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Miguel Esteves Cardoso. "Os portugueses não leem e a culpa é dos professores”

18 nov, 2020 - 21:05 • Maria João Costa

Com um romande preparado e "As 100 Melhores Crónicas" acabadas de editar, Miguel Esteves Cardoso diz que ler é um dos maiores prazeres. O cronista, que ainda escreve poesia, acredita que no futuro os jornais vão ser “edições de luxo” e custar “uma fortuna”. Sobre a pandemia, diz que o que dá "mesmo medo" agora é que "as pessoas apresentam-se como exceções".

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Já escreveu mais de 20 mil crónicas e diz que algumas são como “cogumelos”, outras como “flores secas”.

Miguel Esteves Cardoso (MEC) acaba de lançar mais uma coletânea de crónicas, "As 100 Melhores", diz o título editado pela Bertrand. A Renascença conversou com o autor sobre o que é uma boa crónica e as palavras que usa como “jóias”.

Considera a leitura um dos maiores luxos da vida, dedica-lhe muitas horas do seu dia, mas lamenta que os portugueses não leiam e culpa os professores por desincentivarem os alunos. Sobre o futuro dos jornais, o homem que fundou o jornal ‘O Independente’ diz que serão no futuro produtos de luxo.

Já sobre a pandemia, que no seu entender deu renovado sentido à palavra medo, MEC defende que não pode haver exceções, até porque "potencialmente qualquer pessoa pode infetar-nos".

No livro que agora edita pela Bertrand estão reunidas "As 100 Melhores Crónicas". Pergunto-lhe o que é para si, uma boa crónica?

Uma boa crónica, é uma crónica que apanha o que passa. As boas crónicas nunca apanham as coisas comezinhas, como os acontecimentos ou a data. Apanham muito mais, por exemplo, o outono que dá uma boa crónica. Mas um dia de novembro não dá. Só dava se fosse um dia de novembro e conseguisse apanhar, para que três ou quatro anos depois, ou mesmo 30 ou 40 anos depois, as pessoas dissessem que esta descrição de um dia de novembro é mesmo um dia de novembro. Ou seja, temos de tirar os elementos que duram.

Há temas sobre os quais se recusa a escrever, há palavras que não usa nas suas crónicas?

Não, porque isso seria como recusar uma cor. As palavras já são poucas para aquilo que se quer. Uma pessoa vai ao dicionário, há palavras ótimas, mas são muito difíceis de meter no texto.

"Há palavras que dão muito nas vistas, que têm de ser usadas como veludo, como uma jóia ou uma coisa rara"

Há palavras que uma pessoa gosta de usar, mas que dão muito nas vistas. Cortam o fluxo da escrita. Quando uma pessoa usa, a leitura para ali. Encalha, porque é uma palavra pouco conhecida, ou uma palavra muito comprida. Essas palavras têm de ser usadas com veludo, como uma jóia, ou uma coisa rara.

É muito exigente com a sua escrita, lê, relê, faz essa limpeza dos textos?

Tenho pensado muito nisso. Acho que o escrever está muito ligado ao ler. Há tantos livros, tantos escritores...uma pessoa entra numa biblioteca e fica doente. Mesmo em novo tinha o pânico, eu sei que nunca vou conseguir ler tudo. Sei que só dois por cento é que são bons, mas os dois por cento, mesmo que eu leia todos os dias vinte horas por dia, não vou ter tempo para ler tudo.

Podemos ser, extraordinariamente, loucamente exigentes no que lemos, porque percebemos que não temos tempo. Já que não temos tempo, exigimos o máximo. É um dos luxos da vida! É o maior luxo da vida é uma pessoa poder ler os maiores autores. Estão disponíveis! Uma pessoa pode dizer "só quero ler génios" e só lê génios. Uma pessoa torna-se tão exigente a ler e se o livro não nos apanha, então ponho de parte e vou buscar outro.

Tem essa mesma exigência com a escrita?

