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Teletrabalho

A sua casa virou escritório? Saiba como aproveitar o melhor de dois mundos

01 dez, 2020 - 08:59 • Marta Grosso

A Renascença falou com um "personal trainer", uma nutricionista e uma arquiteta e especialista em Feng Shui para lhe dar as ferramentas essenciais a um teletrabalho mais feliz.

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Conforto, bem-estar, rotinas e organização. Talvez não sejam as palavras que rapidamente consideraria relacionar, mas a verdade é que são a base para um teletrabalho bem sucedido, em que os lados profissional e pessoal/familiar coexistem em harmonia.

Agora que o teletrabalho (ou “home working”) passou a fazer parte das nossas vidas, há aspetos que não deve descurar. Mas vamos por partes.

Conforto

Onde instalou o escritório?

Se a resposta é “no escritório, obviamente”, parabéns. Ter um espaço dedicado apenas ao trabalho é muito importante para concretizar a “separação de poderes” necessária à boa saúde mental de quem trabalha a partir de casa.

Mas nem toda a gente pode dedicar uma assoalhada ao trabalho por conta de outrem (ou por conta própria, mas que antes era feito fora de casa). Cozinha, sala, mesa de jantar e quarto são algumas das divisões que passaram a ter como decoração um computador e alguns papéis.

Aqui o desafio é maior, mas pode ser ultrapassado. Com organização. E conforto.

“O mais importante é criarmos conforto na nossa casa, em primeiro lugar. Isso depende de algum investimento nosso a limpá-la e a organizá-la, para a tornar o mais funcional possível”, diz à Renascença Paula Margarido, arquiteta e especialista em Feng Shui.

Ou seja, é importante que “a casa esteja organizada, de maneira a que as tarefas sejam mais fáceis de executar” – nomeadamente, as que nada têm a ver com as lides domésticas. Faz parte, digamos, do conforto mental que tanto contribui para a concentração e a produtividade no trabalho.

"“Se não temos um bom ambiente à nossa volta, desfocamo-nos e dispersamos facilmente"

Mas o conforto físico (e, mais concretamente, ergonómico) também é necessário. Investir, por exemplo, numa boa cadeira de escritório é meio caminho andado para evitar dores nas costas e sentir-se mais cómodo a trabalhar. Novamente, será um bom contributo para o foco e a produtividade.

Organização

Mulher para um lado, marido para o outro

Se ambos os cônjuges estão em teletrabalho, o ideal é que instalem o escritório em áreas diferentes da casa, diz Paula Margarido.

“O conselho é que cada um esteja no seu espaço; que haja possibilidade de fechar a porta, senão é uma confusão tremenda, porque hoje falamos ao telefone e em videochamada e acabamos por perturbar o outro”, sustenta.

“Um fica na sala, outro no escritório ou noutro canto onde possa estar bem”, sugere.

Trabalho e conhaque não se misturam

Quando o dia de trabalho acaba, a mesa de trabalho deve ser arrumada. “Retira-se tudo. Guardamos o portátil, guardamos a papelada numa gaveta, num armário e esquecemos o trabalho”, diz a arquiteta com vários livros publicados sobre organização em casa.

Paula Margarido é defensora de se jantar ou almoçar fora da cozinha, dado o ambiente mais frio que costuma caracterizar esta divisão. “Aproveitem a vossa mesa de jantar ou de refeições”, sugere.

A especialista reconhece, contudo, que “as pessoas voltaram a dar mais atenção à cozinha, tornando-a mais funcional e confortável”, pelo que o importante é que o momento da refeição seja agradável. Mesmo que, antes, a mesma mesa tenha servido para trabalhar.

No caso de o escritório ter sido montado no quarto, esta arrumação no final do trabalho assume maior relevância. “Quando estamos a dormir, não devemos ter o computador à vista, porque acordamos e temos logo o trabalho à frente, bem como a quantidade de coisas que temos para fazer”, explica.

Além disso, a existência de equipamentos eletrónicos na divisão onde dormimos não é aconselhável.

