao criador, são naturalmente felizes porque quem está ligado, de forma tão embrionária, ao Criador sabe que é bom viver, sente a vida na sua plenitude. Da seguinte forma é dado ao animal adulto assegurar a felicidade das suas crias e passa desfrutando da espera com prazer e ao Homem é-lhe dado múltiplos caminhos assentes no seu ser, a noção de futuro que o caracteriza, por onde, por sua livre vontade, se pode dirigir. O dinheiro mais não é que assegurar o futuro, serve para comprar o futuro, e assim o Homem o usa afastando-se do presente, afastando-se do criador, pensa passar a ser senhor do SEU próprio futuro. Não têm, as crianças histórias para contar? Pelo contrário, são muito mais das que narram acontecimentos, o enredo não está escravizado pelo mal que se vence, o espírito do Homem não é mais rico que o do Espírito Santo, é, pelo contrário, muito mais limitado e sendo a sua característica de animal social sente-se impelido a partilhar para desta forma se tentar entender, descobrir-se. Todo o Homem foi projetado para ser feliz, não o é porque o não quer, teme as pedras no caminho, mas será que foi a montanha que se pôs no meio do caminho do alpinista?