Tempo
|

Reportagem

Refugiados menores aprendem a sonhar em Lisboa. “Temos que lhes explicar que aqui estão seguros”

19 out, 2020 - 07:15 • Celso Paiva Sol

Chegaram a Portugal sem família, ao abrigo de um acordo europeu de instalação de refugiados, vindos do campo de Moria, na Grécia. Trazem histórias duras e "traumas profundos" na bagagem, que agora tentam ultrapassar com a ajuda de uma equipa multidisciplinar da Cruz Vermelha. Têm todo o acompanhamento, mas também são livres e já começaram a descobrir Lisboa, ao mesmo tempo que aprendem Português. Gostam de ir a centros comerciais, de jogar à bola - como qualquer jovem da sua idade - e há quem queira ser polícia, para garantir " a proteção que não teve".

A+ / A-
Refugiados menores voltam a sonhar em Lisboa - Reportagem de Celso Paiva Sol
Refugiados menores voltam a sonhar em Lisboa - Reportagem de Celso Paiva Sol
Ouça aqui a reportagem do jornalista Celso Paiva Sol

O caminho até Lisboa foi longo e perigoso. Aterraram na capital portuguesa no dia 7 de julho. São 25 rapazes, com idades entre os 15 e os 17 anos - o mais velho já fez, entretanto, 18 - e, embora a maior parte sejam naturais do Afeganistão, também há quatro egípcios, um iraquiano e um da Gambia.

Viveram entre seis a nove meses em centros para refugiados da Grécia. “Vêm de dois ou três campos, alguns já se conheciam, sobretudo os que vieram de Mória, em Lesbos, ou os egípcios que vieram juntos de Chios, mas a maior parte deles não se conhecia”.

Nos campos gregos entraram, e viveram, na condição de menores não acompanhados.

A família ficou no país de origem, alguns nem têm família. As passagens são muito caras e as vias não são as mais seguras e, por isso, as famílias mandam à frente aqueles que têm mais hipóteses de sobrevivência. O mais forte, neste caso um jovem adulto, que se, tudo correr bem, conseguirá um dia trazer a família”, explica Cláudia Sabença, a socióloga que lidera a equipa multidisciplinar que a Cruz Vermelha criou especificamente para receber e ajudar a integrar estes jovens refugiados.

No grupo encontrou “uma ansiedade geral”, que é gerida com muitas cautelas. “Tentamos não abrir muito as caixinhas de pandora, abrimos o que temos que abrir porque é um jogo muito perigoso. São traumas muito profundos”.

“A equipa técnica conhece as histórias dos jovens, algumas são muito trágicas, e mesmo as atividades de partilha têm que ser muito controladas pelos psicólogos para não ir muito fundo. Tentamos focar-nos no presente e no futuro. Onde é que nós vamos? O que fazemos com esta dor?”, relata a especialista.

Cláudia Sabença conhece bem as marcas com que agora tem que lidar. Faz voluntariado desde os 13 anos, e os últimos cinco foram passados a ajudar, precisamente, refugiados que chegam à Europa pelas mais variadas rotas.

Trabalhou em Calais, no acampamento improvisado que nasceu naquela cidade portuária francesa - mais conhecido como “A Selva” -; esteve depois em Belgrado, ponto de passagem de uma das principais rotas terrestres; e mais, recentemente, nos últimos dois anos e meio, trabalhou em campos de refugiados na Grécia.

“Não conseguem dormir. Nos campos tinham que se defender durante a noite”

Sobre estes 25 jovens, diz “que os traumas que trazem até são os mais recentes, são os da Grécia. Ainda estão a aprender a relaxar, e que não têm que estar sempre à defesa”.

Os sinais de “stress pós-traumático” estão nas mais pequenas coisas, em qualquer gesto ou tarefa do dia-a-dia. “O que têm mais é perturbações de sono. Não conseguem dormir porque nos campos tinham que se defender durante a noite. Era a altura mais perigosa. Até a higiene do sono. Alguns deles não dormiam dentro da cama, nem vestiam pijama. Temos que começar por aí, explicar-lhes que estão seguros”.

Cláudia Sabença explica que a equipa “vai percebendo as marcas do passado pelas coisas do dia-a-dia”, como o jovem que “perdeu a audição por causa da explosão de uma bomba” ou outro que fica sempre muito aflito se a família não lhe atende o telefone “porque pode ter sido vítima de um ataque”.


Dentro da casa, sucedem-se as marcas que ficaram da passagem pelos campos de refugiados, muitas vezes em coisas simples como “a maneira como se posicionam para comer. As filas que fazem para a comida, a mentalidade de grupo, de fila para comer. Também fazemos esse trabalho de lhes explicar que não precisam de estar na fila, ou em pé, que podem esperar sentados”.

O primeiro grande obstáculo, tanto para os jovens como para os técnicos que os acompanham, é a língua.