Bem-estar

Secretária arrumada

Dá mais gosto trabalhar numa secretária arrumada. “Uma mesa caótica, cheia de papéis onde a pessoa já não sabe onde tem este ou aquele documento, aquele recado ou aquele post-it tira a vontade e torna muito cansativo trabalhar”, diz Paula Margarido.

A secretária de trabalho deve ser “minimalista”, indica a autora de “Destralhe a sua casa”. Como especialista em Feng Shui, explica que existe uma “grelha” que ajuda a organizar a mesa de trabalho. Chama-se Baguá.

Trata-se de uma proposta. O Baguá está dividido em nove casas/zonas, cada uma correspondente a um aspeto da nossa vida: relacionamentos, saúde, criatividade, família, fama, pessoas prestáveis, prosperidade, conhecimento e espiritualidade e caminho de vida.

Por exemplo, se a secretária for retangular, poderá colocar do lado direito o telefone (no campo das pessoas prestáveis). Do mesmo lado, mas mais acima, pode colocar uma fotografia dos filhos ou do marido/mulher (relacionamentos).

Mesmo em frente é a área onde colocamos o portátil ou ecrã de computador (caminho de vida). À esquerda, na zona do conhecimento, “pode ter um caderno de apoio, onde toma notas, ou a agenda, para estruturar o dia”.

Na zona da família, poderá colocar “um objeto ou uma caixinha de apoio com alguma ligação à família – uma prenda, por exemplo”.

Bom ambiente

Trabalha-se melhor num agradável. Além da secretária, é importante que, em seu redor, o ambiente também transmita bem-estar e conforto.

“Está provado que um local caótico ou muito desorganizado nos afeta psicologicamente. Por isso é que é importante termos os nossos objetos, livros, coisas pessoais organizadas e não ter em excesso”, sublinha Paula Margarido.

“É importante termos um ambiente leve, menos confuso”, o que nos “dá produtividade, foco, concentração”, reforça.

As plantas podem dar uma ajuda e há umas que são tidas como “purificadoras”, ajudando a “diminuir a energia eletromagnética”. É o caso do lírio-da-paz e da palmeira de bambu.

Rotinas

São fundamentais para a saúde – seja física, mental ou mesmo familiar. E é a regra que todos os especialistas consultados referem. Inclui tomar duche e vestir-se, exercício físico, refeições e até olhar pela janela ou passear um pouco na rua.

Assumir o compromisso

Se antes ia ao ginásio à hora do almoço ou depois do trabalho, não há razão para deixar de o fazer. Sendo que, agora, pode ser o ginásio a vir a sua casa. A opção é sua. O importante é que coloque esse tempo na agenda e cumpra.

“O essencial é marcarem e bloquearem as horas de almoço e as horas do treino na agenda. Assumirem esse compromisso”, afirma Ronilson Sá, personal trainer e osteopata.

“A vantagem de treinar com o personal trainer é essa: a pessoa tem marcado na agenda e a probabilidade de desmarcar é muito menor. Se for treinar por livre e espontânea vontade, já não sai às 18h00 como previa, passa para as 19h00, depois já não é às 19h00 e quando desliga o computador já não tem vontade nem energia para fazer o treino devido”, destaca.

Mas, independentemente da forma escolhida – ginásio, treino online, PT ou outro – o importante é que faça. E não se esqueça: “coloque o equipamento”. Afinal, vai treinar.

“Temos de investir na nossa saúde, porque este confinamento e teletrabalho, ao nível psíquico, de stress e de sedentarismo, está a ser bastante agressivo. Se não criarem essas rotinas e investirem tempo no exercício físico, mais cedo ou mais tarde irão ter problemas”, alerta o instrutor, insistindo: “tem que se trabalhar na prevenção”.

“Treino de força, mobilidade e respirações são a base de tudo”, diz, acrescentando que é também muito importante a hidratação. A longo do dia, e enquanto está a trabalhar, não se esqueça de ir bebendo água.

