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Pandemia de Covid-19

Como a Europa está a reagir à 2.ª vaga da pandemia. Toca a recolher, mais e mais restrições

31 out, 2020 - 08:15 • João Carlos Malta

No dia em que o primeiro-ministro, António Costa, anuncia novas medidas restritivas ao país para tentar controlar a pandemia, a Renascença faz um apanhado das decisões tomadas noutros países da União Europeia e o contexto em que ocorrem. Neste momento, a tendência é restringir liberdades e apertar medidas.

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A segunda vaga da Covid-19 está a fazer subir a pique os casos diários e, por toda a Europa, os governos estão a anunciar medidas cada vez mais restritivas para os cidadãos. Portugal fica este sábado a conhecer o que lhe espera nos próximos tempos, e sabendo que algumas das medidas são, por vezes, decalcadas de outras já implementadas noutros países, a Renascença dá uma volta à Europa para perceber o que alguns dos Estados-membros estão a fazer.

A Europa registou, na semana passada, um total de 1.104.121 novos casos positivos de Covid-19, uma situação que a Comissão Europeia classificou na sexta-feira como “dramática”, destacando também o “aumento do número de mortes” nos últimos dias.

Ainda sem assumir confinamentos gerais, vários países (Espanha, Itália, França, Irlanda, por exemplo) já adotaram sistemas de recolher obrigatório. As restrições para o comércio e para a restauração são as mais comuns um pouco por toda a Europa.

Mas comecemos antes pela Bélgica e pela República Checa − dois países que pela dimensão melhor comparam com Portugal, mas que também são aqueles que, neste momento, apresentam as taxas mais elevadas de infeção por 100 mil habitantes no contexto da União Europeia.

Na República Checa, que no início da pandemia foi vista como exemplo a seguir por Portugal − por ter implementado precocemente o uso da máscara e imposto o confinamento −, tem agora uma média diária de mais de 11 mil casos, correspondentes a 1.449 casos por 100 mil habitantes.


MAPA DA EUROPA E O COVID-19

O caso é grave ao ponto de o primeiro-ministro checo, Andrej Babis, ter sentido a necessidade de pedir desculpa aos cidadãos pelo aumento de casos e pela implementação de novas medidas de restrição.

“Peço desculpa pelas novas restrições que afetarão a vida de empresários, cidadãos e trabalhadores. Peço também desculpa por ter descartado a possibilidade de isto acontecer, porque não imaginava”, disse. Pediu perdão cinco vezes nesta comunicação ao povo.

Entre as medidas mais emblemáticas, Babis anunciou:

  • encerramento de todas as escolas e ensino à distância com a exceção das creches, que se mantêm abertas;
  • fecho de todos os bares e restaurantes;
  • proibição da venda de álcool em locais públicos.
  • restrições aos movimentos, os checos ficam impedidos de sair à rua entre as 21h00 e as 5h00, com exceção das viagens de trabalho ou em negócios. Passear o cão, depois das 21h00, apenas num raio de 500 metros de casa.

Na economia, as lojas devem estar fechadas entre as 20h00 e as 5h00, e não abrem ao domingo. O teletrabalho deve ser a regra sempre que possível.

Vai ainda ser restringido qualquer evento desportivo, cultural ou religioso com mais de dez pessoas em interior ou 20 pessoas em exterior.

No início do mês tinham já sido encerrados ginásios, piscinas e jardins zoológicos. Passará ainda a ser necessário usar máscaras nos transportes públicos e nos veículos particulares quando se circular com pessoas com as quais não se coabita.

Só temos esta tentativa, por isso, tem de ter sucesso”, disse Babis sobre as medidas.

O governante checo tinha garantido que não decretaria um novo confinamento, mas, entretanto, já afirmou que faria se os peritos o recomendassem.

“Não há leis que vençam o vírus”, mas ainda assim...

Na Bélgica, que tem 11 milhões de habitantes, e que, neste momento, está quase com 11 mil infeções diárias, há um reforço das medidas de combate à pandemia. A seguir à República Checa, é o segundo país com mais casos por 100 mil habitantes.

Para isso, reduziram a presença de estudantes nas universidades e fecharam ao público as competições desportivas.

