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Entendimentos à esquerda. "Maior responsabilidade é do PS", diz Carvalho da Silva

01 out, 2020 - 06:50 • Ana Carrilho

​O antigo secretário-geral da CGTP, Manuel Carvalho da Silva, espera que o PS e António Costa se mantenham no Governo, mas alerta para as responsabilidades acrescidas dos socialistas na obtenção de entendimento à esquerda para o Orçamento do Estado do próximo ano.

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Em entrevista à Renascença, o antigo secretário-geral da CGTP, Manuel Carvalho da Silva, deixa críticas a Marcelo Rebelo de Sousa. Não gosta de o ver falar tanto sobre tudo e a toda a hora. Deseja que não renove o mandato, mas diz que ainda não escolheu o seu candidato. Há vários fatores a considerar com o objetivo de travar o crescimento da extrema-direita.

Acredita que o Orçamento de Estado do próximo ano vai ser aprovado à Esquerda e que não teremos uma crise política?

Estamos num cenário económico, político e social muito delicado e, se não houver entendimento à esquerda, o rombo nas condições sócio-económicas dos trabalhadores será muito grande. Esta situação que estamos a viver precisa de muita pressão para que não se desarmem mecanismos de combate à pobreza, o primeiro dos quais é a existência de salários com um mínimo de dignidade porque uma grande parte dos pobres trabalha, e uma parte das crianças pobres são filhos de trabalhadores pobres.

E aí, a mensagem que transmito aos meus camaradas da CGTP e aos dirigentes é que se puxe a agenda de combate o mais possível, porque se não houver esta pressão, vamos ter mais desemprego, mais desproteção, mais pobreza. E isso nega em absoluto o desenvolvimento.

Não podemos deixar entrar na sociedade esta situação que chamaria de “estado de exceção pandémico sucessivo”, que em nome das medidas excecionais que é preciso tomar a cada momento vai despedaçando fatores de proteção dos trabalhadores e dos cidadãos, que levam à pobreza.

Mas há outra questão: a responsabilidade para haver entendimentos à esquerda é de todos, mas não se parte em partes iguais. Ou seja, o PS é maioritário, tem o Governo e, portanto, a primeira responsabilidade de uma concretização à esquerda é do PS. E o António Costa não pode fazer piruetas nem manobrismos que apaguem esta responsabilidade. Pode ensaiá-los, mas a primeira responsabilidade é dele.

Em terceiro lugar, o impulso que é preciso dar de mobilização da sociedade portuguesa, de se criarem fatores estruturantes que sejam simbólicos de confiança. A resposta à crise na legislatura anterior mostrou que a esquerda é muito mais capaz de gerar esses fatores de confiança do que a direita. Agora, vejo muita gente no PS com uma espécie de ar enfadonho, de cansaço deste entendimento à esquerda e isso preocupa-me.

Um plano de recuperação económica com forte pressão e algum compromisso da esquerda podia e pode ser muito útil ao país, num contexto em que é preciso participação efetiva dos sindicatos, organizações empresariais e outras. Não é consulta. E mecanismos de transparência e controlo.


"Marcelo é um comentador em contínuo; o país precisa de outro Presidente"


Falemos agora das presidenciais…

Ainda não escolhi o meu candidato.

Ia precisamente perguntar-lhe se já tem candidato. Terá que ser à esquerda, naturalmente. Ana Gomes é uma hipótese?

Eu disse, não escolhi, não vou escolher. Mas comecei a ver de cima para baixo e não a encontrei no primeiro lugar. Mas ainda é provisório, há que ver o que vão ser estas eleições, quais a tendências. Vai haver jogos que é preciso desenvolver com muita responsabilidade para não permitir que a extrema-direita tenha um papel de crescimento forte da sua influência.

Tantas candidaturas à esquerda não acabam por potenciar as candidaturas de direita?

Pode ir para um lado ou outro, depende das estratégias das candidaturas e do que converge ou diverge: se a existência das três candidaturas geram fatores de motivação e aproximação dessa área ou se, pelo contrário, criam fraturas entre si que distanciam e enfraquecem a esquerda. Os dois caminhos são determinantes.

Estamos no princípio e pode ser determinante, neste cenário, apostar aqui ou ali. Até podia ter mais simpatia por um candidato mas dizer: não, eu devo apoiar o outro porque neste jogo esta aposta é melhor. São precisas mais umas semanas. Eu, que sou independente, só posso ajudar à reflexão e esperar que os protagonistas tomem a melhor decisão possível.

E que balanço faz do mandato do presidente Marcelo?

Há um certo consenso em dois ou três pontos: a forma de exercício e as intervenções que teve em vários aspetos vieram trazer uma descompressão à sociedade portuguesa, que é positivo, é de saudar.

Mas acho negativo que o Presidente da República seja comentador em serviço contínuo; não é comentador do dia a dia, é quase comentador de cada hora do dia, é negativo. O Presidente não devia fazer isso.

Mas há outro aspeto que relevo mais: aparece como homem-sociedade, retirando espaço às organizações de intermediação, sejam no mundo do trabalho, na cultura ou outras. Um Presidente tem que puxar pela representação institucional e não o contrário. Vai a um congresso que tem temas muito importantes para a sociedade e o que vão lá buscar (jornalistas) do Presidente é uma declaração sobre o acontecimento da última meia hora. E o que era importante que a sociedade conhecesse sobre aquele problema não lhe chega. Isto é um problema. O Presidente da República não contribui nada para o aumento da participação cívica.

Além disso, durante toda a legislatura, nunca teve uma atitude em relação ao mundo do trabalho, que é o cerne da sociedade. Nunca teve uma atitude de estar ao lado dos trabalhadores.

Dá-lhe nota negativa…

Tem aspetos positivos e estes negativos. O país precisa muito de um Presidente que interprete a sociedade. Não confundamos o “presidente dos afetos” com o presidente da interpretação do que é o povo. Aí, o Marcelo está a léguas. A relação dele é superficial, de simpatia. E quando as pessoas estão a sofrer é bom um sorriso, um beijinho, um sinal de simpatia, mas isso não resolve os problemas. O país precisa de outro Presidente da República.

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