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Entrevista ao treinador de Lance Stroll

Fórmula 1.“Hoje em dia, a capacidade do piloto é menos importante do que o monolugar”

24 out, 2020 - 10:00 • Eduardo Soares da Silva

Lance Stroll é uma das surpresas da temporada da Fórmula 1 e é treinado por um português. Para Nuno Pinto, Lance Stroll tem de ser visto cada vez menos como um piloto pagante e destaca os resultados impressionantes para um “jovem piloto de 21 anos”.

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Nuno Pinto é treinador de Lance Stroll, piloto da Racing Point, e acredita que na Fórmula 1 da atualidade, a potência do carro é mais importante do que a capacidade o talento dos pilotos.

Em entrevista à Renascença, o “coach” de pilotos acredita que Lewis Hamilton, campeão do mundo, não venceria corridas num carro da Williams, mas um piloto da Williams venceria ao volante de um Mercedes.

Lance Stroll é filho de Lawarance Stroll, principal investidor da equipa, e é, por isso, considerado, por muitos, um piloto pagante, que compra o seu lugar na Fórmula 1.

Nuno Pinto acredita que a capacidade e os resultados do jovem piloto canadiano estão à vista de todos e que o público deve reconhecer o mérito a Stroll, que falhou a última corrida da época por estar infetado com Covid-19.

Ao longo da carreira enquanto treinador, Nuno Pinto já trabalhou com grande parte dos pilotos e promessas que hoje integram a grelha da Fórmula 1, como Ocon (Renault), Verstappen (Red Bull), Gasly (Alpha Tauri), Giovinazzi (Alfa Romeo), Leclerc (Ferrari), entre outros.

Pode descrever em que consiste a sua função enquanto “coach” de pilotos?

Ser "coach" é, basicamente, ser o treinador deles, como existe noutras modalidades. O principal objetivo é treinar, aconselhar e guiar da melhor maneira, passar a experiência de vários anos de competição como piloto, e também, nesta função, tentar que os pilotos melhorem a sua performance.

Trabalhamos a parte técnica de pilotagem, a parte física, de gestão do fim de semana, da relação com imprensa e patrocinadores, da equipa, na preparação alimentar e no apoio psicológico que alguns pilotos precisam. No fundo, ajudamos o desenvolvimento de jovens pilotos.

Com que pilotos trabalha atualmente e com quais já trabalhou no passado? Quais se destacaram mais?

Em 2020 trabalho exclusivamente com o Lance Stroll, mas a empresa que criei com o meu sócio, a WinWay, acompanha mais pilotos. Temos dois na Fórmula 2 atualmente, o indiano Jehan Daruvala e o indonésio Sean Gelael.

Também fazemos a gestão de carreira de vários pilotos, como o Robin Frijns, na Fórmula E, e acompanhamos outros que dão agora os primeiros passos.

A WinWay fez apoio a várias equipas, mas a maior ligação foi com a Prema, com quem estive nos últimos dez anos. É uma equipa de referência na Fórmula 4, 3 e 2, por onde passaram quase metade dos pilotos da Fórmula 1 atual.

Os melhores exemplos são Lance, Ocon, Leclerc, Gasly, Giovinazzi e muitos outros, como o Russell, que testou connosco, o Latifi, o Lando Norris e o Leclerc também. Em termos de talento não nos podemos esquecer da Florida Winter Series, um torneio que organizamos, com um mês a preparar pilotos na Florida. Estiveram o Lance, o Verstappen e o Latifi. Foi um momento muito especial.

O Ocon é uma referência, foi campeão em 2014 como “rookie” na Fórmula 3, é um dos que mais me impressionou, como o Verstappen. Muito novo e já tinha uma forma de pilotar espetacular.

O Lance Stroll igual, primeira vez num Fórmula 4 e fez logo grandes treinos. Viu-se que havia talento para chegar à Fórmula 1 e vencer títulos. Não posso deixar de referir o Leclerc e o Lando Norris, que ou só testaram connosco ou foram nossos adversários, mas que têm talento acima da média.

O que define um bom piloto? Hoje em dia, dá-se cada vez mais importância ao carro e menos à capacidade do piloto. Concorda?

