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Ensino Superior

Os caloiros da Covid. “Não vou desistir de um sonho por causa da pandemia. Já me tirou coisas suficientes”

29 set, 2020 - 06:35 • Fábio Monteiro

Maria, Afonso e Mariana acabaram de entrar na universidade. Esta semana, vão sair de Castelo Branco e rumar a Lisboa. Estão contentes, mas sem a energia comum de quem sai de casa pela primeira vez. Os três sabem que pandemia vai intrometer-se em partes importantes da experiência académica. “Não vamos ter uma integração nada fácil. Se calhar, nem vamos conhecer a nossa turma toda, o nosso curso, não vai haver praxe.”

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“Se fosse um ano normal.” Esta formulação surge várias vezes no discurso de Maria Lopes, uma jovem de 18 anos natural de Castelo Branco, que soube, há pouco mais de 24 horas, que entrou em Direito, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. “Se fosse um ano normal”, por esta data, já teria ido à capital “dar uma vista de olhos” e procurar um quarto, tarefa que adiou “o máximo possível”. E se “fosse um ano normal”, “estaria mais entusiasmada”. “Agora, o stress e a preocupação sobrepõem-se ao entusiasmo. À cabeça, só me veem mais preocupações com a pandemia, do que propriamente o entusiasmo de ser caloira e começar a universidade”, explica.

Entrar na universidade, sair de casa dos pais, é um momento – um marco – na vida de muitos jovens adultos. A Covid-19, contudo, veio interferir com a experiência “de liberdade” pela qual muitos ansiavam. E agora irá, certamente, intrometer-se na adaptação ao Ensino Superior. “Não vamos ter uma integração nada fácil. Se calhar, nem vamos conhecer a nossa turma toda, o nosso curso, não vai haver praxe”, diz Mariana Santos, jovem que vai estudar Engenharia e Gestão Industrial, na Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

“A parte social” da universidade, “a parte melhor”, “vai ser como se não estivéssemos lá”. “Não nos podemos aproximar dos nossos colegas, não vou conhecer o meu curso, não vou ter aquela almofada dos meus colegas a dizer: ‘Olha, toma aqui os meus apontamentos, que isto é do meu ano e como foi a minha frequência do ano passado.’ Não vai haver tanto isso. Um bocado do espírito universitário vai apagar-se”, antecipa Mariana.

Afonso Castilho, também natural de Castelo Branco, entrou em Direito, na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, e já lá tem casa da avó – o que é menos uma preocupação. O jovem tinha a expectativa de sair para “conhecer novas pessoas, ir para conhecer novos ambientes”. Mas o novo coronavírus veio atropelar parte dos planos.

“É difícil conhecer novas pessoas quando não lhes vemos metade da cara, quando não podemos estar próximos delas a ter uma conversa. Temos que estar a dois metros de distância. Ainda por cima o estado da pandemia está a piorar em Portugal. Presumo que vai haver ainda mais restrições”, refere.

Do interior para a capital

Para quem mora no interior do país, o primeiro ano de faculdade “é o ano da liberdade”, diz Afonso Castilho. O problema é que 2020 não é, nem de perto, um “ano normal”. “Sais de casa, vais para a capital, é um ambiente totalmente diferente. Vais conhecer novas pessoas, vais viver sozinho, vais andar por aí, vais aprender muito. Sinto que vou estar claramente limitado, ainda assim estou receoso e desejoso de ir. É um sentimento agridoce”, confessa.

Maria Lopes tinha uma imagem mental do que seria o seu futuro em Lisboa que – por razões óbvias – a Covid-19 apagou. “Achava que ia para uma cidade nova, conhecer novas pessoas, ter novas experiências. E agora sinto que vai ser estudos-casa, estudos-casa, sem poder conhecer novas pessoas que tenham os mesmos interesses que os meus”, diz.

Para Mariana Santos, uma sede e procura por cultura ficará, para já, adiada. “Queria ir para Lisboa por causa dos concertos e dos teatros, um bocado que nós não vivemos tanto. Temos um concerto ou dois bons por ano em Castelo Branco. Em Lisboa, tínhamos muitas mais oportunidades, vão-nos tirar um bocado isso.” Da mesma forma, “as saídas à noite que eram muito expectáveis não vão acontecer”, assume Maria.