É pior! É pior, porque já sei o que vou dizer. Já sei o que escrevi, e já me chateia. Nada daquilo é fresco, já o escrevi. Enjoa-me aquilo! Por isso, uma pessoa torna-se inevitavelmente mais exigente com o que escreve. O ler muito faz com que se seja muito humilde naquilo que nós escrevemos. Uma pessoa vai escrever e diz assim: "Eh pá!", mas tem de ser!

O que gosta de ler e que tempo ocupa com a leitura no seu dia-a-dia?

Passo o dia inteiro a ler. É muito simples responder, não faço outra coisa, senão ler!

E teve paciência para reler as suas "100 Melhores Crónicas"?

É muito fácil reler porque uma pessoa consegue ver mais ou menos, quais é que aguentaram. Há algumas que ganharam um novo significado. Já escrevi 20 mil crónicas e só escolhi, mil para todos os livros, e dessas mil agora vou escolher dez ou cem. É interessante porque certos textos são como cogumelos, outros são como flores secas. Umas que tinham muita graça, morrem. Um texto pode estar morto agora e renascer daqui a trinta ou quarenta anos. Há muitas modas. O Fernando Pessoa que esteve muito na moda há 20 ou 30 anos, agora está a cair. Não sabemos como vai ser daqui a 100 anos. A moda, também é a apetência. Na altura, quando temos 15 anos, o tipo de livro que nos interessa não é a mesma coisa de quando se tem 5 ou 25, 35.

Como vê os índices de leitura em Portugal? Acha que os portugueses leem pouco? Esta ideia do confinamento, parece ter dado a ilusão de que temos tempo para ler mais, mas pelos vistos, os portugueses preferiram ver televisão.

Adoro os portugueses, e adoro ser português. Foi o sonho da minha vida, passar aqui a vida rodeado de portugueses e consegui-o. Mas os portugueses não leem. Sentem para com os livros uma sensação de obrigação. É uma chatice. Deveriam ler, mas têm um sentimento de culpa, não sei se é católico, é um sentido de culpabilidade: "Tenho que ler, eu sei que tenho que ler!!"

Ler tem de ser um prazer. Tem de ser um prazer absoluto! As pessoas têm que ler pela mesma razão que riem ou que vão almoçar. É uma coisa que dá prazer, é uma fuga! É uma maneira imediata de uma pessoa mergulhar noutra cabeça, noutra época, noutro tempo. É uma maneira de fugir, desobedecer. Ler é uma libertação da canseira das nossas próprias emoções, das pessoas que conhecemos, tudo! E é um prazer. Uma pessoa que gosta de ler vai ler sempre que pode. Sempre! É como voar ou viajar.

Uma das crónicas, incluída neste livro, chama-se "A Biblioteca da Mesinha-de-cabeceira", mantêm-se atual? Temos o hábito de acumular os livros na mesa-de-cabeceira, mas depois não os lemos?

O livro é uma coisa hipnótica. Um livro é uma coisa muito portátil e tem um mundo inteiro lá dentro, tão acessível. Não é preciso nada, é só abrir e ler.

Faz-me imensa pena quando as pessoas não dão valor a uma coisa que está ali. Acho que a culpa é toda dos professores! A maneira como se estuda os autores portugueses castiga! "Tens de saber isto e aquilo". A maneira como o tornam técnico, é uma espécie de vingança dos professores sobre os escritores.

Os professores tornam a escrita uma coisa chata e obrigatória. Uma espécie de sacrifício que é preciso fazer. No meu tempo, era dividir as orações. É uma crueldade, um sadismo. O que é que interessa o que o autor pensa ou pensava?!

O prazer de ler é como o prazer de fugir ou comer um cacho de uvas. As crianças, se uma pessoa diz, "Tens de ler isto, é obrigatório". Estas palavras todas são anti leitura. A própria palavra 'leitura' está desvirtuada. As pessoas perguntam "Já leste isto?", a reação por exemplo dos ingleses é: "É bom?"; a reação de um português é: "Não e tal, não tenho tempo", ficam logo a arranjar desculpas, "Não sabes da minha vida". Começa um grande choradinho!

Como é o seu laboratório de escrita? Como é o seu dia, quando não está a ler? Há uma altura em que tem de parar e escrever as crónicas.

