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Postal de Quarentena - Harare

“O Governo do Zimbabué nunca perde a oportunidade de se aproveitar de uma crise”

06 out, 2020 - 06:18 • Joseph Woods*

Quando a primeira pessoa adoeceu com Covid no Zimbabué a família teve de comprar um ventilador porque o hospital estatal não tinha. Entretanto a classe política montou uma clínica luxuosa para seu uso exclusivo e o Ministro da Saúde desviou 60 milhões de dólares num contrato de compra de equipamento de proteção. Um poeta irlandês a viver na capital descreve a sua experiência neste país africano.

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Somos uma família irlandesa a viver em Harare, no Zimbabué, há quase cinco anos e experimentámos esta pandemia em dois continentes. Nos finais de março um amigo que nos estava a visitar decidiu voltar mais cedo para a Irlanda por causa da deterioração da situação. Os voos estavam a ser suspensos e as fronteiras fechadas. Levei-o até ao aeroporto e apercebi-me que conhecia a maior parte das famílias na zona das partidas. Muitos tinham simplesmente sido ordenados a voltar para casa e até vi professores da escola internacional da minha filha a fazer fila para se irem embora. Voltei para casa decidido a permanecer, apesar de ter os pulmões de um velho, consequência de ter tido pneumonia durante a infância, um ferimento causado pelo cinto de segurança, quase afogamento – duas vezes – e o aparecimento de asma na meia-idade. Mas o calor e a altitude de Harare têm sido bons para os meus pulmões nestes últimos quatro anos.

Nessa mesma semana um jornalista do Zimbabué regressou de Nova Iorque e, depois de ter visitado uma série de lugares perto do nosso bairro nos subúrbios, começou a desenvolver sintomas e foi internado no que o Governo tinha designado o “hospital Covid”, mas que nem tinha ventilador. Pediram à família para arranjar um e conseguiram, da África do Sul, mas foi demasiado tarde e o jornalista morreu “sozinho e com medo”, aos 31 anos de idade. Isto revelou a total falta de preparação do sistema de saúde no Zimbabué, onde a maioria dos médicos e das enfermeiras estão em greve de qualquer maneira. Tradicionalmente, quem precisa de cuidados médicos e tem dinheiro para isso voa para a África do Sul. O iminente fecho das fronteiras estava ainda a alarmar a elite política, que tradicionalmente voa para a Singapura ou para a China para receber tratamento médico nos seus jatos privados ou do Governo. A sua reação foi de equipar uma clínica no nosso bairro com ventiladores, etc., mas para seu uso exclusivo.

No sábado depois de ter deixado o meu amigo no aeroporto estávamos nós no mesmo local, prontos para regressar à Irlanda no que seria presumivelmente um dos últimos voos para fora do país. Apesar de estarmos a deixar a nossa vida e os nossos muitos animais de estimação em Harare, sentimos que estávamos a fazer a coisa certa. Mas também havia a sensação de estarmos a ir de mal a pior, uma vez que a Irlanda estava em confinamento total e as taxas de infeção a subir. Fizemos escala em Adis Abeba e vimos filas de pessoas com fatos espaciais a apanhar voos para a China, enquanto que numa Heathrow praticamente deserta, no dia seguinte, não vimos um único funcionário com máscara, pareciam todos alheios e seguros na sua ignorância.

Tivemos a sorte de nos emprestarem uma casa na quinta da família da minha mulher, no campo em Tipperary e instalámo-nos para uma quarentena de duas semanas, seguida de confinamento a uma área de dois quilómetros. Rapidamente estabelecemos uma rotina. A minha mulher, que chefia uma ONG no Zimbabué, trabalhava durante todo o dia, através do Zoom e do Skype, etc. enquanto a minha filha tinha aulas todas as manhãs no seu portátil, na mesa da cozinha e eu sentava-me do outro lado dela, a escrever. Sou autor e o facto de ter sido transportado de repente para a Irlanda rural teve um efeito estranhamente inspirador, o que resultou numa série de poemas que, se tudo correr bem, figurarão no meu próximo livro.

Pouco depois de termos chegado, ainda durante a nossa quarentena, a minha querida tia Bridgid Screenan apanhou o vírus e morreu num lar no condado de Kildare. Ninguém da família pôde viajar ou ir ao seu enterro, devido às restrições.

Para a nossa filha, de nove anos, foi o maior período de tempo que tinha passado na Irlanda desde que era bebé e os muitos passeios e viagens em torno da terra da sua mãe, e o facto de ter conhecido tão bem os primos, muniram-na de fortes recordações. À medida que as restrições foram sendo levantadas pudemos explorar Tipperary e até conseguimos passar as nossas férias anuais em Kerry, em julho.

Durante esse mês, que é o mais frio no Zimbabué, as pessoas fartaram-se do confinamento, da falta de redes de segurança e de bens e da crescente pobreza e desespero. Marcou-se uma grande manifestação para o dia 31 de julho. Entretanto o Ministro da Saúde estava muito ocupado a desviar 60 milhões de dólares num negócio de aquisição de material de proteção pessoal. Um jornalista famoso que denunciou esta situação foi preso sem julgamento. Sempre pronto o aproveitar-se de uma crise, o regime impôs um recolher obrigatório e outras restrições, supostamente para prevenir a propagação da Covid, mas que tiveram o efeito de tornar a manifestação planeada ilegal.

No início de agosto regressámos para Harare e voltámos para a quarentena, numa pousada com belos jardins, um sítio bem mais luxuoso que o centro montado pelo Governo que, segundo me constou, não tinha água corrente, nem autoclismos e sofria de cortes de eletricidade frequentes. Depois de uma semana na nossa “montanha mágica” e de termos testado negativo para Covid, pudemos sair e retomar as nossas vidas.

Por tradição os Zimbabueanos obedecem a regras e toda a gente aqui cumpre com as indicações. As pessoas por quem passamos na rua usam máscaras e há desinfetante e verificações de temperatura em quase todas as entradas para supermercados e espaços públicos. O tempo quente desta época deve ser bom, porque sabemos que o vírus não gosta do calor e da luz solar, ou não? Mas também há indicações preocupantes de que muitas pessoas por cá estão assintomáticas e o vírus pode ser sinistro na sua transmissão. Entretanto o regime continua com as suas intrigas…

Pela Irlanda os relatos são de que o contágio está a atingir níveis não vistos desde abril. Nós vamos tendo cuidado, mas a vida continua e embora eu só vá ao supermercado uma vez por semana, tenho noção de que estou a correr um risco calculado. Quem sabe? A escola internacional da minha filha ainda não recomeçou, mas esperamos que abra até ao fim deste mês de outubro. Até lá decidimos que vamos aproveitar para explorar mais o Zimbabué – uma das vantagens é que as pousadas de safari, que previamente eram exorbitantemente caras, reduziram as suas diárias face à inexistência de turistas internacionais e, presumivelmente, milionários, por isso vamos passar lá o Natal.

Ninguém sabe o que o futuro nos reserva, mas enquanto as fronteiras ameaçam reabrir, a necessidade de ser testado de um e de outro lado continuará a desencorajar as viagens internacionais.

Claro que queremos todos manter-nos vivos e por enquanto arriscaremos a inatividade e respetivo aborrecimento da situação, duas companheiras a que estamos bem habituados no Zimbabué. A longo prazo valerá a pena.


*Joseph Woods é um poeta premiado, autor e editor.

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