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Entrevista a Ni Amorim

Governo tem de investir para Fórmula 1 continuar em Portugal

22 out, 2020 - 09:00 • Eduardo Soares da Silva

O presidente da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting conta, em entrevista à Renascença, como foi possível colocar Portimão no mapa do Mundial da Fórmula 1 e dá as pistas para manter o Grande Prémio em solo nacional.

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Nuno Amorim, mais conhecido como Ni Amorim, é presidente da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting (FPAK) e acredita que é possível que a Fórmula 1 se fixe em Portimão nas próximas temporadas.

Em entrevista à Renascença, a dois dias do início dos treinos livres do Grande Prémio de Portugal, o dirigente esclarece que, para tal, é preciso que este fim-de-semana corra tudo bem, a nível organizativo.

Por outro lado, é necessário que o Governo esteja disposto a investir uma verba significativa.

O antigo piloto, presidente da FPAK desde 2017, explica que o regresso da Fórmula 1 a Portugal começou a desenhar-se numa carta enviada pela Federação à FIA, Federação Internacional Automóvel, em março.

Ni Amorim destaca o impacto financeiro que o Grande Prémio pode ter na zona do Algarve, especialmente afetada devido à falta de turistas no verão, garante condições de segurança sanitária para pilotos, equipas e espectadores, e recusa comparações entre a presença de público na corrida de domingo e a presença de adeptos num jogo de futebol.

O plano desportivo é também abordado pelo presidente da FPAK, nesta conversa com a Renascença. Ni Amorim prevê o domínio da Mercedes como cenário mais provável, e não esconde a evidência de que se Hamilton bater o recorde de vitórias em Grandes Prémios na história da Fórmula 1 em Portimão, o evento português ganhará maior visibilidade.

Uma volta ao volante de um Fórmula 1 no circuito de Portimão
Uma volta ao volante de um Fórmula 1 no circuito de Portimão

Começo pelo papel da Federação para trazer o Grande Prémio de Fórmula 1 para Portugal. Pode explicar o processo e quando surge a ideia do projeto?

A ideia começou em março, quando a pandemia tomou conta do mundo e começámos a ver que havia muitas dificuldades em fazer provas, não só de Fórmula 1.

Nessa altura, antecipámo-nos e enviámos, a Federação, uma carta à FIA [Federação Internacional do Automóvel] a manifestar a disponibilidade de uma infraestrutura atual, das melhores da Europa, e que estaria à disposição da FIA e do promotor, a F1 Management, para ser usada se fosse preciso.

Passou algum tempo, em abril a situação piorou, alguns países fecharam, surgiram problemas com voos, foram reagendados Grandes Prémios e alguns tiveram de ser importados.

Tivemos a sorte, calhou-nos a nós. Outros países também se candidataram, mas depois de nós. Fizemos um trabalho em conjunto com o autódromo, nós na política institucional, eles juntos dos “team managers” das equipas, que preferiram Portimão a repetir outro circuito.

É um novo desafio para engenheiros, telemetristas e pilotos. É um dos circuitos mais rápidos da Fórmula 1, talvez só Monza seja mais rápido do que Portimão. Vai ser um excelente espetáculo, os pilotos vão gostar, as equipas e o público também.

Estamos a poucas horas do início da primeira sessão de treinos. O que falta fazer?

Não está tudo pronto, mas está a ficar, tudo dentro dos prazos previstos. É quase como montar uma cidade. A Fórmula 1 atual é uma coisa muito difícil, uma megaoperação logística.

Ninguém faz ideia do trabalho e da quantidade de pessoas que estão envolvidas. As equipas já estão instaladas nas "boxes", tudo a funcionar e a ser testado. Não antevejo grandes surpresas, só tenho pena que a comunicação social portuguesa não possa estar presente, mas são as regras impostas pelo promotor.

Acredito que a prova terá um retorno mediático muito forte, é um novo circuito e vai chamar à atenção dos aficionados dos quatro continentes. Todos têm curiosidade para saber o que é a pista de Portimão, porque já estão fartos de Silverstone, Hockenheim, Monza, etc. Aquelas provas que são clássicas na Fórmula 1.

As audiências vão ser boas e vai ter um impacto fortíssimo na imagem do nosso país e também num momento de crise económica que estamos a viver.

Um evento desta dimensão, com dezenas de milhares de pessoas, vai criar um impacto financeiro significativo, sobretudo na economia local, que está muito afetada com a pandemia, porque trabalhou muito pouco no verão.