Esta sexta-feira, as autoridades belgas anunciaram restrições mais severas aos movimentos sociais, mas não o confinamento total.

Foi decretado o encerramento, por um período de seis semanas, de negócios como cabeleireiros e lojas que fornecem serviços que não são considerados essenciais. As férias escolares de novembro foram alargadas por mais uma semana.

“Estamos a caminhar no sentido de um confinamento reforçado com um único objetivo: evitar que os serviços de saúde quebrem debaixo de uma pressão que hoje já é enorme”, disse o primeiro-ministro Alexander de Croo, ao anunciar o que apelidou de “medidas de último recurso”.

Alexander de Croo, que admite que não há leis que vençam o vírus, apela à responsabilidade individual e aos comportamentos coletivos dos cidadãos.

No caso dos eventos culturais, religiosos, associativos e educativos, é permitido um máximo de 40 pessoas, mas se o espaço permitir que se cumpra a regra de 1,5 metros de distanciamento físico, podem chegar a um máximo de 200 pessoas, mantendo-se a obrigatoriedade do uso de máscara.

A oferta de transportes públicos foi reforçada, para minimizar os ajuntamentos.

Estas medidas acrescem às adotadas há uma semana, como o recolher obrigatório entre a meia-noite e as 5h00 e o encerramento de restaurantes, bares e cafés.

Recolher obrigatório em Espanha, e mais autonomia para as regiões

Olhemos agora para a vizinha Espanha, em que, no final desta semana, a Catalunha anunciou o encerramento das suas fronteiras para tentar travar a propagação da pandemia. A restrição naquela província vai estar em vigor durante, pelo menos, duas semanas.

A Catalunha é, nesta altura, um dos “pontos quentes” da pandemia de Covid-19 em Espanha. O governo da Catalunha também decidiu encerrar bares e restaurantes durante 15 dias.

Ao mesmo tempo, a circulação entre municípios fica proibida aos fins de semana, durante o mesmo período de 15 dias.

Sete meses depois do primeiro, Espanha aprovou esta semana um novo estado de emergência até maio de 2021.

A decisão estabelece um recolher noturno obrigatório, entre as 23h00 e as 6h00, em toda a Espanha. Para além disto, as reuniões sociais passam a ser restritas e as deslocações entre comunidades autónomas passam a ser proibidas, salvo em casos justificados.

A aplicação das medidas do novo estado de emergência recai sobre os presidentes autónomos das regiões, que terão margem para adiantar ou atrasar uma hora no horário imposto para o recolher obrigatório noturno.

França fecha-se

Viajando até a centro da Europa, a França a partir de sexta-feira fechou a restauração, incluindo bares, e passa a ser proibido circular entre regiões.

Só trabalhadores essenciais ou aqueles que não podem trabalhar a partir de casa é que poderão sair à rua, sendo ainda possível sair para ir às lojas, mas apenas para comprar bens essenciais, ao médico ou para passeios e exercício de uma hora no máximo.

As escolas, contudo, continuarão em funcionamento sendo que às universidades aplica-se a generalização do ensino online.

“O vírus está a propagar-se a um ritmo que nem as mais pessimistas previsões anteviram. Tal como os nossos vizinhos, fomos submergidos pela repentina aceleração do vírus”, afirmou o Presidente da República, Emmanuel Macron no discurso em que apresentou aos franceses as novas restrições.

As medidas entram em vigor no final desta semana e duram pelo menos até ao dia 1 de dezembro, mas Macron já avisou que apenas serão aliviadas quando o nível de novas infeções regressar a cerca de 5.000 por dia. Atualmente, a média diária naquele país é superior a 31 mil.


DADOS DOS PAÍSES EUROPEUS

Alemanha também limita a vida social

Ali ao lado, a poderosa Alemanha também vai impor um confinamento de emergência. O país tem mais de 15 mil casos diários.

A decisão foi tomada esta semana por Angela Merkel, depois de o Governo central e líderes regionais terem chegado a acordo para tomar medidas de nível nacional face à sobrelotação dos hospitais.

As medidas precisas estão ainda a ser negociadas, mas deverão implicar o encerramento de bares e restaurantes. "São medidas duras", reconheceu Merkel aos jornalistas.

