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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Portugal e as ex-colónias

23 dez, 2020 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Há problemas sérios em várias antigas colónias portuguesas em África. Talvez o mais assustador aconteça desde há quatro anos no Norte de Moçambique, onde o “Estado Islâmico” ataca com as barbaridades que lhe são próprias. Mas os portugueses não parecem interessar-se por aí além por aquilo que se passa nas ex-colónias.

Neste ano que está a chegar ao fim, a pandemia monopolizou as notícias e os comentários a partir de março. O que explicará, em parte, que só neste mês de dezembro a trágica situação na província moçambicana de Cabo Delgado tenha ocupado algum espaço na comunicação social e na política do nosso país. O Parlamento aprovou resoluções para colocar o problema de Cabo Delgado na agenda internacional.

Aliás, também não sido dada grande atenção, por cá, ao caos político e militar que continua na Guiné-Bissau, bem como ao acentuar do autoritarismo do Presidente de Angola, João Lourenço, liquidando as esperanças de uma séria viragem de sentido democrático depois da saída de José Eduardo dos Santos.

O caso de Cabo Delgado, província do Norte de Moçambique, provocou reuniões na Assembleia da República. E os apelos angustiados do bispo de Pemba, D. Luís Fernando Lisboa (Pemba é a capital da província de Cabo Delgado) tiveram algum eco entre nós. Mas em agosto já o Papa Francisco tinha telefonado ao bispo de Pemba, solidarizando-se com a terrível situação que se vive ali.

Algumas críticas do bispo de Pemba foram mal recebidas por dirigentes da Frelimo, o que reforça a ideia de que o governo de Moçambique não tem capacidade, nem porventura vontade, para enfrentar os ataques dos “jihadistas”, que matam, torturam e incendeiam casas em Cabo Delgado, em nome do “Estado Islâmico”. E até parecem confirmar-se suspeitas de que os militares da Frelimo nem sempre têm tratado bem a desgraçada população daquela província. Os deslocados que fogem aos ataques bárbaros dos “jihadistas” já ultrapassam meio milhão, criando uma séria crise humanitária.

Qual a influência nesta tragédia de se ter encontrado gás natural naquela zona? Um consórcio de empresas petrolíferas, lideradas pela Total, entrega dinheiro ao ministério da Defesa de Moçambique, para garantir a segurança do empreendimento. Mas quem protege os habitantes, que estão entre os mais pobres de Moçambique?

Começam a surgir apelos a uma intervenção militar internacional, patrocinada pela ONU. E certamente A. Costa terá oportunidade de promover o assunto na agenda internacional, durante a presidência portuguesa da UE, no primeiro semestre de 2021.

Mas os ataques em Cabo Delgado começaram em 2017. Como se explica que só recentemente se fale entre nós desta tragédia? Creio que esse é mais um sinal de como as ex-colónias africanas não são um assunto que atraia a maioria dos portugueses.

Não é um sentimento só de hoje. Na segunda metade do séc. XIX e na sua luta contra a monarquia então vigente, os republicanos usaram o tema das colónias africanas para acusar de ineficácia o regime monárquico. A defesa dessas colónias contra o imperialismo de grandes países europeus, como o Reino Unido e a Alemanha, foi uma bandeira que, uma vez instaurada, a República sempre agitou. E a ditadura de Salazar enfrentou “orgulhosamente só” o movimento de descolonização.

Só que nunca houve um caudal significativo de emigração do Continente para as colónias. Os portugueses preferiam outros destinos, como o Brasil, primeiro, e depois França e outros países europeus. O império colonial português era um sonho sem correspondência na realidade. Daí que, apesar do regresso a Portugal de cerca de 700 mil retornados depois do 25 de Abril, o fim do “império” não tenha provocado o abalo emocional no país que alguns previam. E os retornados até deram uma contribuição importante para o relançamento da nossa economia, depois dos tempos agitados do PREC (processo revolucionário em curso).

Comentários
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  • José Cristóvão
    23 dez, 2020 Alapraia - Estoril 22:12
    "Creio que esse é mais um sinal de como as ex-colónias africanas não são um assunto que atraia a maioria dos portugueses." Não? A Lusofonia nos anos 90 não era um desígnio nacional? A luta feita pelo nosso povo pela independência de Timor, que levou o governo a envolver-se nas negociações com a Indonésia e a ONU? A forma como o povo se envolvia p.ex. na luta entre a UNITA e o MPLA, escolhendo um ou outro lado, sendo depois o governo português que mediou as negociações entre as guerrilhas, em Angola, na Guiné e em Moçambique? Também: as notícias sobre as ex-colónias ocupavam uma significativa parte dos noticiários da rádio, TV e imprensa desde os anos 70 até ao início deste século (só a falar na democracia). A partir do governo do Durão ficámos com as vistas cada vez mais curtas, preocupados só com um mísero cantinho do mundo (Europa e Atlântico Norte), se tanto. "O império colonial português era um sonho sem correspondência na realidade. Daí que, apesar do regresso a Portugal de cerca de 700 milhões de retornados depois do 25 de Abril, o fim do “império” não tenha provocado o abalo emocional no país que alguns previam." Foram 500-700000 (excluindo pelo menos 20.000 negros que vieram para Portugal como "imigrantes" porque o Almeida Santos lhes retirou a nacionalidade). Por comparação, o RU em 1947 (independência da Índia) também recebeu 500000, mas numa população então e agora bastante maior. (O Brasil, quando começou a receber imigração portuguesa, também era do império.)
  • Cidadao
    23 dez, 2020 Lisboa 19:11
    Não há 700 milhões de Portugueses: os "retornados" foram 700 000 a 1 milhão. Erros acontecem. No resto, não sabemos, mas mesmo que soubéssemos, pouco ou nada poderíamos fazer, pelo menos sozinhos. No máximo, podemos integrar um contingente militar de vários Países, sob bandeira da ONU. De resto, nada mais a não ser actividade diplomática, o que com os problemas de pandemia, migrações, crise económica e ambiental... Não é nada fácil de fazer.
  • César Augusto Saraiva
    23 dez, 2020 Maia 18:54
    Tudo bem, mas muito mal!... Acho que maior ajuda a Moçambique só a ONU e demais Organizações Internacionais a podem dar. Portugal pode bem com a ingratidão do "preso por ter cão e preso por não ter"... Se acode, é porque quer neocolonizar país livre e independente!... Se não acode - porque não pode de modo algum - é porque abandonou as suas ex-colónias!... Homessa!!!... Então quando é que as ex-colónias se assumem como países livres e independentes, resolvendo os seus problemas?!...