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Saúde mental

Estudo da Universidade de Coimbra permite deteção precoce de 'borderline' em adolescentes

16 nov, 2020 - 17:28 • Olímpia Mairos

Investigadores notam que a autoaversão e a autocompaixão são mecanismos centrais no desenvolvimento de traços borderline na adolescência. A deteção precoce da patologia “é essencial para prevenir o agravamento”, defendem.

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Uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra (UC) está a desenvolver o primeiro estudo em Portugal focado na adolescência, que tem como objetivos a deteção precoce da perturbação 'borderline' da personalidade (PBP), assim como a identificação de fatores de risco e protetores que permitam construir programas de intervenção eficazes para combater a patologia.

De acordo com o investigador, Diogo Carreiras, os resultados desta investigação podem constituir-se fundamentais para desenvolver programas dirigidos a esta população de risco, “permitindo encontrar orientações para o desenho de intervenções psicoterapêuticas no âmbito da prevenção e de estudos empíricos futuros”.

A perturbação 'borderline' da personalidade é uma perturbação grave associada a elevada tendência suicida, estimando-se que 2 a 6% da população mundial padeça desta perturbação marcada por uma intensa instabilidade emocional, impulsividade e autodano.

Sendo uma perturbação desenvolvimental, assinalam os investigadores, “não surge subitamente, pelo que se vai desenvolvendo ao longo do tempo. Daí que a deteção precoce seja essencial para prevenir o agravamento da patologia”.

“Na adolescência, conseguimos logo detetar traços disfuncionais desta patologia, que, com o avançar da idade, acabam por se cristalizar e intensificar, com consequências graves”, explica Diogo Carreiras, investigador principal do estudo, destacando que esta é a grande novidade do projeto, já que, “em vez de estudar esta perturbação severa numa ótica remediativa, ou seja, a pessoa já tem a perturbação, o nosso foco é atuar antes, para prevenir e impedir a perturbação”.

Raparigas apresentam traços mais elevados de 'borderline'

Os primeiros resultados do estudo, que envolveu 1.007 adolescentes (420 rapazes e 587 raparigas) de sete estabelecimentos de ensino básico e secundário do Centro e Norte de Portugal, com uma média de idades de 15.3 anos, e pais, sugerem que, em média, as raparigas adolescentes apresentam traços 'borderline' mais elevados do que os rapazes.

O estudo explorou também os fatores protetores e os fatores de risco no desenvolvimento e na evolução dos traços 'borderline'.

Segundo o investigador, foram estudadas “duas variáveis opostas: uma de risco, a autoaversão, caracterizada por uma relação de grande criticismo, aversão e de ataque ao ‘eu’ e uma variável protetora, a autocompaixão (relação de autocuidado), que se traduz na capacidade de sermos sensíveis ao nosso próprio sofrimento, reconhecendo-o, e de agir de forma genuína e comprometida no sentido de o aliviar”.

O investigador do Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC), clarifica que “independentemente do sexo, estas duas variáveis assumem um papel importante na evolução da sintomatologia 'borderline' na adolescência, mostrando assim que são variáveis essenciais a considerar na compreensão dos traços 'borderline' nesta faixa etária”.

Tendo em conta a falta de investigação dos traços 'borderline' na adolescência em Portugal, a equipa da Universidade de Coimbra desenvolveu “instrumentos de avaliação e sinalização destes traços, nomeadamente dois questionários de autorresposta, um para adolescentes e outro para os pais, e uma entrevista clínica para psicólogos, psiquiatras e pedopsiquiatras poderem administrar a adolescentes, com uma linguagem adaptada que traduz causas e mecanismos dos traços 'borderline'.”

O estudo conclui ainda que há diferenças entre raparigas e rapazes no que respeita a comportamentos autolesivos não suicidários.

“As raparigas tendem a usar mais métodos de cortes superficiais de determinadas áreas do corpo (por exemplo, braços, pulsos), enquanto os comportamentos autolesivos dos rapazes tendem a relacionar-se mais com bater neles próprios (por exemplo, darem murros), indica o investigador.

Já ao nível da impulsividade, não foram encontradas diferenças globais entre os sexos, embora os rapazes pareçam ter maior dificuldade em controlar comportamentos relacionados com o consumo de álcool e drogas.

O estudo, iniciado em 2018, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), insere-se num projeto mais amplo de investigação longitudinal, intitulado “Traços 'Borderline' na Adolescência: Estudo prospetivo do desenvolvimento da Perturbação 'Borderline' da Personalidade”, e faz parte da tese de doutoramento do investigador Diogo Carreiras, orientado pelas docentes Paula Castilho e Marina Cunha.

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