“Desde o início houve muita língua gestual, muita linguagem corporal, muita mímica. No início havia mais separação, afegãos com afegãos, egípcios com egípcios, o da Gâmbia fala inglês e dá-se com toda a gente, mas agora começam a misturar-se, e já se começam a formar amizades.”

Os dois tradutores da equipa são peças fundamentais, mas nem por isso deixa de haver comunicação. “É a pergunta que faço todos os dias: Que língua é que estão a falar? Uns não falam árabe, outros não falam farsi, e ainda assim são amigos. Ainda ninguém conseguiu perceber, nem os tradutores”.

Uma nova vida em Lisboa

O Programa Europeu ao Abrigo, do qual estes refugiados foram selecionados, prevê que estes jovens fiquem, que se integrem na sociedade portuguesa, e que aqui escrevam uma nova história.

Estes 25 estão com a Cruz Vermelha, os próximos – que podem chegar a um total de 500 até ao final do próximo ano - irão ficar com muitas outras entidades que já se estão a organizar nesse sentido.

Este grupo vive num edifício reabilitado, na Penha de França, em Lisboa, onde tem experimentado uma normalidade que alguns desconheciam. “São absolutamente livres. É só a casa deles, que é também uma escola, mas é a casa deles”.

O plano de acolhimento incluiu aulas de Português, diversas outras atividades pedagógicas, a prática de desporto, mas também a importância do tempo livre.

“Vão onde querem. O projeto recebeu bicicletas, nós atribuímos uma a cada um, e eles vão onde querem. Na segunda semana já tinham descoberto o Panteão Nacional sozinhos, e vão à praia sozinhos. Já os levamos ao Castelo, ao Oceanário, já foram a S. João da Madeira. O que eles mais gostam é de passear. Gostam da Almirante Reis, do Colombo, do Vasco da Gama, perdem-se nos shoppings, jogam à bola, vão tomar café e comer kebab”, conta a psicóloga Cláudia Sabença.


“Não querem fugir, inseguros já eles estiveram”

Muitos refugiados que chegaram a Portugal partiram depois para os países. A liberdade de movimentos destes jovens impõe a pergunta: e ainda nenhum tentou fugir? Não existe esse risco?

“Nas primeiras semanas eu tinha muito medo de uma fuga, mas depois percebi que eles não querem fugir, porque inseguros já eles estiveram. Estão numa casa onde têm tudo. Conforto, carinho, pessoas que zelam por eles 24 horas. Se estão atrasados, eles sabem do protocolo de fuga e tudo o que tem que ser ativado no caso de desaparecerem, eles ligam-nos. Dizem: ‘estou no shopping, desculpa atrasei-me, perdi-me ou caí de bicicleta’ – o que também já aconteceu -, mas querem sempre voltar para casa”, refere a líder da equipa multidisciplinar da Cruz Vermelha.

Dentro da casa, a liberdade e o espaço individual aplica-se também à prática religiosa, campo em que “não nos metemos”, sublinha.

Cláudia Sabença explica que “existem espaços desenhados para serem transformados rapidamente em zonas de oração, nos quartos podem ter a decoração religiosa que quiserem, só não a podem expor na sala porque é uma zona comum. Quem quer ir à missa vai, quem quer ir à mesquita vai à mesquita, quem quiser rezar nos quartos pode fazê-lo”.

Ao fim de três meses, a coordenadora da equipa, que junta 20 assistentes sociais, psicólogos, professores e tradutores, já tem uma noção do tipo de profissão que cada um destes jovens gostaria de ter.

Pensamos que vão sair muitos chefs de cozinha, cabeleireiros, alguns eletricistas, porque já é uma formação que tiveram nos países de origem. Também futebolistas e polícias, no sentido de projetar a proteção que não tiveram.”

Nos próximos meses, de forma gradual, calendarizada de acordo com as dinâmicas dos próprios campos de refugiados na Grécia, e ao ritmo que a pandemia deixar, vão chegar a Portugal vários outros grupos como este.

Às instituições que se estão a preparar para os receber, Cláudia Sabença deixa alguns conselhos. A começar pela “língua, que é sem dúvida a maior dificuldade. Isso tem que ser sempre contornado com tradutores, no início não há volta a dar”.

Conselhos? “Muita paciência, é sempre um trabalho na base da tentativa erro, há sempre muito choque cultural, e vão sentir um sentido de responsabilidade muito grande. É preciso que estas equipas tenham muita força”.

Portugal é um dos dez países da União Europeia que aceitou o desafio da Grécia para acolher menores não acompanhados que vivem nos campos de refugiados daquele país.

O plano global prevê a colocação de 5.000 jovens, 500 dos quais deverão ter o nosso país como destino, uma nova oportunidade longe da guerra, das bombas, do terrorismo e das perseguições que dilaceraram as suas cidades e aldeias natais.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Ivo Pestana
    19 out, 2020 Funchal 11:51
    Mas é preciso mostrar a estes jovens, que Portugal não é só Lisboa e Porto. As cidades grandes são pouco recomendáveis, a estes jovens. Precisam da natureza, do Portugal rural...