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João tem 29 anos e foi reinfetado com a Covid-19 em um mês e meio

24 nov, 2020 - 07:01 • João Carlos Malta

Há muito poucos casos conhecidos de reinfeção em todo o mundo, menos de duas dezenas. O jovem que vive em Londres testou positivo numa viagem aos Açores, mas não teve sintomas, e há poucos dias um novo teste confirmou um segundo episódio da doença já no Reino Unido. À Renascença, conta todos os pormenores de um caso que os especialistas dizem ser raríssimo, mas cujos números podem estar subestimados em relação à realidade.

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Quando a 8 de novembro começou a sentir febre ligeira, dores no corpo, frio, suores noturnos, João Marecos nunca pensou que podia ter contraído o novo coronavírus. Afinal de contas, um pouco mais de um mês antes já tinha um teste positivo. Mas quando viu a namorada Caroline a ter os mesmos sintomas, e ambos a ficarem sem o paladar, não teve dúvidas em querer fazer um novo teste. E o resultado confirmou o pior cenário. Este jovem português de 29 anos, a residir em Londres, é um dos poucos casos no Mundo a contabilizar duas infeções num curto espaço de tempo.

À Renascença, João conta que, depois de um período de férias em Portugal, voltou para Inglaterra a 1 de novembro − país onde é advogado e gere o seu próprio escritório. Quando aterrou em Londres, apanhou com um novo confinamento, e o tempo que mediou o regresso ao Reino Unido e os primeiros sintomas foi de uma semana. Nesse espaço temporal, garante, saiu três dias de casa.

Inicialmente estava absolutamente seguro de que não podia estar, outra vez, com Covid-19. “Lembro-me de ter dito a amigos por telefone que até nos esquecemos que é possível ter febre por outras razões”, recorda. Mas a verdade é que, a partir de 8 de novembro, os sintomas foram evoluindo e, “sobretudo, apercebi-me de que estava com dores de cabeça persistentes há seis ou sete dias, e comecei a desconfiar de que não fosse uma gripe”.


DISTRIBUIÇÃO DOS CASOS DE COVID-19 POR REGIÃO

As dúvidas adensaram-se quando a companheira de 28 anos começou a ficar doente. Ela sentia uma fadiga extrema, a que se somou a falta de paladar. “Foi nessa altura que chegamos à conclusão de que devíamos ir fazer o teste, porque esse é um dos sintomas mais significativos do coronavírus”, identifica.

Ele teve todos os sintomas do que designa de “cardápio do coronavírus” desde a febre, às dores corporais e suores, a que somou grandes oscilações de temperatura corporal, dores de garganta, uns espirros, e a perda do paladar.

“Nunca tive dificuldades sérias de respiração, mas ainda agora respirar profundamente é algo que me causa algum incómodo. Dá para perceber que nos meus pulmões as coisas não estão a 100%”, refere.

Humano… aplicação

No Reino Unido, onde vive desde 2018, os processos de despistagem estão muito automatizados. Quem tem sintomas descarrega uma “app” do National Health System (NHS), reporta os sintomas e, se forem considerados graves, há duas formas de fazer o teste à Covid-19: ou se pede um "kit" para ser entregue por correio em casa, ou então vai-se a um centro móvel criado para o efeito.

Optou pela segunda hipótese. Mas ainda assim, mesmo tendo profissionais especializados no local, o protocolo é de que é o próprio doente que faz a zaragatoa a si mesmo.

Estávamos a 16 de novembro e um dia depois chega o resultado dos dois testes por correio eletrónico: ambos positivos. “Foi um e-mail simples a dizer você testou positivo, não entre em pânico, tem obrigação em permanecer em casa durante 10 dias”, avança.

O advogado acredita que o local em que pode ter sido contagiado foi um supermercado, nas únicas três vezes em que saiu de casa. Aliás, no Reino Unido os estudos realizados pelas autoridades sanitárias mostram que os principais focos de disseminação da doença são os supermercados, superando os hospitais e as escolas.

João Marecos explica que naquele país, que conta já com 1,5 milhões de infetados e quase 55 mil mortes, tudo funciona de uma forma despersonalizada. “Ainda não falei com absolutamente ninguém do ‘NHS’ [Serviço Nacional de Saúde], nem médicos, nem enfermeiras, não falei de nada sobre esta situação”, concretiza.

O contraste com a primeira infeção, conhecida nos Açores numa viagem de barco entre as Flores e S. Jorge, não podia ser maior. “Dessa vez foi o completo oposto, foi super-pessoal, passei o primeiro dia a falar ao telefone com os médicos e os enfermeiros de todas as ilhas e do continente para me fazerem as mesmas perguntas. Aqui [Londres] senti que está tudo mais organizado, sentimos que é a coisa mais normal do mundo”, identifica.