Parar de hora a hora

Pequenas pausas. De três, quatro, cinco minutos. Pequenas, mas essenciais. Este tempo é para fazer respirações profundas e alongar o corpo.

"ser feliz enquanto se trabalha em casa é um desafio."

“As pessoas passam muitas horas à frente do computador, perdem a noção do tempo e fazem poucas pausas. Tornam-se mais exigentes com elas próprias e é mais difícil desligar o computador e ter momentos de lazer. Muitos nem fazem pausas de almoço”, aponta.

Quem sofre é o corpo, por causa das más posturas e/ou posturas estáticas prolongadas, e a mente, uma vez que há menos convívio social e maior isolamento. Ora, está provado que a atividade física “é uma ferramenta essencial para a saúde pública, muito utilizada ao nível de tratamento e prevenção de diversas doenças, nomeadamente articulares, transtornos depressivos e ansiedade”.

“A atividade física ainda aumenta a responsabilidade, obrigando-nos a ter essas pausas para nós, para nos exercitarmos, ativarmos e libertarmos todas as endorfinas e oxigenarmos o cérebro”, reforça.

Ronilson Sá aconselha, por isso, a colocar um despertador para tocar de hora em hora ou de 1h30 em 1h30 para fazer aquelas pequenas pausas “para sair da frente do computador, hidratar-se e alongar”.

Comer... bem!

Em casa sentimos mais vontade de ir ver o que há na cozinha. Ou naquele armário de snacks. Ou naquele sítio onde escondemos doces até de nós próprios…

Passamos mais tempo sentados e com a cozinha mais à mão. Com a ansiedade e o stress a aumentar, é à comida (leia-se, petisco ou snack) que recorremos para um conforto emocional.

A nutricionista Sara Romeiro deixa algumas dicas para melhor contornar estes apetites e viver cada dia com maior energia e vitalidade.

  • Planeie os horários das refeições: organize uma rotina para o seu dia e faça as refeições sempre nos mesmos horários.
  • Planeie o menu da semana: para comer melhor e evitar o desperdício, faça um planeamento das refeições com o que tem em casa, usando os mesmos ingredientes para diferentes pratos. Se não quer estar sempre a cozinhar, faça receitas maiores e congele em porções certas.
  • Disfrute de cada refeição: mantenha o foco no que está a comer e evite fazer outras atividades paralelas, como comer à secretária ou em frente à televisão, dando atenção aos sinais de fome, sede e saciedade; foque-se no alimento consumido – é uma das formas de se relacionar melhor com a comida.
  • Faça compras inteligentes: compre vegetais e frutas da época; prefira os cereais integrais aos alimentos processados, repletos de açúcar e gordura; não compre aqueles alimentos que sabe que fazem mal e que não resiste.
  • Evite pedir comida “takeaway”, mas, se o fizer, opte por preparações que se assemelhem as comidas caseiras, dando preferência aos pequenos comércios.
  • Tenha sempre uma garrafa de água ao seu lado. É muito fácil esquecermo-nos de beber água quando se está em casa.
  • Procure estratégias para lidar com as emoções sem recorrer à comida. Antes de se levantar para ir comer, analise se é mesmo fome ou se vai comer por razões emocionais. Fazer exercício ajuda a ultrapassar estas fases.

Adapte-se. Respeite-se

As dicas que em cima deixamos são orientações. Cada pessoa deve adaptá-las à sua realidade e personalidade. Mas lembre-se: não deixe para amanhã o que pode fazer hoje, e muito menos se for para melhorar a sua qualidade de vida.

Logo pela manhã, abra as janelas e abrace o dia com um sorriso. Deixe entrar a luz, o sol.

Mesmo em casa, tire o pijama e vista uma roupa que levaria para o trabalho. Cumpra o horário e não estique demasiado. O convívio com a família também é importante, tal como um passeio ou um café com um amigo, dentro das regras impostas pela pandemia. A Covid-19 trouxe limitações, mas não trava a imaginação ou a vontade de fazer acontecer.

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