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Dia Mundial da Saúde Mental

"As famílias estão sob forte tensão, vemos as pessoas mais angustiadas e em sofrimento"

10 out, 2020 - 09:49 • Ana Carrilho

Os problemas de saúde mental não são novos, mas é um facto que a pandemia de Covid-19 veio agravá-los. À Renascença, o psicólogo clínico Daniel Sousa refere um crescendo de pedidos de ajuda no instituto que dirige no ISPA e diz-se sobretudo preocupado com os mais velhos, que estão mais isolados e sozinhos. “A solidão mata mais do que muitas doenças físicas."

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Um em cada cinco portugueses tem algum problema de saúde mental. Ou seja, são mais de dois milhões de pessoas, em dados pré-pandemia. E se hoje este já não é um tema tabu, também é verdade que, por enquanto, não foi suficiente para os diversos governos terem avançado com políticas de Saúde Mental.

É preciso "ter coragem, decidir, investir e avançar", porque os problemas já existiam e a pandemia só os agravou, refere em entrevista à Renascença o psicólogo clínico Daniel Sousa, docente do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), no Dia Mundial da Saúde Mental.

Apesar de não ter números concretos, revela que, à clínica do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida, integrado no ISPA, chegam cada vez mais pedidos de ajuda de pessoas que se sentem angustiadas com o impacto da pandemia de Covid-19 nas suas vidas e nas dos que os rodeiam.

Daniel Sousa também alerta para a situação especial dos idosos e dependentes nos lares: sentem-se sós e abandonados. E a solidão mata mais do que muitas doenças físicas, avisa.

As pessoas estão angustiadas

São várias as razões para o estado em que as pessoas chegam à Clinica de Psicologia do ISPA, mas todas elas revelam uma profunda angústia, revela o seu diretor à Renascença.

Algumas são comuns, mas “quando entramos no mundo de cada pessoa, referem as dificuldades nas relações interpessoais, a dificuldade em lidar com os diversos membros da família dentro de casa, o receio em relação ao futuro, ao emprego, quando não estão já em situação de 'lay-off' ou desempregadas. As famílias estão sob forte pressão e tensão, vemos as pessoas a agravar as suas queixas e a aumentar o seu nível de angústia e sofrimento”, partilha Daniel Sousa.

Nas consultas têm aparecido muitos jovens e adultos ativos. Mas Daniel Sousa mostra-se particularmente preocupado com os idosos e dependentes, a residir em lares e sem poderem sair ou estar com as famílias há sete meses.

A solidão mata mais do que muitas doenças físicas

O psicólogo e docente do ISPA admite que há uma preocupação de saúde pública e em proteger os mais vulneráveis do contágio, mas manifesta-se preocupado com o estado psicológico e emocional destas pessoas e das suas famílias.

“É de um sofrimento atroz as pessoas não poderem dar acompanhamento às pessoas mais velhas da sua família, poderem até ser impedidas de estar com elas. E receio muito pela nossa população mais envelhecida, por estar mais isolada e em maior solidão”.

Daniel Sousa considera que é preciso refletir sobre esta situação e deixa o alerta: “A solidão mata mais do que muitas doenças físicas. A ligação humana é um alimento para a alma da nossa espécie. As pessoas em solidão sofrem mais”.

Procura-se coragem (para avançar com políticas de Saúde Mental)

Os dados de diversos estudos nacionais e europeus revelam que mais de 20% da população portuguesa tem algum problema de saúde mental, quer seja ansiedade, depressão ou perturbações do humor, o que corresponde a mais de dois milhões de pessoas -- sendo que são estudos com alguns anos, todos pré-Covid-19. A pandemia, lembram os especialistas, só veio agravar a situação.

Ao contrário de outros países europeus, Portugal ainda não tem um Programa de Saúde Mental. Frisando que não quer cair no "cliché de referir exemplos estrangeiros", Daniel Sousa não resiste a referir o caso britânico.

“Há alguns anos, o Governo fez contas e percebeu claramente que investir no aumento do número de psicólogos e psicoterapeutas no Serviço Nacional de Saúde não só beneficiava a saúde mental e física dos cidadãos como beneficiava a economia. Investiram e os resultados são tão bons que o programa está a ser prolongado. Mas é preciso ter coragem política, decidir, investir e avançar”.

Efetivamente, um estudo europeu refere que as pessoas com qualquer perturbação mental reportam, em média, 3,1 dias de absentismo/mês. Ou seja, registam-se custos económicos para os próprios, com perda de rendimentos e gastos acrescidos em consultas, fármacos e terapias.

Por outro lado, as quebras na produção têm impacto direto na economia. Depressão, demências, doenças psicóticas, ansiedade e perturbações do sono custam anualmente centenas de milhões de euros aos países europeus. E com a tendência de envelhecimento da população no continente, em particular em Portugal, os custos associados a estas doenças só deverão aumentar.

Quem mais precisa não tem acesso a apoio psicológico

Daniel Sousa diz que não tem dados compilados, mas tem uma certeza: na clínica universitária do ISPA aparecem cada vez mais pessoas a pedir ajuda psicológica e em grande sofrimento. E o que preocupa este especialista é que “quem mais carece desse apoio não o tem”.

A explicação é simples: raros são os seguros que cobrem consultas ou psicoterapias e no SNS, as pessoas entram, sobretudo, pelos centros de saúde. “Temos cerca de 2,5 psicólogos por cada 100 mil utentes. É humanamente impossível os colegas darem uma resposta adequada a tanta gente”.

Por esse motivo, o psicólogo clínico frisa que é preciso reforçar a resposta aos problemas de saúde mental e defende que esta tem de ser verdadeiramente eficaz ao nível do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e da rede de centros de saúde.

Por outro lado, o especialista defende que tal como se fazem avaliações periódicas da saúde física dos trabalhadores também se deve apostar numa avaliação do bem-estar ou mal-estar ao nível psicológico.

E lamenta que, numa fase em que tanto se fala nos projetos para os próximos dez anos, com base nos fundos europeus, não se tenha ainda ouvido “uma única palavra na necessidade de investimento na saúde das pessoas do ponto de vista físico e emocional”.

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