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​Entrevista Renascença/Ecclesia

Presidente da Cáritas alerta para aumento de pedidos de ajuda e aproveitamento político da crise

13 dez, 2020 - 11:18 • Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Nova presidente da Cáritas Portuguesa considera que o setor social "deve ser chamado" a ajudar na vacinação contra a Covid-19 e alerta que as injustiças sociais pode ser exploradas pelos movimentos populistas, em tempo de crise. "Há aqueles que trabalham a favor dos vulneráveis e com os vulneráveis, para a resolução dos seus problemas, e aqueles que exploram a vulnerabilidade. Há sempre quem serve e quem se serve", afirma Rita Valadas.

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Rita Valadas, presidente da Cáritas Portuguesa, entrevista à Renascença e agência Ecclesia
Rita Valadas, presidente da Cáritas Portuguesa, entrevista à Renascença e agência Ecclesia
Ouça aqui a entrevista a Rita Valadas, presidente da Cáritas Portuguesa

Rita Valadas, a nova presidente da Cáritas Portuguesa, declara-se honrada por ter sido escolhida pela Conferência Episcopal para dar um sinal da presença da mulher na Igreja. A entrevistada desta semana da Renascença e da Ecclesia deixa também um alerta: “há aqueles que trabalham a favor dos vulneráveis e com os vulneráveis, para a resolução dos seus problemas, e aqueles que exploram a vulnerabilidade. Há sempre quem serve e quem se serve”.

Sobre a futura vacinação contra covid-19, a presidente da Cáritas lembra que o “terceiro setor tem uma enorme rede e poderia ajudar”, até porque “quem está mais próximo deve ser chamado a participar”.

Rita Valadas foi nomeada pela Conferência Episcopal Portuguesa para a direção da Cáritas, em novembro, e tomou posse na passada quinta-feira.

Como recebeu este convite do episcopado português?

Muito honrada e muito espantada, devo dizer. Nunca foi coisa que me tivesse passado como possibilidade e foi uma grande admiração.

Tem um passado ligado à Cáritas, formação na área da solidariedade.

Sim. A questão não está na dignidade ou no lugar, tem a ver com um preconceito meu: apesar de ter estado na Cáritas entre 2006 e 2011, com o professor Eugénio Fonseca, e de saber que a primeira presidente da Cáritas foi uma mulher, sempre entendi que havia um certo preconceito em ter uma mulher neste lugar.

A escolha de uma presidente quer ser um sinal de valorização do papel da mulher na Igreja? Parece-lhe que é um sinal forte, que é aqui deixado?

Nunca me tinha questionado sobre esse particular, mas passei a confrontar-me com isso quando percebi que eu própria tinha este preconceito. Na tomada de posse, o senhor D. José Ornelas [presidente da CEP] foi claro em relação a isto: era importante que a Igreja desse um sinal da presença da mulher, do perfil da mulher para ser mãe, ter colo, ter um olhar mais cuidador. Acho que foi a palavra cuidado que ressoou mais em mim. Eu sinto-me, naturalmente, honrada por ser a mulher que representa este olhar. Um justo equilíbrio do género é sempre uma coisa interessante, mas nunca me tinha confrontado com essa questão.

Esse cuidado, ligado ao sentido prático, pode ser importante para a própria Cáritas?

Curiosamente, se nós virmos e analisarmos o pessoal, as pessoas que colaboram com a Cáritas são muito mais mulheres do que homens. Não é ao nível das direções e isso é talvez um sinal dos tempos, porque durante muito tempo, à volta da Igreja, os homens eram as pessoas que tinham mais disponibilidade ou, supostamente, podiam estar mais afastados do lar por causa dessa missão que as mulheres mães tinham na família.

Eu encaro isso com muita naturalidade, mas, como digo, acho que é um sinal que dignifica muito a Igreja. Acho que muita gente se vai sentir alinhada com esse pensamento. É muito bom para mim e espero conseguir confirmar que foi uma boa aposta.

Com o impacto da pandemia são de prever novos pedidos de apoio, novas formas de pobreza, maior dificuldade no terreno?

Como em todas as crises. E esta é uma crise especial, é uma crise que nos obriga a confrontar-nos com um tipo de desastre para o qual não estávamos preparados, nos tempos de hoje. Porque a sociedade nacional, mundial, já se confrontou com muitas pandemias, mas para os nossos tempos, ninguém estava preparado

Não é propriamente a questão da saúde que provoca todas essas consequências, é tudo o que vem ligado às questões económicas, aos encerramentos, falta de emprego. Isso sim, traz muitas pessoas para novos pedidos, o que também aconteceu em 2008. Nessa crise, a Cáritas teve um papel muito importante, porque acudiu a uma situação que era atípica: foi uma crise económica que afetou a classe média e a classe média-alta. Agora temos uma crise mais democrática, mas que ataca particularmente as questões do emprego.

