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Setúbal

Homenagem a D. Manuel Martins, “um bispo no meio do povo”

27 out, 2020 - 12:20 • Rosário Silva

No dia em que se fez bispo de Setúbal, mas 45 anos depois, a cidade e a diocese prestaram homenagem a D. Manuel Martins, com a inauguração de uma estátua no Largo de Santa Maria, em frente à Sé, onde foi ordenado a 26 de outubro de 1975.

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A cidade de Setúbal prestou esta terça-feira homenagem ao bispo D. Manuel Martins.

A iniciativa partiu da câmara municipal de Setúbal, à qual se juntou a diocese, com o atual bispo, D. José Ornelas, a presidir a uma missa de Ação de Graças para assinalar os 45 anos da ordenação daquele que foi o primeiro bispo de Setúbal, num tempo de grandes mudanças.

“Estávamos nos anos 70 e as coisas estavam a mudar, tinha-se asas para voar, tinha-se coragem de investir, havia um compromisso e vontade de participar nessa mudança”, lembrou, durante a eucaristia a que presidiu, o bispo de Setúbal.

“Esta celebração com inauguração da estátua, representa a gratidão e a vontade da cidade em conservar a memória, não apenas como seu primeiro bispo, mas igualmente como alguém que encarnou e contribuiu para forjar a rica identidade desta cidade e do seu povo”, afirmou, D. José Ornelas.

Presente na memória coletiva, D. Manuel Martins fez do povo, a sua causa, tendo mesmo sido apelidado de “bispo vermelho”, ao denunciar a pobreza e a fome que atingiram a Península de Setúbal, num período muito difícil da sua história.

“Ele foi fiel a Deus e, especialmente, ao seu povo, aos pobres de pão, de educação, de carinho, de vida, aos cativos, aos cegos que não olham para Deus, nem para os que clamam e gritam na sua dor, aos oprimidos, feridos de miséria, de exclusão, de falta de dignidade e de esperança”, destacou, na homilia, o também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

“Para todos eles, foi proximidade, voz e anúncio de uma oportunidade e de um tempo melhor, sob o olhar misericordioso de Deus, e de um relacionamento de justiça e humanização neste mundo”, acrescentou.

Pedagogo e humanista, D. Manuel Martins foi “um bispo no meio do povo”, por isso o município e a diocese decidiram colocar a estátua no largo, frente à Sé, um espaço simbólico de encontro, a lembrar que o primeiro bispo de Setúbal, não ficou fechado dentro da Igreja.

“Foi aqui que encontrou inspiração e força para sair para a cidade, com olhos e ouvidos atentos, para estabelecer laços novos, acolher o desconhecido, o emigrante e o diferente, e cuidar, especialmente, dos que mais precisam de uma mão estendida”, sublinhou D. José Ornelas.

Ainda durante a homilia, “neste tempo de pandemia”, o atual bispo pediu que a celebração fosse aproveitada para “num esforço identitário”, se continue “a lutar contra as dificuldades”, numa região marcada “ciclicamente por crises”, e que jamais “se conforme com a pobreza, a miséria, a exclusão de ninguém, nem de nenhum grupo.”

“Um homem generoso, sempre disponível para ajudar os que mais precisavam”

Depois da eucaristia, foi inaugurada a estátua de bronze, da autoria da escultora Maria José Nunes Brito. Há dois anos, por iniciativa do município, já tinha sido inaugurado na cidade um largo com o nome de D. Manuel Martins. Agora, a cidade conta também com uma peça escultórica, com perto de dois metros de altura e assente no chão, que mostra D. Manuel Martins de braços abertos e defronte para as ruas.

“Foi naquelas ruas que podem parecer periféricas, de bairros que alguns pensam não ser importantes, que ele se movimentou. Foi naquelas zonas distantes do centro e dos poderes, distantes da vista, que ele mais se fez e que foi o homem que hoje recordamos”, salientou a presidente da câmara municipal de Setúbal, na inauguração.

A autarca recordou ainda o antigo bispo como “um homem generoso, sempre disponível para ajudar os que mais precisavam e que, naquelas aparentemente distantes ruas, mais esquecidos estavam”.

Maria das Dores Meira fez ainda questão de agradecer ao “bispo vermelho”, como D. Manuel Martins era apelidado, “sinónimo da luta contra as desigualdades, a miséria e o capitalismo”, por tudo aquilo que fez por Setúbal e os valores e o legado que deixou na cidade, após o seu falecimento em 2017.

A mesma cidade “que recordará sempre o trabalho por ele feito num período complexo” e que lembrará sempre o seu entusiasmo quando aqui chegou e, perante todos, quis assumir ser um dos que trabalham e lutam para que o homem seja mais homem, numa sociedade mais justa”, como o próprio escreveu naqueles tempos.

Além da presidente da autarquia, Maria da Dores Meira e do bispo de Setúbal, D. José Ornelas, marcaram presença nas cerimónias, o bispo auxiliar de Lisboa, D. Américo Aguiar e o secretário de Estado Adjunto e da Educação, João Costa.

“Nasci bispo em Setúbal, agora sou de Setúbal”

Proveniente da diocese do Porto, D. Manuel da Silva Martins nasceu em Leça do Balio, a 20 de janeiro de 1927, onde também faleceu aos 90 anos de idade, a 24 de setembro de 2017.

Depois de receber formação nos seminários do Porto, foi ordenado sacerdote em 1951, tendo estudado, posteriormente, Direito Canónico em Roma, na Universidade Gregoriana. Foi pároco de Cedofeita, no Porto, entre 1960 e 1969, quando foi nomeado vigário-geral da diocese nortenha.

Foi nomeado como bispo para a recém-criada diocese de Setúbal a 16 de julho de 1975, ano em que iniciou o seu ministério episcopal, a 26 de outubro. Da ocasião, ficam as suas palavras, recordadas 45 anos depois: “Nasci Bispo em Setúbal, agora sou de Setúbal. Aqui anunciarei o Evangelho da libertação, na justiça e no amor. Aqui proclamarei o Cristo vivo – que veio e está no meio de nós – o único que pode alicerçar na fraternidade, a sociedade justa que é a aspiração angustiante de todos nós.”

D. Manuel Martins resignou em 1998. O bispo emérito de Setúbal foi agraciado com a grã-cruz da Ordem de Cristo, durante as comemorações do 10 de junho de 2007, em Setúbal, e com o galardão dos Direitos Humanos da Assembleia da República, a 10 de dezembro de 2008.

Na Conferência Episcopal Portuguesa D. Manuel Martins foi presidente da Comissão Episcopal da Ação Social e Caritativa e da Comissão Episcopal das Migrações e Turismo, tendo sido também presidente da Secção Portuguesa da Pax Christi e da Fundação SPES.

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  • Ivo Pestana
    27 out, 2020 Funchal 13:00
    Que seja um exemplo para todo o Clero. Pôr a vontade Divina à frente e não ideias pessoais. O melhor exemplo foi a vida de Jesus. Jesus chegou a Jerusalém montado num jumentinho, eu sei dum sacerdote que chega à paróquia num veiculo de 40 ou 50 mil euros, e só usa artigos de marca. Não gosto!!! Saúde para todos.