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​Cardeal Tolentino Mendonça: Cidades não podem continuar a ser ilhas

23 out, 2020 - 19:08 • Teresa Paula Costa

Em congresso promovido pela candidatura de Leiria a Cidade Europeia da Cultura 2027, arquivista da Santa Sé aponta os desafios que se colocam às cidades.

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O cardeal José Tolentino Mendonça alertou esta sexta-feira para a importância da hospitalidade nas cidades, numa intervenção denominada "O Futuro da nossa cidade" que fez esta sexta-feira em Leiria, no âmbito do Congresso da Rede Cultura 2027.

Elencando os cinco desafios que se colocam às cidades, o arquivista da Santa Sé disse que “redescobrir o sentido do bem comum como a sua raiz fundamental” é o primeiro desafio, pois o bem comum é “a condição preliminar para o progresso económico, social ou cultural de uma cidade” já que “obriga ao respeito pela dignidade da pessoa humana e pelo reconhecimento dos seus direitos e deveres”.

O segundo desafio é “redescobrir a comunidade” como “núcleo axial da cidade”. Lamentando que, atualmente, as cidades funcionem “como ilhas, onde estamos de costas voltadas uns para os outros”, D. Tolentino Mendonça defendeu que “ou a cidade se imagina como um espaço de hospitalidade, de integração social e cultural, lugar de encontro entre diversidades que entram em contacto e dão vida a um processo contínuo de conhecimento e diálogo ou a cidade tornar-se-á sempre mais um fator de insularização, solidão e descarte”.

“A cidade do futuro poderá ter tantos dos seus serviços informatizados e recorrer massivamente ao digital”, mas “não poderá é deixar de colocar a comunidade presencial no centro da sua atenção”, acrescentou.

O papel decisivo da cultura

“Redescobrir a sustentabilidade cultural” é o terceiro desafio que se coloca às cidades. Considerando que o papel da cultura “é decisivo para a coesão do território e para a prosperidade das nossas sociedades”, o cardeal vai mais longe, defendendo que “a cultura é o grande observatório do humano, o principal espelho das aspirações e conflitos de cada época (...) e a bússola, ou, como hoje se diria, o GPS para navegar no emaranhado do presente e é, ao mesmo tempo, a primeira antena dos sinais do futuro”.

O quarto desafio apontado por D. Tolentino Mendonça é “redescobrir a sustentabilidade ecológica”.

Segundo o cardeal, “a terrível pandemia que estamos a viver vem por a nu as nossas opções, mostrando como elas nos tornaram vulneráveis”.


Começando por ser enfrentada como “um assunto sanitário”, a pandemia “reclama que a interpretemos “como uma encruzilhada civilizacional”, pelo que se “tornou urgente a consciência de proteger a nossa casa comum, associando a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral”.

É ainda necessário encetar um projeto cultural “assente numa ética de responsabilidade, solidariedade, cuidado e compaixão” que resulte numa “cidadania ecológica”.

Por fim, apontou, a “redescoberta da fraternidade e da amizade social” como o quinto desafio às cidades. Baseando-se na recente encíclica do Papa “Fratelli Tutti”, o arquivista e bibliotecário da Santa Sé concluiu que “construir uma cidade não é só construir uma cidade, pois não é possível pensá-la como tarefa solitária, tudo está ligado e nós também, estamos todos ligados”.

Leiria candidata a Capital Europeia da Cultura

O Congresso “O futuro da nossa cidade”, que termina este sábado em Leiria, foi promovido pela organização da candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura 2027.

Uma candidatura que abrange uma área de seis mil quilómetros quadrados de extensão e que vai desde Sobral de Monte Agraço, no distrito de Lisboa, até Castanheira de Pêra, unindo ainda o litoral da Nazaré às serranias de Tomar. Uma área que integra 25 municípios de três Comunidades Intermunicipais – de Leiria, do Oeste e do Médio Tejo – e onde vivem mais de 800 mil pessoas.

Candidatura de Leiria é “exemplar”

Por integrar vários municípios, ao contrário das restantes candidaturas existentes no território nacional, a de Leiria foi considerada “exemplar” pela ministra da Coesão Territorial.

Presente no Congresso, Ana Abrunhosa referiu aos jornalistas que “é uma candidatura forte porque integra diversidade em objetivos comuns de um território e não só de uma cidade”.

Enaltecendo que a área abrange “um território que é próspero, como Leiria”, mas que também integra “territórios menos prósperos”, a Ministra salientou que “a coesão significa que todos beneficiamos e eu não vejo melhor exemplo do que este trabalho em conjunto”.

A candidatura é liderada pelo município de Leiria ao qual se juntaram os municípios de Alcanena, Alcobaça, Alenquer, Alvaiázere, Ansião, Arruda dos Vinhos, Batalha, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Lourinhã, Marinha grande, Nazaré, Óbidos, Ourém, Pedrógão Grande, Peniche, Pombal, Porto de Mós, Sobral de Monte Agraço, Torres Novas e Torres Vedras, que constituíram a “Rede Cultura 2027”.

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