A Alemanha tenta evitar um confinamento generalizado, mantendo escolas e creches abertas, mas também alguns estabelecimentos comerciais vão continuar de portas abertas "enquanto for possível", afirmou a chanceler alemã.

Outras medidas como o encerramento de ginásios, teatros e limites à socialização fora de casa estão ainda em cima da mesa.

As novas restrições devem durar pelo menos um mês, vão ser revistas de 15 em 15 dias.

Em Itália, país que foi um dos principais focos da Covid-19 na Europa durante a primeira vaga, o primeiro-ministro, Giuseppe Conte, assinou um novo decreto, há uma semana, que impõe o encerramento de piscinas, ginásios, teatros e cinemas. Isto numa tentativa de conter os contágios que dispararam no país, mais de 14 mil por dia.

A medida agora anunciada determina ainda o encerramento às 18h00 dos bares e restaurantes.

Após horas de negociação com as regiões italianas que pretendiam ajudas para os proprietários de bares e restaurantes, foi assinado esse novo decreto em vigor entre 26 de outubro e o dia 24 de novembro.

No passado paradigma

Por fim, um olhar para os países nórdicos, onde a Suécia é vista por muitos como o paradigma a seguir no ataque a doença. Com um crescimento maior do que os vizinhos, a Suécia decide a partir de amanhã, domingo, impor novas restrições ao funcionamento de restaurantes e de espaços de diversão noturna devido ao aumento de casos de Covid-19 no país.

De acordo com o chefe da Agência de Saúde Pública sueca, Johan Carlson, as novas restrições para o setor da restauração impõem um limite máximo de oito pessoas por mesa.

O primeiro-ministro sueco reforçou que as novas restrições também se aplicam aos espaços de diversão noturna (bares, discotecas), frisando que estes estabelecimentos não têm seguido os padrões recomendados para lidar com a pandemia.

Os eventos públicos podem atingir uma capacidade até 300 pessoas, mas só se envolverem público sentado e se a regra de um metro de distanciamento físico estiver garantida.

Considerada por alguns como polémica, a Suécia adotou uma estratégia contra o novo coronavírus classificada como suave quando comparada com outros países nórdicos e europeus (manteve abertas, por exemplo, escolas, jardins, restaurantes, bares e outros serviços), registando uma taxa de mortalidade muito superior face aos seus países vizinhos.

Na quinta feira foi noticiado que três novas regiões na Suécia - Estocolmo, Västra Götaland e Östergötland - estão a implementar recomendações mais precisas sobre o coronavírus em meio a um aumento nas infeções.

Estas regiões pedem aos cidadãos que evitem estar em ambientes fechados como lojas, centros comerciais, museus, bibliotecas, piscinas e academias. As idas necessárias a, por exemplo, supermercados e farmácias são permitidas.

As autoridades aconselham a população a abster-se de assistir, por exemplo, a reuniões, concertos, espetáculos, treinos desportivos, jogos e competições.

Finlândia em contraciclo

Em sentido contrário, e como caso quase único na Europa, o governo da Finlândia anunciou, no final da semana, que diminuirá as restrições ao horário de funcionamento de restaurantes.

Ainda assim, manteve regras mais rígidas para bares e casas noturnas.

Isto porque, em contraciclo, a pandemia de Covid-19 mostrou sinais de desaceleração no país nórdico.

"Graças ao comportamento responsável das pessoas e às medidas que tomamos, a situação da Finlândia tem sido uma das melhores da Europa", disse aos repórteres Krista Kiuru, a ministra responsável pela resposta ao coronavírus da Finlândia.

As novas regras, que entrarão em vigor amanhã, permitirão que os restaurantes que servem principalmente comida fiquem abertos como quiserem, exceto nas regiões com mais casos de vírus, enquanto os bares e boates terão que interromper a venda de bebidas alcoólicas às 22h00.

Na manhã de quinta-feira, as autoridades de saúde finlandesas disseram que o aumento anterior no número de novos casos de Covid-19 estabilizou e os números pareciam estar a diminuir ligeiramente.

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  • Ivo Pestana
    31 out, 2020 Funchal 11:50
    Tem que ser, infelizmente. Mas os Checos celebraram o fim da Covid-19 em Julho, na cidade de Praga, com um banquete à população. Enfim...

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