Pessoas que não estavam habituadas a ter de depender de terceiros, para sustentar a família e garantir o seu dia a dia, vêm a nós e vêm com situações bastante aflitivas. Não são pessoas que estejam habituadas a uma subsidiodependência, a ter de pedir. Isso é uma coisa que nos convoca e que é análoga, nestas duas situações. Não é a partir de agora que vai surgir, mas quanto mais tempo durar esta situação, mais pessoas vai afetar.


"Há aqueles que trabalham a favor dos vulneráveis e com os vulneráveis, para a resolução dos seus problemas, e aqueles que exploram a vulnerabilidade"

A Covid-19 traz desafios específicos ao trabalho da Cáritas, marcado pela proximidade? Com as limitações impostas pela crise sanitária…

A Cáritas, a Igreja em Portugal, é a instituição mais capilar que existe. Não só se apercebe e tem uma noção muito clara do que está a acontecer nos territórios como também tem uma capacidade de intervir e de estar próxima. Agora não tão próximo, como é da natureza da Cáritas, mas porque temos uma obrigação de distância, que nos confronta com a questão dos afetos, das relações, e nos obriga a esta mais longe do que gostaríamos de estar. Ainda assim, é óbvio que a Cáritas está próxima.

E receia que, por esse facto, haja muita gente que não tenha acesso a ajuda, por causa desse distanciamento?

Acho que isso é possível, não creio que haja alguém que tenha estudado esse assunto, mas se a Cáritas não chegar, ninguém lá chega. A aposta é tentar olhar para os escondidos, realmente, para aqueles que não sendo naturais deste processo, precisam de ajuda e estão escondidos por vergonha ou outras questões.

A Cáritas tem vindo a deixar uma marca de credibilidade na resposta às emergências. É uma área prioritária? É possível também olhar para fora do país, no atual contexto?

A Cáritas tem sempre essas duas dimensões. Tem sempre a dimensão de aceitar o olhar de fora, para o que se passa cá dentro, e olhar para fora. Na rede da Cáritas Europa e da ‘Caritas Internationalis’, nós temos um olhar alargado, sempre atento, já que, infelizmente, esta não é a única crise que existe no mundo, existem muitos outros problemas que se juntam. A Cáritas tenta equilibrar os seus vários olhares, nas diferentes missões, e faz isso com os seus parceiros na Europa e no mundo.

Sabemos que a Cáritas está a trabalhar numa base de dados com informação sobre pedidos de apoio no país. É importante identificar claramente quais são as situações de necessidade?

A informação é sempre um trunfo na ação. A questão não é se ela está escrita e onde, mas saber se a conhecemos e o que fazemos para resolver. Quando há situações destas, de grande crise, há sempre o risco da sobreposição de recursos, que nós temos de evitar. Pede-se, não só à Cáritas, mas a todas as pessoas que agem sobre os territórios, que isso não aconteça. Ninguém consegue resolver nenhuma crise sozinho e os recursos de todos têm de ser colocados à fruição dos mais vulneráveis.

Para uma melhor resposta é fundamental o máximo de informação. Reconhece alguma falta de coordenação entre as instituições que estão no terreno no apoio aos mais desfavorecidos? Como melhorar essa interação?

Acabei de tomar posse e, ainda que conheça a Cáritas e nunca me tenha afastado completamente, não me parece que seja útil, neste momento, falar da especificidade dos programas ou criar alguma confusão, em relação a isto.

A facilidade com que, em Portugal, se age sobre as situações dos vulneráveis, confundindo e sobrepondo recursos, é uma realidade, que não é só de agora. É uma realidade permanente, tanto assim que estas questões da informação e de como é que gerimos os recursos, quem tem acesso, é uma realidade que acontece agora como aconteceu quando foram os fogos de 2003, quando o importante era identificar quem é que estava em situação de grande necessidade. Debatemo-nos sempre com esta questão.

Quando penso nesta crise, que espero que esteja a encontrar o seu caminho de saída, penso sempre que nós precisamos de descobrir o que é a resiliência em crise. A resiliência do país. Nunca sabemos o que vem por aí, ninguém estava à espera de que houvesse uma pandemia, ninguém estava preparado para isto. Ainda assim, a nível da Proteção Civil, temos trabalhado as questões das intempéries, das secas, dos fogos, etc… mas não temos agido nem estávamos preparados para ter uma crise deste tipo. Mas o futuro é isso que nos traz.

O que temos de trabalhar, a partir de agora, é uma situação de crise, estamos em emergência, agiremos sobre a emergência com todos os riscos que alguma sobreposição pode ter. Mas nós temos de pensar, de facto, como é que vamos agir no futuro, preparando-nos para uma crise, seja ela qual for. Estas perguntas que hoje são colocadas são as mesmas que forma nas outras crises: estamos a usar bem? O que é que podíamos fazer melhor?

E há uma sensibilidade muito grande da opinião pública…

Sim, e faz sentido. Porque há muito quem sofra de um sentimento de injustiça, em relação à sua própria situação, olhando para outros que sente que estão em menos dificuldade, mas que são mais beneficiados. Temos de saber enfrentar este tipo de situações, para a próxima vez.

