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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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A relutante Alemanha

09 out, 2020 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A Alemanha reunificada acentuou a hegemonia alemã na Europa comunitária. Mas é uma hegemonia relutante. O que se passou na primeira metade do séc. XX ainda hoje condiciona a política de Berlim. E a próxima saída de Merkel aumenta incertezas sobre o futuro.

Fez há uma semana 30 anos que a Alemanha reintegrou aquilo que tinha sido a zona ocupada pela Rússia soviética no pós-guerra e depois se tornou a chamada República Democrática Alemã, muito ligada a Moscovo.

A reunificação alemã suscitou então preocupações, nomeadamente em Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica, e no Presidente francês F. Mitterrand. Eles não esqueciam que a Alemanha tinha provocado duas trágicas guerras mundiais na primeira metade do séc. XX. E que o holocausto de judeus, ciganos, etc. foi um horror jamais antes visto.

O chanceler alemão Helmut Kohl alcançou com a reunificação um importante objetivo nacional. Mas também ele tinha consciência dos perigos que uma Alemanha reunificada suscitava para a paz na Europa, por causa do que ele chamava “os demónios alemães”. Para acalmar tais receios, Kohl decidiu aprofundar a integração do seu país na Europa comunitária, aderindo ao euro. Fê-lo sem qualquer referendo, que ele poderia perder, dado o apego dos alemães à sua moeda forte, o marco.

Moeda forte porque as normas orçamentais e monetárias da RFA ao menor sinal de inflação eram aplicadas para combater a subida dos preços. Não por acaso, muitas das regras restritivas do marco passaram para a arquitetura da moeda única europeia.

Mas, por motivos políticos, Kohl permitiu que o fraco marco da ex-RDA fosse trocado pelo forte marco da RFA sem alterações de câmbio. Daí resultaram enormes dificuldades competitivas para as empresas da ex-RDA. Três décadas depois da reunificação, e não obstante gigantescas transferências de dinheiro do Estado federal, o nível de vida na zona correspondente à ex-RDA ainda agora fica abaixo do que prevalece no resto do país.

Houve uma grande migração (sobretudo de mulheres) da ex-RDA para ocidente. E tem sido muito difícil mudar as mentalidades de Leste, após décadas de comunismo, para funcionarem numa economia de mercado. Não admira que seja no Leste alemão que forças de extrema-direita, algumas mesmo neonazis, têm tido mais sucesso.

Entretanto, registam-se algumas evoluções positivas na política alemã. A “bazuca” de dinheiro da UE para conter os efeitos desastrosos da pandemia (dinheiro que a Comissão vai obter no mercado da dívida) não teria sido possível sem o apelo de Merkel, apoiada por Macron, nesse sentido.

Na própria política económica interna da RFA parece ter-se atenuado a obsessão contra défice orçamentais. O programa germânico nacional anti-crise económica é de significativa dimensão. Assim, depois de muitos anos de fraco investimento público, começam a surgir empreendimentos renovadores.

No plano da política externa, o governo da RFA parece já ter percebido que não pode contar com os EUA de Trump, o que implica gastar mais na área da defesa. As despesas militares da RFA têm subido, mas muito lentamente. E ainda persistem situações criticáveis, como o segundo gasoduto direto da Rússia para o Norte da Alemanha, pelo mar Báltico, que Berlim não suspendeu.

A Alemanha reunificada tornou-se o país hegemónico da UE, tanto mais porque o Reino Unido já não faz parte da Europa comunitária. Mas a sua hegemonia é considerada relutante por muitos analistas. No fundo, ainda são os efeitos do comportamento germânico na primeira metade do séc. XX e em particular do holocausto a pesarem. A próxima saída de Merkel da chefia do governo da RFA aumenta as incertezas sobre o papel daquele país no mundo e em particular na Europa.

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