Para a pessoa que está sempre mergulhada na literatura, nas palavras e nos livros, escrever não é sair desse mundo. Não há esse laboratório. Laboratório é uma terminologia do trabalho, da investigação, do estudo. Escrever é um trabalho, mas ler é um prazer. Não tem nada de laboratório.

"A maneira como se estuda os autores portugueses castiga! "Tens de saber isto e aquilo". A maneira como o tornam técnico, é uma espécie de vingança dos professores sobre os escritores"

Quando uma pessoa quer escrever, pede uma esferográfica a alguém e escreve no joelho ou não mão. Não interessa. Isso é que é maravilhoso. Não precisa de uma técnica, ou de um computador. Não precisa de nada, para escrever. Quando somos crianças, antes de sabermos ler, a nossa imaginação já está a funcionar. Antes de aprendermos a ler, já somos livres da cabeça!

A escrita de crónicas tem um ritmo muito próprio. Para quando um romance, ou seja, algo que tem outro ritmo de escrita.

Eu sempre quis, quando era miúdo, escrever tudo. Peças de teatro, romances, programas políticos, publicidade, tudo! A língua é uma coisa maravilhosa, escrever é dançar com as palavras, seja para justificar uma coisa numa carta oficial ou numa carta de amor. Escrever é escrever. Os romances também se escrevem aos bocadinhos. Depois é que se junta tudo. Escrever um romance, não é nada diferente de escrever uma crónica. É igualzinho. São só truques. É tudo passar da cabeça, ia dizer para o papel, mas não é preciso o papel, é para onde for.

E a poesia? Ainda escreve poemas?

Quando se começa, quando se é adolescente, com 11 ou 12 anos, uma pessoa começa por escrever poemas, porque é curto e a liberdade formal é grande. É uma boa maneira de começar a escrever porque as outras coisas são mais difíceis. Claro que, 99 por cento dos meus poemas eram muito, muito maus.

Mas nunca mais voltou a escrever poesia?

Escrevo de vez em quando. Três, quatro vezes por ano, se tanto. São coisas que não entram em mais lado nenhum, em mais nenhum tipo de escrita. Por exemplo, para a poesia, são coisas muito separadas, frases que entram e se acumulam, sem ter uma ligação entre elas.

Voltando à questão do romance, poderá vir a publicar algum romance?

Já nem sei quantos romances escrevi na minha vida. Foram muitos. Escrevi um muito, muito grande que um dia vai ser publicado, mas também publiquei outros três. O primeiro foi um êxito, o segundo não foi e o terceiro também não funcionou.

Uma pessoa exprimir-se e atingir os outros, ter o prazer enorme de alguém ler e dizer: "Ah, é mesmo assim!", ou "Foi isso que eu senti!", ou seja, apanhar o tempo, apanhar o sentimento, a maneira de ser, as coisas fugazes, esse prazer existe nos romances. Mas às vezes os romances têm muita palha. Eu sou muito apologista de saltar. Com a falta de tempo, se o romance começa a chatear com muitas descrições de mobiliário, eu salto. E se me chatear muito, pronto, ponho de parte e começo outro livro. Tenho sempre vários ao mesmo tempo.

"Ler é uma libertação da canseira das nossas próprias emoções, das pessoas que conhecemos, tudo"

Olhando para as crónicas que estão reunidas neste seu novo livro, cada uma delas tem no final o ano de publicação. Percebemos ao longo do livro e do tempo, como os temas que lhe interessam tratar foram mudando. Antes falava mais sobre os portugueses, hoje fala mais de si. Sente essa alteração? É aceitar o envelhecimento?

Sim. O envelhecer é relativo. Nós só temos 5 anos durante um ano, depois temos 30 durante um ano. Uma pessoa ser mais velha, é ter tido aquelas idades todas. Nunca tive a idade que tenho agora, para mim é tudo uma grande novidade. Agora ligo mais a outras coisas, acho que noto muito mais o tempo agora, a cor do céu.

Nas crónicas fala do seu neto. O ter sido avô mudou muito o seu olhar sobre a vida?

