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Postal de Quarentena – Derry

O vírus trouxe de volta as divisões entre norte e sul na Irlanda

24 set, 2020 - 06:33 • Aisling Walls*

Para a autora deste postal, uma professora de 40 anos, a pandemia trouxe as piores recordações de quando para visitar a República da Irlanda era preciso esperar horas para atravessar uma fronteira guardada por militares britânicos.

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Norte/Sul, católico/protestante, Derry/Londonderry, unionista/nacionalista, passaporte irlandês/passaporte britânico… Vivo na terra das divisões e o confinamento serviu para tornar as diferenças ainda mais pronunciadas e evidentes. A fronteira que atravesso todos os dias para ir trabalhar ou para visitar a minha irmã foi encerrada e a Gardaí [polícia irlandesa] estava a mandar parar os carros e a enviar as pessoas para trás.

Tiraram-nos a liberdade para viajar, até mesmo para ir a Donegal, o condado mais próximo, para comer um gelado…

O confinamento deixou-nos com imenso tempo para passar com os miúdos; ótimo tempo de qualidade em família. Fomos dar passeios todos os dias, aventurando-nos cada vez mais, levando até ao limite a resistência da minha filha de quatro anos! Fizemos educação física com Joe Wicks online e depois veio o temível ensino à distância! Sentimo-nos compelidos a ficar no nosso bairro, era proibido ir mais longe. Ainda assim um dia andámos alguns quilómetros até ao topo da colina para ver os cavalos e as vacas. Vimos o agricultor a dar de comer às vacas e ele explicou-nos que estava a engordá-las ao máximo para as poder vender, para serem transformadas em hambúrgueres do McDonalds. Depois, um dia, elas desapareceram e as crianças perceberam que podiam bem vir a comer as suas vacas favoritas. Espero que isto os dissuada de ir tanto ao McDonalds, pode ser uma lição positiva a retirar do confinamento.

Senti muitas saudades dos meus amigos. Ansiava poder passear com a minha melhor amiga ou ir beber um ou dois copos de vinho com as miúdas. As crianças também sentiram falta da socialização. Falei com outra mãe da escola primária que os meus filhos frequentam. Vivemos perto e por isso de vez em quando íamos dar o nosso passeio diário juntos. No primeiro dia as crianças forram a correr pela rua abaixo, abraçando furiosamente a alegria da amizade. Até que encontraram um pássaro morto. Juntámo-nos e fizemos um enterro miniatura para o pobre corvo. O meu filho espetou um pau no seu corpo, já inchado e cheio de vermes, enquanto eles o benziam – eis uma memória do nosso tempo de confinamento de que ele certamente se vai lembrar!

Batemos palmas pelo Serviço Nacional de Saúde e desenhámos arco-íris nos passeios. Um vizinho que trabalha no hospital passou por cá, vestido de Stormtrooper, para agradecer. Foi o ponto alto do dia dos miúdos! Todas as semanas, da antiga fábrica de camisas soava a sirene dos tempos da guerra para nos juntarmos a bater palmas, para criar algum espírito de comunidade nos nossos bairros. Depois de alguns meses, porém, as palmas acabaram quando os profissionais de saúde pediram um tratamento justo e ordenados decentes em vez de uma “palmadinha nas costas”.

Já estávamos habituados a passar livremente a fronteira. Ao longo de toda a fronteira irlandesa as pessoas tiram o melhor proveito dela. Nas vilas próximas usam-se tanto euros como libras esterlinas. No poema "Mending Wall", de Robert Frost, ele pergunta: “As boas cercas fazem bons vizinhos?” O que estão a conter e o que estão a excluir?

Trump vai construindo o seu muro para manter afastados os pobres da América do Sul, mas na Europa os muros caíram. O de Berlim tombou quando eu era criança, sob os pés dançantes de David Hasselhoff.

Mas os “dentes de dragão” mantiveram-se firmes ao longo da fronteira irlandesa. Só se conseguia passar a pé ou de bicicleta, em ruas secundárias. Lembro-me de ir de bicicleta para visitar a nossa amada Grianan de Aileach, uma antiga fortaleza, casa do clã O’Neill.

De carro levava uma hora. Mesmo com cinco crianças suadas no banco de trás, ansiosas por prover um gelado e sentir a brisa fresca na praia… Os jovens soldados britânicos mandavam parar cada carro e até interrogavam o meu pai, que exagerava o seu sotaque inglês para ver se nos deixavam passar mais depressa.

Finalmente essa fronteira física acabou – tudo o que resta é uma lápide com flores para o soldado morto, abatido enquanto cumpria o seu dever, longe de casa, e um grande sinal amarelo a recordar aos condutores que devem guiar à esquerda.

Mas a Covid trouxe as barricadas de volta este ano. “Estão cheios de Covid em Derry, fechem as fronteiras!” No início Boris Johnson nem queria fechar o país. Ele e as suas ideias para o Brexit são questões ainda mais polémicas. Está a remexer com o acordo de Sexta-feira Santa e a abrir feridas antigas.

O primeiro-ministro da Irlanda, que tem formação médica, agiu rapidamente e com precisão, como um verdadeiro líder. O Governo reagiu de forma veloz e a escola da Irlanda do sul, onde trabalho, encerrou no dia 12 de março. Já Boris e os seus pares britânicos reagiram de forma mais inglesa – hesitantes, com cautela para preservar a economia em vez da vida do povo que supostamente representam. Relutantemente, admitiram um mês mais tarde que tinham agido demasiado devagar. O resultado é que o Norte fechou as escolas uma semana depois do Sul! Os meus filhos frequentam uma escola gaélica em Derry, por isso mantive-os em casa comigo. Na realidade, toda a cidade prestou mais atenção ao simpático Leo Varadkar e os pubs de Derry encerraram, de acordo com os conselhos do Governo irlandês, apesar das enormes perdas financeiras que implicou fechar no dia de St. Patrick, quando normalmente beberíamos até secarem os barris!

Voltei agora a dar aulas em Buncrania, Donegal. Atravesso todos os dias a fronteira durante a minha viagem de 20 minutos até ao trabalho. Espero, e rezo, que a fronteira permaneça aberta e que não precise de voltar a aguentar as longas filas, como quando era criança.

Espero que os meus filhos se possam divertir com os amigos no futuro próximo e que a sua saúde mental e educação não sejam prejudicadas por este vírus.

Espero que possamos encontrar uma solução para todos os problemas e que um dia haja uma vacina para a Covid-19 que proteja os mais vulneráveis da nossa sociedade e possamos voltar ao “antigo normal” em vez do “novo normal” de que ouvimos falar tanto.

Talvez uma das maiores lições a aprender com esta experiência seja de sermos agradecidos por aquilo que temos – podermo-nos sentar ao lado de alguém sem ter de usar máscara, dar um firme aperto de mão, um bom abraço… Não sabemos quando é que poderemos voltar a perder essas oportunidades, mas continuamos com esperança de que voltem em breve.


Aisling Walls tem 40 anos e é professora de francês e de espanhol em escolas de ambos os lados da fronteira que divide a Irlanda do Norte da República da Irlanda. É casada e mãe de três filhos.

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