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Postal de Quarentena de Bucareste

“Um vírus pôs o mundo de joelhos. Quem teria imaginado?”

12 nov, 2020 - 06:50 • Francisc Dobos*

Com uma população ligeiramente abaixo dos 20 milhões, a Roménia já registou mais de oito mil mortos e perto de 325 mil casos. Neste postal um sacerdote católico em Bucareste sublinha a forma como a pandemia nos obrigou a pensar na nossa vulnerabilidade e critica os céticos que menosprezam a gravidade do problema.

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Nunca pensámos que iríamos viver tempos assim. Achávamos que tudo isto só era possível em tempos de cólera ou peste. Tínhamos quase a certeza de que bastava a tecnologia e as descobertas médicas para nos salvarmos. Mas um vírus obrigou o mundo a ajoelhar-se. Quem teria imaginado?

Eis-nos aqui, frágeis, muito frágeis. Ninguém tem a garantia de conseguir fintar os contactos sem ser infetado. Para além dos que ficaram doentes e de todos os que morreram, a maior parte das pessoas estão vivas, mas parece que já não têm presente nem futuro. Pelo menos parece. A economia está pelas ruas da amargura e demasiadas pessoas estão sem trabalho. E aí é onde está a maior parte das vítimas.

Acho que, no início, todos nós tratámos a pandemia com uma certa ligeireza. Pensávamos que iria ficar na China. Agora, pensamos nos amigos que adoeceram e nos conhecidos que morreram.

Precisamos de nos proteger até à descoberta de uma vacina. Para além das decisões das autoridades, às vezes discutíveis, para o bem ou para o mal, mais permissivas nalgumas áreas ou muito restritivas noutras, temos a obrigação de fazer a nossa parte, de nos protegermos.

Além da teoria da conspiração, da chamada ditadura sanitária que às vezes parece ser promovida por quem se aproveita do coronavírus para fazer negócios à custa dos nossos bolsos e medos, uma coisa é certa: o vírus existe e pode fazer muito mal, principalmente aos mais vulneráveis.

Acho que se cada um de nós se comportasse de uma forma mais prudente e mais atenciosa com os outros, como se fôssemos todos positivos assintomáticos, certamente teríamos um papel muito mais importante na prevenção da disseminação do vírus.

Dirijo-me também aos fiéis espiritualmente mais arrogantes, ou seja, àqueles que não acreditam na existência do vírus ou acham que tudo não passa de uma conspiração e uma manipulação. Conheci pessoas, leigos e padres, que acreditavam na mesma coisa. Alguns deles já não estão cá para contar a história. Quando verificaram, na própria pele, como esse vírus podia ser traiçoeiro, já era tarde demais.

Não tentemos Deus através da nossa arrogância espiritual. Amor significa também prevenção e cuidar da vida do nosso próximo. Deus vai salvar-nos dessa pandemia, mas não sem a nossa colaboração. Temos de nos envolver.


*Francisc Dobos tem 44 anos e é padre na arquidiocese católica de Bucareste, na Roménia, onde é responsável pela comunicação.

Comentários
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  • Ivo Pestana
    12 nov, 2020 Funchal 10:07
    Os cientistas chineses.
  • António J G Costa
    12 nov, 2020 Cacém 09:25
    Gosto muito de ler. Li ao longo da minha vida muitos livros sobre o séc XX. Sobre a pandemia que depois da I guerra, devastou de uma forma terrivel as nações, quase nada. Parece que se têm medo de escrever sobre essa pandemia. Medo. Descrições detalhadas sobre as batalhas da I grande guerra, a ascensão do nazismo, sobre a grande depressão dos anos 30, do séc XX: os livros e obras "atropelam-se". Todavia "...morreu, tanta gente. Em Beja os funerais sucediam-se. Mas, já ninguém ia assistir. Todas as famílias tinham mortes a lamentar..." palavras da minha mãe, citando pais e avós, sobre a pandemia de há 100 anos. Esta pandemia, matou mais de 150mil pessoas, numa população de 6,5 milhões, em Portugal (segundo estatísticas da época).