Sim, sim. Quando vêm os filhos e depois os netos, uma pessoa tem essa grande sorte que é ter uma criança. É empurrada pelos pais, não é? "- Vai lá dar um beijinho ao avozinho", mas acaba por dar. Uma pessoa acaba por conhecer um outro ser humano de uma maneira próxima e maravilhar-se com isso. Ouvir a conversa deles, falar com eles, são todos cheios de frescura e de novidade. É a novidade de ser outra pessoa. Começam logo a ser outra pessoa muito cedo. Aos 2, 3 anos já têm aquela personalidade.

Trabalhou tantos anos de forma ativa e direta no mundo dos jornais. Como vê hoje o futuro do jornalismo, neste atual contexto de pandemia?

A primeira coisa que temos que aproveitar é ainda ter jornais, ter esse enorme prazer. É uma coisa maravilhosa ler jornais impressos e muito barato para o que é. Acho que, no futuro, os jornais vão ser edições de luxo, as pessoas vão pagar uma fortuna pelos jornais. Uma fortuna por aquele papel grande e impresso com bons textos. Se calhar vão ser numerados e assinados, edições limitadas até mil.

Os jornais vão ser como os livros, agora. Edições de luxo. Vamos pensar assim: "- Que se lixe, hoje faço anos, vou comprar o jornal! - Eh! Grande maluco, não faças isso! - Mas, vou! - Quero comprar umas folhas de papel bem impressas, com tinta e levar para uma esplanada e ler”.

É um dos hábitos que tem?

Lembro-me na Zambujeira, o Pedro Rolo Duarte e eu, quando estávamos lá, ele também tinha essa mania e tínhamos duas grandes pilhas numa mesa muito pequena de café. Ele tinha a pilha dele, e eu a minha. Era da mesma altura, porque líamos os jornais todos, mas ai de quem se aproximasse e pegasse no jornal! Os jornais tinham de ser novos! O prazer do jornal ser novo, acabado de imprimir, ir de carro até perto de onde vivemos, isso é maravilhoso! E agora temos de aproveitar, porque quando acabarem já sei que vão dizer: "Ai que pena, era tão bonito o jornal... - Era tão bonito, mas tu não compravas!”

"Acho que, no futuro, os jornais vão ser edições de luxo, as pessoas vão pagar uma fortuna pelos jornais. Se calhar vão ser numerados e assinados, edições limitadas até mil"

Uma das palavras que me ocorre ao olhar para esta situação de pandemia é a palavra medo. A palavra ganhou novo sentido, com o que estamos a viver?

Acho que é isso mesmo que disse. Ganhou um novo sentido, que é o antigo. Medo, medo. Uma pessoa tem medo quando se aproxima uma pessoa. Será este que me vai pegar? A única maneira de as pessoas se safarem é partir do princípio de que todos somos infetados.

O que mais o assusta?

Uma das coisas que ninguém diz, e é uma das coisas mais aterradoras, que mais faz medo do agora, é que as pessoas que ficaram infetadas agora ficaram infetadas não obstante as máscaras, a distância e o estarem fartos de saber tudo acerca da Covid. Mesmo assim foram infetadas. Há qualquer coisa que não está a correr bem.

Ao princípio ninguém sabia e as pessoas ficavam facilmente infetadas, agora o que noto todos os dias, e é isso que faz mesmo medo, é que as pessoas apresentam-se como exceções. Dizem assim, "Olha, podes falar comigo à vontade".

Não pode haver exceções! Toda a gente tem de ser considerada como se estivesse infetada. Potencialmente qualquer pessoa pode infetar-nos. Esse é o medo mais existencial que se pode ter. Quando sabemos de alguém perto de nós que adoece, ou adoecemos nós, ou apanhamos um susto, só aí é que arrepiamos caminho e passamos a fazer o que não custa nada fazer!

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  • Petervlg
    23 nov, 2020 Trofa 09:07
    A culpa é dos professores?, quando temos pessoas cultas a dizer estas barbaridades; Culpados, a existir, só podem ser os pais. É muito fácil culpar quem não tem culpa, é preciso ter coragem e dizer a verdade algo que este Senhor, pelos vistos, não está habituado. Não sou professor, sou daqueles, que dá a educação em casa, e a escola é um continuar dessa educação.