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Presidenciais EUA

Um debate “calmo”. Trump diz que é o Presidente "menos racista" desde Lincoln, Biden alerta para “inverno escuro” devido à pandemia

23 out, 2020 - 01:59 • Fábio Monteiro

Depois do “pior debate da história”, Donald Trump e Joe Biden digladiaram-se esta sexta-feira quase de forma cordial. Republicano mudou de estratégia de comunicação, tentou colar Biden a negócios do filho na Ucrânia, mas falhou na empatia: a culpa das mortes devido à Covid-19 “é da China”, crianças separadas dos pais foram trazidas por “coiotes” e “cartéis”, disse. Já o ex-vice de Obama falou sempre para “todos os americanos”, não cometeu grandes gaffes e acusou Trump de ser o presidente “mais racista da história moderna”. Eleições estão marcadas para 3 de novembro

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Quem antecipava uma nova sessão de pugilismo verbal, enganou-se. No último debate das eleições presidenciais dos EUA, Donald Trump mudou a estratégia de comunicação de forma radical, não interrompendo consecutivamente Joe Biden, e foi possível ouvir respostas completas. Mérito da moderadora Kristen Welker, jornalista da NBC News, que foi muito elogiada – por comentadores de ambos os partidos políticos, nas redes sociais - pela forma como tomou as rédeas do encontro, mas também efeito do silenciar por dois minutos dos microfones dos candidatos nas primeiras respostas a cada tema.

Welker singrou onde Chris Wallace, da Fox News, falhou, e não apareceu de alguma forma coibida por Trump, apesar de o presidente norte-americano ter afirmado, ainda esta semana, que a jornalista era “uma pessoa muito tendenciosa”.

Com um registo cordial – a princípio – e mais vivo, mas não caótico, para o final, o debate realizado na Universidade de Belmont, em Nashville, no estado do Tennessee, teve a sua dose de afirmações polémicas – e todas vindas da parte de Donald Trump. Biden não esteve brilhante, tropeçou duas ou três vezes no seu próprio raciocínio. Ainda assim, soube sempre recompor-se.

Ambos os candidatos entraram em palco com estratégias delineadas: Trump a deixar falar Biden, já que mesmo o seu eleitorado detestou a sua performance a 30 de setembro; Biden a falar diretamente para os espetadores em casa, com vários momentos que se assemelharam mais a discursos de campanha que debate.

Eis o resumo:

Covid-19. “A culpa é da China”

Logo no princípio do debate, Trump lançou uma “bomba oca”: muito em breve, os EUA terão uma vacina para o novo coronavírus, que será distribuída de forma célere pelos militares, garantiu. “Temos uma vacina a caminho. Está pronta. Vai ser anunciada nas próximas semanas.”

Welker foi apanhada de surpresa com esta afirmação, por isso questionou o candidato republicano se essa afirmação era mesmo uma garantia. “Não, não é uma garantia, mas acho que estará pronto perto do final do ano.”

A pandemia da Covid-19 já tirou a vida de mais de 220 mil cidadãos norte-americanos, mas, para as famílias de luto, Trump não guardou nenhumas palavras ou assumiu responsabilidade.

No seu habitual registo de contorcionismo factual, Trump chegou mesmo a afirmar: “Assumo total responsabilidade. Não tenho culpa que tenha vindo para é cá [EUA]. A culpa é da China.”

A pandemia é um “problema mundial” e “está a ir embora”, reiterou, apesar de os dados da Organização Mundial de Saúde indicarem precisamente o contrário e múltiplos países estarem agora a enfrentar uma segunda vaga do novo coronavírus ainda mais letal que a da primavera.

Segundo Biden, quem não assume responsabilidades “não deve continuar a ser presidente” e que “nenhum cientista sério dirá que a pandemia irá estar controlada até ao final no ano”. “Este é o mesmo tipo que vos [aos americanos] disse que a já teria desaparecido pela altura da Páscoa”, lembrou.

Trump, que esteve infetado com a Covid-19, acusou o candidato democrata de estar a “viver numa cave” para evitar apanhar o vírus e que os americanos não se podem dar a esse luxo. Defendeu também que era preciso reabrir negócios, de modo a preservar a economia, e afirmou que as pessoas “estão a aprender a viver com o vírus”.

O contra-ataque de Biden – um dos melhores da noite – não se fez esperar: “As pessoas estão a aprender a morrer com a pandemia. Viver com ela? Vá lá. Nós estamos a morrer com ela.”

O democrata avisou ainda: "Estamos prestes a entrar num inverno escuro [devido à pandemia] e ele não tem um plano claro.”

“Bidencare”

Sem pudores ou meias palavras, Donald Trump confessou, no debate presidencial, que gostaria de anular o Obamacare, medida que dá cobertura de cuidados de saúde a cerca de 20 milhões de cidadãos nos EUA, e substituí-lo por “um novo e belo plano de saúde”. “O Obamacare não é bom. Gostávamos de o anular”, disse.