As características de um piloto são variadas, uns são melhores num aspeto e outros noutro. Rapidez e velocidade natural é a melhor capacidade, mas é uma mistura com talento natural, liderança, comunicação, capacidade de motivar toda a gente à sua volta, dar sempre 100% num teste de pré-época e numa qualificação, para além de capacidade de trabalho e aprendizagem.

Os grandes pilotos nunca são muito humildes, mas têm de ter capacidade de melhorarem. É preciso arrogância de campeão, autoconfiança nas suas capacidades. E é preciso paixão pelo desporto.

É verdade que hoje em dia, na Fórmula 1, a capacidade do piloto é menos importante do que o monolugar que dispõe. Na brincadeira dizemos que se o Hamilton estivesse na Williams, Haas ou Alfa Romeo, não ganharia corridas.

Se algum dos pilotos destas equipas estivesse num Mercedes, acho que ganharia corridas. Mas seriam campeões? Isso já é mais difícil. Apesar das diferenças na competitividade dos monolugares, os grandes campeões ainda conseguem fazer um pouco a diferença, mas não há dúvida que o carro é o mais importante hoje em dia.

A pandemia da Covid-19 implicou mudanças na preparação dos pilotos?

Não implicou mais trabalho na preparação. Foi feita da mesma forma, o que mudou foi a rotina de prova e todas as limitações entre corridas. É preciso manter a bolha e reduzir o grupo mais próximo a um número muito limitado de pessoas para se controlar o vírus.

O Stroll é visto por muitos como um piloto que só tem lugar na Fórmula 1 por causa do investimento do pai nas suas equipas. Acha que os resultados provam diferente?

O Stroll pode ser considerado um piloto pagante para o público geral, mas, para mim, isso é uma não-questão. Chegou à Fórmula 1 conseguindo os 40 pontos para a superlicença, e não os conseguiu ao acumular quartos e quintos lugares nos campeonatos.

Foi campeão em todos os campeonatos que disputou: Fórmula 4, Fórmula 3 europeia e Toyota Racing Series. Chegou à Fórmula 1 com todo o mérito e chegou com um currículo superior ao de Max Verstappen e ninguém considera que ele não deveria estar na Fórmula 1.

Atualmente é importante ter bom conjunto de patrocinadores e apoio financeiro, mas é preciso ter-se resultados para ter a licença. Todos os pilotos que estão na Fórmula 1 estão por inteiro mérito.

Mas vejamos, ele tem 21 anos e já tem dois pódios, um deles na Williams que não era nada competitiva. Tem vários quartos lugares e várias vezes nos pontos. Como “rookie”, esteve à frente do Felipe Massa até à última corrida.

Se olharmos para os números objetivamente e esquecermos os “fait-divers” de vir de famílias abastadas, ou não, é óbvio. Mostrou que na chuva é muito rápido, comete muito poucos erros, ganha muitas posições no arranque. Tem 21 anos e grande margem de progressão. Não é apenas e só um piloto pagante, como muitos querem fazer parecer.

O Stroll anunciou que teve Covid-19 depois do último Grande Prémio, onde não marcou presença por não se sentir bem. Foi difícil não estar presente?

Teve a infelicidade, como muitos outros atletas de eleição, de ser contagiado pela Covid-19. Não era claro durante Nurburgring, teve sintomas ligeiros que o impediram de correr.

Foi a decisão certa porque um piloto tem de estar ao seu melhor nível e não era o caso. Foi muito difícil falhar um Grande Prémio, até porque está em boa posição no campeonato. Testou positivo e foi melhor sair do “paddock” o mais rápido possível.

Nem chegou a entrar no sábado, evitou-se risco de contágio. Tomaram-se todos os cuidados, mesmo quem testa negativo, porque somos testados todos os dias. Foi duro faltar, mas é parte do mundo atual. Sintomas não foram graves e está totalmente recuperado para ter um grande final de época.

Uma volta ao volante de um Fórmula 1 no circuito de Portimão
Uma volta ao volante de um Fórmula 1 no circuito de Portimão
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