João diz que a primeira vez que passou pela doença serviu de almofada para esta segunda etapa. Mas defende que para quem não passou por ela, a despersonalização que se vive em Inglaterra não traz grande segurança e conforto.

“Por outro lado, estamos a falar de um país que está a passar muito mal com imensos casos e não tem meios humanos para fazer um acompanhamento como aquele que me fizeram em S. Jorge, onde era a única pessoa que estava infetada na ilha inteira”, recorda.

Raro, raríssimo

O jovem advogado olha para o seu caso, e está consciente de que é uma situação muito rara. Um dos últimos estudos sobre a imunidade dos infetados com a Covid-19, realizado pela Universidade de Oxford, diz que é muito pouco provável que haja uma reinfeção no espaço de seis meses.

Na primeira vez, quando foi diagnosticado com o novo coronavírus através de um teste PCR nos Açores, e ficou em isolamento na ilha de S. Jorge durante 17 dias (duas semanas da quarentena mais dois à espera do teste negativo), não teve sintomas. Ele lembra que desconfiou, nunca esteve 100% seguro de que teve mesmo o vírus, apesar de a prova laboratorial ser taxativa.

“Deixei sempre em aberto a possibilidade de não ter desenvolvido anticorpos”, afirma. Apesar disso, logo a seguir era comum ele e os amigos dizerem que depois de ter sido infetado, era a pessoa mais segura com que se podia estar.

“Todos diziam és uma pessoa porreira para se estar, porque já tiveste o vírus e não vais voltar a ter. Lembro-me dessas brincadeiras que não são verdadeiras, porque podemos voltar a ter o vírus”, evidencia.

"Não me vão ouvir dizer, como disse da primeira vez, que agora estou bem, que estou seguro, e que agora de certeza que não apanho"

João pensa agora que é possível haver uma resposta positiva ao PCR e não haver uma construção de uma resposta imunitária. “Já sabia que era uma possibilidade. Se calhar os meus anticorpos, na primeira vez, não foram desenvolvidos. Desta vez, estou um bocadinho dividido, por um lado, já há 12 dias que estou a lutar com sintomas, por isso acho inevitável ter desenvolvido anticorpos”, considera.

Mas depois de ter testado duas vezes, garante que não tem convicção nenhuma “de que não possa testar uma terceira”. E agora, “não me vão ouvir dizer, como disse da primeira vez, que agora estou bem, que estou seguro, e que agora de certeza que não apanho”.

No entanto, salienta, que mantém confiança naquilo que a ciência nos diz, através de um alargado consenso, ou seja, que a resposta imunitária é suficiente para nos defender durante alguns meses. “Abro a possibilidade de que o meu caso seja infelizmente excecional, mas ainda assim excecional”, sublinha João Marecos, cuja reinfeção não está registada em nenhum sistema porque testou em dois países diferentes.

No questionário que lhe fizeram na aplicação destinada a despistar casos de Covid-19 no Reino Unido, essa pergunta não era sequer equacionada. Por fim, deixa uma hipótese: “acho que se as pessoas fossem testadas, mesmo sem sintomas, iam descobrir que tinham coronavírus e estas situações de reincidências iam ser registadas mais vezes”.

Afinal, o que pode ter acontecido?

Esta é uma hipótese que colhe a concordância do médico Germano de Sousa, especializado em Patologia Clínica e fundador de uma rede de laboratórios com o seu nome. “Se calhar temos muito mais casos do que aqueles que existem, mas não os estamos a detetar”, garante. “Calculamos que sejam mais 15% a 20% que nunca fizeram o teste e podem estar reinfectados”, acrescenta.

Germano de Sousa afirma que para a situação de João Marecos há duas possibilidades: ou era mesmo positivo, ou houve um falso positivo porque “ele não teve sintomas e é legítimo levantar uma dúvida se teve ou não positivo, mas não estou a diminuir a qualidade do que se passou lá”. Ainda assim, argumenta que era uma situação que pedia um segundo teste. Na altura, nos Açores a possibilidade foi negada.

Já se foi positivo, “é mais um caso raro”. “A sua imunidade era fraca, não teve anticorpos anti-Sars-Cov-2, e voltou a ter”, explica.

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes começa por dizer, comentando o mesmo caso, que um teste PCR é altamente sensível, e por isso “é pouco provável que não tivesse” Covid-19.