Até porque têm um potencial muito grande de populismo, também, que essas injustiças sejam potenciadas por quem quer ganhar capital político com elas.

Há aqueles que trabalham a favor dos vulneráveis e com os vulneráveis, para a resolução dos seus problemas, e aqueles que exploram a vulnerabilidade. Há sempre quem serve e quem se serve.


A Caritas está inserida numa rede internacional, presente em mais de 150 países. A nova vacina e a forma como chega ou não às populações mais desfavorecidas será um momento marcante nesta crise sanitária. Cá e sobretudo no resto do mundo. A rede da Cáritas podia ser ativada para que a injustiça, que já existia antes, não seja agravada?

Seria muito presunção da minha parte ter essa resposta. Eu acho sempre que quem está mais próximo deve ser chamado a participar; sempre em qualquer situação. Tenho algumas dúvidas em relação a esta situação concreta, se as condições de manutenção desta vacina para ser aplicada são tão rigorosas, eu temo que, ou nos ensinam como se manuseia e utiliza, ou teremos dificuldade.

Nós temos uma rede de equipamento em muito lado e acho que, por exemplo, os enfermeiros e médicos que pertencem a esta enorme rede do terceiro setor podiam ser chamados a participar. Eu sou responsável pelo plano de contingência num lar de idosos e eu não imagino como é que vou levar ao centro de saúde uma parte importante das pessoas que lá residem. Se as pessoas dos lares são as primeiras... Mas eu não sei se tenho condições para manter a vacina a menos de 70 graus.

A minha pergunta ia mesmo nesse sentido, de serem escutadas as preocupações de quem está no terreno.

Exatamente. Nós podemos rentabilizar os recursos, mas temos que perceber como é que isso se faz sem erros. Porque incumprir numa coisa destas é um erro muito grave que depois não se pode imputar se não houver um esclarecimento. Mas sim, a rede que nós temos estará até interessada em que este seja um bem que chega o mais próximo possível.

Considera real esse receio de que o acesso universal esteja de alguma forma prejudicado. Aliás, alguns países já começaram a vacinação e outros há mais pobres que ainda não sabem quando podem contar com a vacina?

Eu tenho tantas dúvidas em relação este tema. Sou uma mulher de fé, mas em relação a isto tenho muitos medos. Há coisas que eu me pergunto a mim própria: as pessoas que tiveram Covid não deveriam ser consideradas numa fase diferente da vacinação? Porque se essas pessoas estiverem protegidas nós poderíamos estar já a dar o próximo passo com as pessoas que não tiveram a infeção, ou vírus e que poderiam ser beneficiadas.

Mas isto é um movimento muito difícil porque a propósito de informação eu também não tenho a certeza se os registos que nós temos em relação às pessoas que têm Covid estão absolutamente fáceis de usar, nesta perspetiva.

Dizem-me que sim, que a vacinação em Portugal vai ser universal, mas eu tenho quase a certeza absoluta que a menos que haja um movimento de doadores que as faça chegar aos países com mais dificuldade, será difícil esse acesso. Mas tem que ser um pacote produto/ aplicação, senão não vejo que seja possível. E acho que se deveria estar a trabalhar isso.

Os novos corpos sociais tomaram posse no Dia Internacional dos Direitos do Homem. Isso tem uma carga simbólica, e é também de certa forma um desafio, e vendo que 70 anos depois é um projeto que continua por cumprir na sua totalidade?

Claro que é muito simbólico. Não posso deixar de me sentir bem por ter acontecido nesse dia. Sinto-me muito grata em relação à forma como a tomada de posse dos órgãos sociais da Cáritas aconteceu. Agora, que nós nos confrontamos com isso, confrontamos. Mas também nos confrontamos com estarmos em 2020 ainda a pôr no topo das nossas obrigações acabar com a pobreza, acabar com a exclusão e todas estas grandes frases plenas de vontade e ambição e uma grande humildade de não sermos capazes de ter resolvido o problema.

O Governo criou uma comissão de coordenação para elaborar, até 15 de dezembro, a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza. A Cáritas espera que se faça a diferença, desta vez?

A Cáritas espera. A Cáritas também foi chamada a participar. Houve aqui alguma dificuldade entre datas e não estou informada sobre esse particular, mas eu acredito que as pessoas que estão envolvidas estão apostadas em fazer a diferença. Se vão ser capazes ou não, não sei. Mas acho que todos os esforços, especialmente senão for investir muito dinheiro em criar uma estratégia, se for uma estratégia que utiliza os recursos já existentes e o conhecimento que existe sobre os diferentes tipos de pobreza - porque não há só um tipo de pobreza- eu acredito que sim.

Quando comecei a trabalhar foi exatamente ao abrigo do segundo Programa Europeu de Luta Contra a Pobreza. Nós tínhamos entrado na comunidade europeia. Custa-me muito que em 2020 ainda estejamos a falar disto, e custa-me muito ainda mais que nós não saibamos, ou não tenhamos sabido até agora resolver este problema.

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