Recorde-se: a administração Trump apoia um processo judicial que está, neste momento, nas mãos do Supremo Tribunal dos EUA e que pode vir a desmantelar o Obamacare. Tendo em conta que a maioria dos juízes neste órgão é conservadora, é provável que, caso seja reeleito, a anulação venha mesmo a acontecer.

No mesmo segmento de questões, Joe Biden prometeu que, caso seja eleito, iria instituir um novo plano intitulado “Bidencare”. “Cuidados de saúde não são um privilégio, são um direito”, disse.

Trump acusou Biden de ter um plano socialista para a saúde, tentando-o colar à ideia defendida por Bernie Sanders e Elizabeth Warren de um sistema de saúde gratuito.

“Este é um tipo muito confuso. Ele não sabe contra quem está a competir. Ele está a competir contra Joe Biden, não todas as pessoas que venci”, ripostou o democrata – o que lhe pode ter custado alguns votos junto do eleitorado mais jovem do Partido Democrata.

Imigração. Crianças separadas dos pais “estão a ser bem tratadas”

O tema da imigração fez soltar faíscas em Nashville, em particular devido às 545 crianças, filhas de imigrantes que entraram nos EUA de forma ilegal e que foram separadas dos pais, e que, agora, ninguém consegue encontrar os progenitores, conforme noticiou o “The New York Times” esta semana.

Nas palavras de Trump, estas crianças foram trazidas para os EUA por “cartéis”, “gangues”, “coiotes” e “más pessoas”. O facto de terem sido separadas dos pais não causou qualquer comoção ao candidato republicano. Aliás, de forma algo displicente, afirmou que as instalações onde estão retidas “são muito limpas” e que “estão a ser bem tratadas”, quando há relatos e fotografias destas estarem presas em jaulas.

Visivelmente consternado com o tema, Joe Biden não hesitou em dizer que a separação das crianças dos pais era um ato “criminoso.

O presidente menos racista “desde Lincoln”

No tópico do racismo, Trump e Biden estão em barricadas muito diferentes. Se o candidato democrata assumiu que “existe racismo estrutural nos EUA”, o incumbente republicano autoabsolveu-se ainda antes de ser acusado de cometer esse crime. “À exceção de Abraham Lincoln, ninguém fez mais pela comunidade negra que Donald Trump”, disse.

Com ironia, Biden respondeu. “O Abraham Lincoln aqui é um dos presidentes mais racista da história americana.” “Ele injeta combustível em todos os fogos racistas”, acusou, lembrando ainda que, em 2016, quando começou a sua campanha, Trump chamou os mexicanos de “violadores”.

A cartada Hunter Biden

Hunter Biden, filho do candidato democrata, foi um dos nomes que Trump atirou para o meio de debate presidencial – o que era esperado, já que, nas últimas semanas, tem sido uma das pedras de toque para minar o seu adversário.

Trump tem afirmado – inúmeras vezes – que Biden ajudou o filho, agilizando negócios na China e Ucrânia enquanto foi vice-presidente de Obama, a enriquecer. Refira-se: segundo o “The New York Times”, muitas das alegações de Trump são “falsas e questionáveis”.

De acordo com Trump, Biden terá feito com que um promotor ucraniano fosse destituído do cargo para evitar que a companhia de gás ucraniana Burisma fosse processada por corrupção, porque o filho fazia parte do conselho de diretores da mesma empresa. (O promotor em causa foi despedido a pedido de Biden, mas também do FMI e da União Europeia.)

Biden garantiu “nunca ter recebido um cêntimo de uma nação estrangeira” e que não teve qualquer intervenção nos negócios do filho. “O tipo que arranjou problemas na Ucrânia foi ele – ao tentar subornar o governo ucraniano para dizer algo negativo sobre mim”, disse.

Rússia e Coreia do Norte

As nações que interferirem com a soberania dos EUA “vão pagar um preço”. Caso seja eleito, este foi o aviso que Joe Biden deixou à Rússia, Irão e Coreia do Norte. O democrata disse não perceber a razão pela qual Trump nunca “enfrentou” Putin. Ao que o republicano responder: “Não há ninguém mais duro contra a Rússia que eu.

Ainda no tópico da política internacional, Trump disse ter “uma boa relação” com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, que descreveu como “um tipo diferente de pessoa”.

“Nós tínhamos uma boa relação com Hitler antes de ele, de facto, ter invadido a Europa”, atirou Biden.

O futuro está perto

Se o debate serviu desta sexta-feira para converter os últimos indecisos para algum dos lados da barricada, é pouco provável. Faltam menos de duas semanas para a ida às urnas e 48 milhões de norte-americanos já votaram.

As dúvidas que restaram para os eleitores serão esclarecidas a 3 de novembro. Como disse Joe Biden, já no final do encontro: “O que está em causa no boletim de voto é o carácter da nação.”

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