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Opinião de Joana Gama

Trapistas: um caminho de escuta aberto à beleza

17 nov, 2020 - 19:12

Os diários de Merton, escritos no silêncio, estão cheios do seu deslumbramento. De uma beleza simples são também as fotografias tiradas por si no seu eremitério, que delicadamente nos lembram que a beleza está em todo o lado, mas exige que paremos para reparar nela.

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Há um novo mosteiro em Portugal. Dez monjas vindas de Vitorchiano, em Itália, vieram fundar o Mosteiro Trapista de Santa Maria Mãe da Igreja, no Palaçoulo, em Miranda do Douro.

Os trapistas (oficialmente, a Ordem Cistercience da Estrita Observância) são uma ordem católica de matriz beneditina que procura uma vida monástica rigorosa de silêncio, oração, trabalho físico e recolhimento.

Também trapistas eram os monges de Tibhirine, assassinados em 1996 na Argélia e beatificados em 2018, cuja história é contada sóbria e comoventemente no filme de Xavier Beauvois “Dos Deuses e dos Homens”.

No meio das montanhas do Atlas, uma comunidade de monges vive, reza, trabalha a terra, ajuda os vizinhos muçulmanos e partilha a vida com eles. Partilha só, sem proselitismos. E, perante a ameaça da violência no meio da guerra civil argelina, decide ficar e arriscar um destino incerto junto deles, que terminará com os monges decapitados.

No mesmo país, quase um século antes, um outro trapista, Charles de Foucauld, abandonou a ordem para viver junto dos tuaregues no sul da Argélia. Nas suas palavras “amanhã, faz dez anos que celebro missa no eremitério em Tamanrasset e nem uma única conversão!”. Morreu assassinado sem converter ninguém, mas fez “excelentes amigos entre [os tuaregues]”. Vai ser canonizado.

Três anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1948, Thomas Merton – talvez o monge trapista mais célebre dos nossos tempos – publicava a sua autobiografia “The Seven Storey Mountain”. Muitos soldados americanos que se tinham confrontado com o horror e a morte durante a guerra quiseram, depois de a ler, ser também eles trapistas. Tantos, ao que parece, que tiveram de ser construídos na altura vários novos mosteiros.

Thomas Merton não combateu, mas viveu também durante a sua vida o desespero, a falta de sentido e a dúvida. Na Abadia de Gethsemane, nos Estados Unidos, numa vida cheia mesmo só de silêncio, escreveu dezenas de livros que inspiraram a vida espiritual e contemplativa de muitos, e incontáveis cartas que o mantinham em contacto com o mundo e a vida intelectual para lá das paredes da abadia. Tão forte era o seu desejo de silêncio, que ao fim de longos anos conseguiu autorização para viver sozinho num pequeno eremitério nos terrenos da abadia.

Sozinho, mas não desligado do mundo e dos outros, escreveu também sobre paz, justiça social e religiões orientais, e também por isso o Papa Francisco o lembrou no seu discurso ao Congresso dos Estados Unidos em 2015 como “um homem de diálogo, um promotor da paz entre povos e religiões”.

Os diários de Merton, escritos no silêncio, estão cheios do seu deslumbramento com um pássaro pousado numa cerca, a neve, as árvores, as flores ou as nuvens no céu. De uma beleza simples são também as fotografias tiradas por si no seu eremitério, a um regador pousado num banco ou ao fundo de um cesto de verga, que delicadamente nos lembram que a beleza está em todo o lado, mas exige que paremos para reparar nela.

Num mundo cheio de barulho, o silêncio da Nossa Senhora do Atlas, de Gethsemane, do eremitério de Tamanrasset e agora do Palaçoulo ensina-nos um caminho de escuta, aberto à beleza. Das coisas e dos outros.

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