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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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A China e o comércio internacional

20 nov, 2020 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O maior acordo comercial do mundo foi há dias assinado pela China e por vários países asiáticos, incluindo Japão, Coreia do Sul, Nova Zelândia e Austrália. Para já, a Índia ficou de fora. Aguarda-se o que fará a administração Biden.

A economia chinesa já se encontra a recuperar da recessão provocada pela pandemia. É agora uma economia mais assente no enorme mercado interno chinês e menos nas exportações. Mas isso não quer dizer que a China se tenha tornado protecionista, voltada para dentro. Os chineses pensam a longo prazo e sabem que o protecionismo acaba por ser prejudicial, por muito grande que seja o mercado protegido do exterior.

Por isso, a China promoveu aquele que é considerado o maior acordo comercial do mundo. Um acordo que também confirma a aposta de Pequim no comércio multilateral. É uma orientação contrária à política comercial de Trump, que apostou em acordos bilaterais (onde o maior poder económico americano dá vantagem aos EUA sobre o seu parceiro) e guerras comerciais, desprezando as organizações multilaterais.

O acordo abrange dez economias do sudeste asiático – China, Indonésia, Tailândia, Singapura, Malásia, Filipinas, Vietname, Birmânia, Camboja, Laos e Brunei, assim como Japão, Coreia do Sul, Nova Zelândia e Austrália.

Prevêem-se reduções até 96% nos direitos alfandegários dos signatários do acordo, que poderá evoluir para uma zona de trocas livres. É o primeiro acordo comercial que junta a China, o Japão e a Coreia do Sul.

O acordo praticamente não toca na agricultura. E – como seria de esperar de um acordo liderado pela China – não obriga os seus membros a darem passos no sentido de proteger os direitos laborais, como o direito de sindicalização, ou atingir determinados padrões ambientais e de propriedade intelectual.

Note-se, aliás, que o envolvimento da China no comércio internacional não tem correspondência, no plano interno, numa qualquer atenuação da ditadura que controla ferreamente a vida da população. Pelo contrário, o partido comunista chinês ou o Estado (não há clara distinção entre ambos) intensificou a sua intervenção nas empresas privadas, sobretudo nas tecnológicas.

Os EUA estão fora deste acordo, perdendo influência no sueste asiático, em benefício da China. Com Obama na Casa Branca chegou a esboçar-se um grande acordo comercial, incluindo naturalmente os EUA, mas excluindo a China. Era o Acordo Transpacífico de Cooperação Económica – que, além dos EUA, incluía países como o Canadá, o México, o Japão e a Malásia, entre outros. Trump abandonou o projeto.

A Índia ficou, para já, fora do acordo liderado pela China, o que suscita preocupações porque torna mais forte a influência de Pequim. Mas o primeiro-ministro da Índia, o populista Narandra Modi, e o seu partido Janata, têm prosseguido uma agressiva política nacionalista, favorável ao hinduísmo e muito prejudicial à minoria muçulmana. O que também não favorece uma atitude de cooperação externa no plano económico.

O que fará Joe Biden quanto às relações económicas dos EUA com a China ainda não sabemos. Não é de esperar qualquer viragem no sentido de uma intensa cooperação, pois são muitas as queixas americanas contra a atuação das empresas e das autoridades chinesas.

Xi Xinping quer que as empresas chinesas, mesmo as privadas, colaborem estreitamente com o partido comunista; por isso nunca se sabe se essas empresas, quando investem no estrangeiro, se regem por critérios de gestão empresarial ou por objetivos políticos. Espera-se de Washington, agora, políticas firmes, mas sensatas.

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  • António J G Costa
    20 nov, 2020 Cacém 18:56
    No acordo estão "todos" os países do sudeste asiático ao sul da China. A Austrália e a Indonésia são dos mais extensos em termos geográficos, além da Indonésia, ser muito populosa. Ficaram de "fora" a Coreia do Norte e (evidente) Taiwan, a Formosa. China-5, EUA-0. Mas o "estratega" Trump, pode ter ainda, uma carta na manga: dizer que o acordo não existe! A Índia e a China estão a concorrer no "mesmo tabuleiro" e tem havido algumas escaramuças fronteiriças. (Nota: Indonésia Japão Tailândia Austrália Nova Zelândia=5 ; todos "grandes" aliados dos EUA.)