Carmo Gomes enumera várias hipóteses para o que possa ter sucedido. A mais provável é a de João ter sido infetado novamente, e no primeiro caso João não ter acionado uma resposta imunológica competente. “O sistema imunológico dele não criou memória imunológica, ou seja, não lhe conferiu proteção suficiente para evitar um reinfeção”, equaciona.

“As pessoas que têm sintomas com doença grave em especial desenvolvem uma resposta imunológica muito mais assertiva e forte do que as pessoas que não têm sintomas nenhuns. De um modo geral é assim”, esclarece.


"O sistema imunológico dele não criou memória imunológica, ou seja, não lhe conferiu proteção suficiente para evitar um reinfeção"

Se o doente não tem sintomas, ou tem menos sintomas, fica com menos dose de anticorpos a circular no sangue. “Essas pessoas têm maior probabilidade de serem reinfectadas”, concretiza.

Ainda assim, não se consegue ter a certeza absoluta se esses casos são sempre reinfeções, ou se pelo contrário é o mesmo vírus que apanhou na primeira vez em setembro, e que ficou algures alojado e escondido no organismo e foi agora reativado.

“Esta é uma hipótese para os vírus em geral, alguns que nós conhecemos isso muito bem com o HIV e com a varicela. Há muitos vírus que têm esse comportamento. Com o coronavírus não se sabe, mas não é de excluir porque há outros vírus que conseguem fazer isso”, diz.

O mesmo especialista diz que nos casos investigados de reinfeção, nos quais as pessoas testaram primeiro positivo e depois voltaram a testar passados meses, conseguiu-se identificar que era um vírus diferente. Os coronavírus sofrem mutações.

Casos começam a surgir em Portugal

Questionado porque é que na primeira vez não teve sintomas e na segunda isso aconteceu, Manuel Carmo Gomes diz que “a resposta curta é não sei”. Mas o mais provável, garante, é que na segunda vez pode ter sido infetado com uma dose maior do que na primeira.

“A dose conta, quando somos infetados com uma dose grande, mesmo que tenhamos algumas proteções o sistema imunitário pode não dar conta do recado. Pode também na segunda infeção estar imunossuprimido, adoentado, mal alimentado, ou com um problema de saúde”, explica o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Tal como Germano de Sousa, este especialista não tem dúvidas de que são casos “muito incomuns”, e apesar destes relatos “serem cada vez mais frequentes”, “são uma gota de água no oceano de infeções, quer em Portugal, quer no mundo”.

Até há bem pouco tempo, havia menos de 20 possíveis reinfeções, em comparação com os quase 60 milhões de casos de infeção pelo SARS-CoV-2 confirmados em todo o mundo.

Um dos casos de reinfeção passou pelas mãos de Germano de Sousa, que diz tratar-se de uma mulher de 48 anos que fez dois testes positivos no seu laboratório. “Quando faço o segundo teste, percebi que a senhora já tinha tido um positivo. Pensei, isto deve ser um erro”, relata.

“A sorte foi eu fazer o primeiro e o segundo teste. Pessoas que vão a laboratórios diferentes, como não os relacionamos passam desapercebidos”, defende.

Já este fim de semana, mais dois casos. O presidente da Câmara de Ovar fala de duas pessoas que estiveram infetadas na Primavera e que voltaram a testar positivo. Ambos os casos estão a ser estudados.

A mudança

Já João Marecos apesar de não “ter vontade nenhuma” de ser testado, estará disponível para ajudar com o seu caso, se isso beneficiar o conhecimento científico e a saúde pública em geral.

Para já, de todo o processo que passou, reflete que “quando as pessoas são jovens”, “temos a sensação de que o coronavírus não nos vai tocar e que se nos tocar não nos acontecesse nada”.

“Abriu-me os olhos para um tipo de impacto que não tinha percebido, o psicológico"

“E efetivamente a minha primeira experiência foi essa, não me aconteceu nada. Mas há uma espécie de ansiedade que se desenvolve da sensação de estar positivo, de ninguém se poder aproximar de nós, e de estarmos no fundo à espera de desenvolver sintomas”, recorda.

João Marecos diz que a maior transformação que sofreu, neste mês e meio, foi a da sua consciência de que” há tanta gente a testar positivo” e perceber” o peso psicológico que pode vir daí”. “Fiquei mais desperto para a ansiedade que daí advém”, sublinha.

“Abriu-me os olhos para um tipo de impacto que não tinha percebido, o psicológico. Falamos mais dos sintomas físicos que levam as pessoas ao hospital, mas estes são outro tipo de sintomas”, conclui o jovem que desde o último fim de semana já não tem sintoma da doença.


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