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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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O passado e o presente

23 nov, 2020 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


As descobertas portuguesas colocaram Portugal na vanguarda da Europa. Mas depois radicou-se entre nós uma amarga consciência de atraso em relação a outros países europeus. Naturalmente que vivemos hoje melhor do que há décadas ou séculos atrás. Mas a maioria dos outros países europeus melhorou mais. O atraso português continua.

Eça de Queirós morreu há 120 anos. No entanto, lendo os seus romances encontramos inúmeros sinais de enorme atualidade sobre os portugueses. Talvez o facto de Eça ter vivido grande parte da sua vida no estrangeiro lhe tenha dado uma especial lucidez sobre a nossa, portuguesa, maneira de ser. Ninguém como Eça retratou com tanta ironia o nosso atraso civilizacional.

Reparemos nos últimos dois séculos. Há 200 anos aconteceu a revolução de 1820 que, após muitas vicissitudes e uma sangrenta guerra civil, iria mudar a monarquia portuguesa de absoluta para constitucional. Foi um progresso, mas, pelo menos até meados do séc. XIX, multiplicaram-se as guerras entre fações liberais. E a antiga aristocracia foi sendo substituída pelos que enriqueciam com os bens retirados à nobreza absolutista e à Igreja.

Havia eleições e parlamento – mas é significativo que, ao longo da monarquia constitucional, nunca qualquer governo em exercício tenha perdido uma eleição. A alternância no poder governativo dependia de decisões do monarca, que dissolvia o parlamento e convocava eleições.

E, apesar dos esforços de políticos como Fontes Pereira de Mello, a revolução industrial passou ao lado do país. Como tinha acontecido sobretudo no reinado de D. João V, no séc. XIX vinha muito dinheiro do Brasil – já não por causa do ouro, mas das remessas dos emigrantes portugueses naquele país. Quando houve uma quase paragem nessas remessas, por razões da situação brasileira, Portugal foi à bancarrota perto do final do século.

Os últimos anos da monarquia foram altamente agitados e culminaram no regicídio, em 2008. Dois anos depois foi instaurada a república, suscitando grandes esperanças. Abria-se uma nova era – mas é difícil dizer que fosse para melhor.

A permanente luta entre republicanos e a fatal decisão de fazer entrar o país na I guerra mundial, contra a vontade dos aliados britânicos (que conheciam as nossas fracas capacidades), trouxeram muitos mortos e prepararam o terreno para o que viria a ser a futura e longa ditadura.

Salazar tirou a liberdade aos portugueses. E não lhe agradava o crescimento económico, com as suas inevitáveis consequências sociais. Preferia um Portugal agrícola e pobre.

É certo que a década de 60 do séc. XX foi a de maior crescimento da economia portuguesa. Mas isso teve muito a ver com a integração europeia. Um pouco a contragosto de Salazar, Portugal logrou ser membro fundador da EFTA em 1960, abrindo-lhe mercados como o sueco, por exemplo.

A democracia regressou com o 25 de Abril, mas Portugal teve de receber nos anos seguintes duas intervenções do FMI para colocar (momentaneamente) as nossas contas públicas em ordem. Depois, já como membro da UE, o país recebeu um empréstimo de emergência e a “troika”, com a austeridade.

O governo da “geringonça” repôs direitos e eliminou cortes nos orçamentos das famílias, mas não fez reformas estruturais. O atual governo, a manter-se mais uns tempos, apenas faz navegação à vista. Não admira que a economia portuguesa esteja a ser sistematicamente ultrapassada pelas economias de países do Leste europeu.

E há problemas relativamente novos, até agora sem resposta digna desse nome. É o caso das alterações climáticas, que prejudicam sobretudo os países do sul da Europa, e da desertificação de uma crescente parte do território continental. Além de que a pandemia não poupa Portugal, tornando tudo mais difícil.

O historiador britânico Toynbee, que morreu em 1975, defendeu a ideia de que a civilização das sociedades avança quando estas são confrontadas com desafios particularmente graves, que suscitam uma resposta sem precedentes. Talvez todas as dificuldades, internas e externas, que Portugal hoje defronta, levem finalmente a uma resposta capaz de vencer o nosso atraso. Este é um desejo, muito longe infelizmente de uma certeza.

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  • António J G Costa
    23 nov, 2020 Cacém 09:04
    No ano em que Toynbee morreu, Portugal atravessou um "PREC". Lembram-se das nacionalizações? Terá sido "..um período particularmente grave.." ? As consequências na banca é que, com os directores encostados "à parede", sistemas como o do Multibanco foram implementados. Os sistemas informáticos em Portugal, sem "direções bancárias" a atrapalhar deram passos de gigante. Outro exemplo, o sistema "via verde" nas autoestradas. Só somos, "muito pequenos", num país periférico.