Olhando já para o futuro, existe possibilidade de Portugal integrar o calendário da Fórmula 1 das próximas épocas?

Isso é uma grande vontade da Federação e do autódromo. Evidentemente que quando se faz um investimento e um projeto daquela dimensão, o objetivo é ter categorias máximas nesse circuito.

É a vontade de toda a gente, dos portugueses em geral, para que Portugal integre, a partir do próximo ano, o calendário do campeonato do mundo de Fórmula 1.

Mas isto implica uma contribuição significativa do Governo. O significativo é relativo, porque muitos dizem que a Fórmula 1 é muito cara, mas trata-se de custo-benefício, que tem de ser analisado.

Só podemos analisar depois deste Grande Prémio, quando os estudos estiverem feitos. É preciso um novo trabalho em conjunto para que Portugal possa fazer parte da Fórmula 1 no futuro. Temos de dar um passo de cada vez e o primeiro está dado, que foi agarrar a oportunidade de voltar a trazer um Grande Prémio, 24 anos depois.

A FPAK orgulha-se muito do seu trabalho, a FIA reconheceu isso em comunicado. Completámos 25 anos de existência e temos um Grande Prémio de Fórmula 1, que é a melhor forma de comemorar. Tivemos muitas provas canceladas, como o Rali de Portugal, que seria em maio.

Foi um primeiro semestre dramático, mas temos de nos agarrar às provas que temos.

O presidente já esteve no autódromo, pode explicar como é que está a ser adaptado o circuito a nível sanitário e de regras de segurança?

Está muito bem organizado, sem dúvida. A Fórmula 1 é uma coisa do outro mundo, mas do ponto de vista da segurança está tudo muito bem feito.

Por exemplo, ontem fiz teste à Covid-19, amanhã tenho de fazer outro para poder voltar a entrar no circuito. Eu e todas as pessoas que entram e estamos a falar de milhares.

Estas medidas são muito importantes. O número de espectadores que foi aprovado pela Direção-Geral da Saúde permite fazer um evento com segurança.

O perímetro do autódromo é muito grande, tinha capacidade para entre 90 a 100 mil pessoas. Com 27,500, teremos espaço suficiente para toda a gente estar a alguns metros de distância. As entradas também serão faseadas. No papel, está tudo bem estruturado, vamos esperar que a execução seja bem feita.

Fica um gosto amargo pela lotação ter sido reduzida, ou continua um sentimento de satisfação por conseguirem receber um número considerável de espectadores?

Acho que é para estarmos contentes e satisfeitos. Ainda não vi nenhum Grande Prémio com público. Quando tem, é mil pessoas.

Os números no Algarve ajudam, são baixos em relação ao resto do país e há muitos cancelamentos ingleses, que eram um número considerável que vinham a Portugal. Quanto à corrida em si, que expetativas tem?

O facto de ser uma pista nova pode trazer surpresas nas equipas como a Red Bull ou a McLaren, mas acho que a supremacia será da Mercedes, como tem sido.

Será uma luta entre Hamilton e Bottas. As equipas não têm dados da pista, o talento dos engenheiros e dos pilotos pode vir ao de cima, mais do que noutra pista onde já têm milhares de voltas feitas.

Se Hamilton vencer, é em Portimão que bate o recorde de Schumacher como o piloto com mais vitórias na história da Fórmula 1. Pode ser importante para o futuro?

Pode. Se ganhar, será aqui que bate o recorde do Schumacher [91 vitórias] e será um marco histórico para o circuito.

É um recorde que pode demorar muitos e muitos anos a ser batido, porque são números extraordinários, tanto do Hamilton como do Schumacher, quer de vitórias, como “pole positions”, voltas mais rápidas. E isso pode ajudar-nos, claro.

Há quem critique a Fórmula 1 e MotoGP porque podem receber público enquanto que outras modalidades, nomeadamente o futebol, não podem. Tem algum comentário a fazer?

Não creio que tenham fundamento. Não podemos comparar, porque cada desporto tem a sua especificidade.

O futebol tem uma forma emotiva de se festejar um golo que não existe na Fórmula 1. O público estará disperso por uma área de sete ou oito campos de futebol, é um perímetro de cinco quilómetros. O campo de futebol é ínfimo em termos de tamanho em comparação a um autódromo.

Há mais segurança para ter público num autódromo, principalmente pela emoção que se celebra uma e outra. Ninguém festeja uma ultrapassagem ou a vitória de um piloto da mesma forma que se celebra um golo no futebol.

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