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Congresso PCP

Liderança comunista “sem prazo datado nem período experimental”

29 nov, 2020 - 12:27 • Eunice Lourenço , Susana Madureira Martins

No encerramento do Congresso do PCP, Jerónimo de Sousa voltou à acusação de deserção do Bloco. E afirmou o PCP como indispensável à alternativa política.

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“Não estamos a prazo datado nem em período experimental”. Foi assim, com uma frase que não estava no discurso escrito e distribuído aos jornalistas, que Jerónimo de Sousa arrumou a questão da liderança comunista no encerramento do congresso do PCP, que decorreu neste fim-de-semana em Loures.

Jerónimo de Sousa fez um discurso curto, com menos de 15 minutos, durante o qual o secretário-geral reconduzido quis afirmar o PCP como um partido necessário e indispensável para uma “política alternativa”.

“Este é um partido necessário e indispensável para construir um futuro de progresso e desenvolvimento”, afirmou Jerónimo de Sousa a concluir a primeira parte do seu discurso, que dedicou ao estado do país. Um país onde, disse, se vive uma “situação social agravada pela situação sanitária, mas também resultado de baixos salários, de precariedade, das injustiças, das alterações para pior da legislação laboral”.

“Esta realidade não se combate com estados de emergência excessivos e inconsequentes. Combate-se com medidas de emergência social, dando sentido e dimensão ao objetivo de que ninguém deve ficar para trás”, afirmou o secretário-geral comunista, defendendo que é preciso travar a “destruição de setores económicos e assegurar o emprego e a vida de muitos milhares de micro e pequenas empresas”.

E foi em nome dessa defesa que o PCP viabilizou o Orçamento do Estado para 2021. Jerónimo disse que não foi possível ir mais longe porque o PS não se liberta “das suas escolhas e opções”. Mas os comunistas também fizeram uma opção, que foi não desistir.

“Enquanto alguns desistiam, se há avanços, medidas consagradas dirigidas aos trabalhadores, aos reformados, às pequenas empresas, à cultura, ao Serviço Nacional de Saúde e aos seus profissionais, todas têm a marca, a contribuição, a proposta do PCP”, afirmou o líder do PCP, com uma indireta ao Bloco de Esquerda, que tinha sido o único partido a não referir no discurso inicial.

A “política alternativa” que os comunistas defendem, continuou, “precisa da convergência de democratas e patriotas, da luta dos trabalhadores e do povo, do reforço do partido”.

Estas são as “forças motoras” para uma “alternativa política que não é possível só com o PCP, mas também não será possível sem o PCP”, o partido “necessário e indispensável” para uma política de esquerda.

Na segunda parte do discurso, Jerónimo de Sousa salientou a importância da própria realização deste congresso, que foi alvo de várias críticas políticas por parte “das forças reacionárias” por se realizar em período de estado de emergência.

“Se há algum ensinamento a extrair do congresso do PCP é que não existe nenhuma dificuldade intransponível para garantir a segurança sanitária e o exercício de direitos e liberdades”, disse Jerónimo de Sousa, agradecendo às centenas de delegados e às dezenas de camaradas que garantiram a organização segundo as normas sanitárias de todo o congresso, incluindo transportes e alimentação.

Terminado o congresso, “falta fazer a obra”. E para a fazer, os comunistas continuam a contar com a liderança de Jerónimo de Sousa, que foi reeleito com um voto contra, pelo novo comité central que também foi eleito neste congresso.

“Não estamos a prazo datado nem em período experimental, mas sim disponíveis para fazer o que temos de fazer e o congresso decidiu”, garantiu Jerónimo de Sousa. A questão da liderança foi muito falada no tempo de preparação deste congresso, mas o PCP acabou por reconhecer que as contingências dessa preparação (as muitas reuniões de células e núcleos que, geralmente, antecedem os congressos comunistas) prejudicaram o debate que seria necessário para avançar no sentido de mudança.

Jerónimo de Sousa mantém-se, assim, secretário-geral. Ou seja, não está a prazo, estando legitimado para cumprir mais quatro anos se assim o partido entender. E também não tem um secretário-geral adjunto (ou mais). Ou seja, não há ninguém que fique em “período experimental” para lhe suceder.

Nos próximos quatro anos, contudo, o Comité Central confirmado neste congresso é soberano para decidir qualquer alteração na liderança. Um dos nomes que tem vindo a ser falado é o de João Ferreira, o eurodeputado que é candidato às presidenciais de janeiro e a única personalidade do partido a que Jerónimo de Sousa fez referência pessoal, tanto no discurso de encerramento como no de abertura deste congresso.

Outro dado a apontar o aumento de importância de João Ferreira é a sua escolha para a comissão política do PCP, que foi eleita no sábado à noite pelo Comité Central do partido, reunido à porta fechada.

Outra mudança relevante nos órgãos do PCP é a eleição de Paulo Raimundo, também para a comissão política. Este operário e dirigente comunista passa agora fazer parte do círculo restrito que acumula a presença na comissão política e no secretariado e a tradição no PCP é que o líder sai do grupo de dirigentes que estão nesses dois órgãos direção. Os dirigentes que também acumulam são Jerónimo de Sousa, Jorge Cordeiro, Francisco Lopes e José Capucho.

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  • Ivo Pestana
    29 nov, 2020 Funchal 19:47
    Nestes partidos, o confinamento é para o outro e não sabem o que é alternância na cúpula.