Telescola e confinamento

Maria, Afonso e Mariana fazem parte de uma geração que terminou o Secundário de forma caótica e que, neste momento, anseia por algo diferente.

Afonso Castilho recorda que os últimos meses do 12.º ano foram “uma grande porcaria”. “Primeiro de tudo, os professores perderam a completa noção do tempo - no pior sentido. Mandavam-nos trabalhos ao fim de semana. Estávamos 24 horas sobre 24 horas a receber e-mails, com façam isto, façam aquilo, tomem lá os exercícios. É para entregar até dia X. Foi um descalabro”, conta.

As aulas online, longe de suprirem as necessidades dos estudantes, acentuaram a estranheza do momento que estavam a viver. “Estamos sentados no conforto do nosso quarto, com uma camisa vestida só para não estarmos de pijama. Estamos no nosso quarto. A nossa mente está no nosso quarto. Não estamos com mente de sala de aula. É chato. Nós queremos aprender, mas, inevitavelmente, a nossa mente começa a vaguear para outros lados”, explica.

Maria Lopes lembra algumas das experiências das quais foram privados: o baile de finalistas, uma viagem de finalistas que não aconteceu. “Ao menos, pensávamos, na altura: pronto, no verão talvez isto acabe e talvez já possamos ser caloiros e retomar a nossa vida normal. E ter a nossa liberdade. Experienciar um pouco da vida sem os pais. Agora, parece uma continuação do mesmo.”

Para alguns futuros estudantes universitários, o Estado de Emergência, que amputou as últimas semanas do segundo período e a totalidade terceiro, foi um tempo de introspeção. Foi durante esses dias que Mariana Santos, que sempre foi “boa a várias disciplinas”, decidiu o que queria seguir. “Pensei imenso. Se não fosse a pandemia, acho que não teria tido tanto tempo para pesquisar sobre o curso que queria”, assume.

Afonso também tomou a decisão de ir estudar Direito durante o confinamento. “Foi graças ao excesso de tempo que tive devido ao confinamento que tive de pensar na pessoa que eu era e na pessoa que eu sou e naquilo que quero da vida. Portanto, acabou por ser um mal que veio por bem. Sem querer parecer egoísta”, diz.

Um "gap year" forçado

Começou como uma “piada”, mas acabou por não ser. Devido à pandemia, os pais de Maria Lopes ainda tentaram, durante o verão, sugerir à jovem albicastrense que tirasse um gap year. Disseram-lhe: “Se calhar, como este ano é diferente e não vais usufruir da experiência a 100%, poderás fazer um ano zero ou ficar um gap year a trabalhar para ganhar experiência. Foi mesmo feita a sugestão.”

Estando excluída a possibilidade de viajar pelo mundo ou trabalhar fora da Castelo Branco, Maria recusou a ideia, mas teve ainda de contra-argumentar. “Sendo Direito um curso de quatro anos, estar já a perder um ano, achava que já ficava com uma perna atrás”, justifica.

Se muitos pais portugueses colocaram a mesma possibilidade aos seus filhos, por causa da Covid-19, não é fácil saber. Os números das colocações no Ensino Superior não indicam, pelo menos, que hajam muitas famílias que tenham coibido, por prevenção, os seus jovens de rumar à universidade. Afinal, este ano, o número de colocados aumentou 15% face a 2019.

Ainda assim, Maria Lopes não parece ser um caso isolado. Alguns familiares de Mariana Santos também tentaram demovê-la de rumar a Lisboa, com uma conversa “nada motivacional” sobre os riscos de contágio. A jovem natural da Pampilhosa da Serra, todavia, não hesitou. “Não vou desistir de um sonho, do meu futuro, por causa de uma pandemia. Já me tirou coisas suficientes. Pelo menos o futuro não me tira”, diz.

Já para Afonso Castilho tirar um 'gap year´ nunca foi uma “hipótese que esteve em cima da mesa”. “Não por imposição dos meus pais, mas porque eu próprio não a queria tomar. Tenho bastantes objetivos dentro da minha cabeça e quanto mais depressa os conseguir alcançar, melhor para mim. Sinto-me revigorado. Quero já começar em força”, explica.

Os “azarados” e “resilientes”

Daqui a dez anos, quando a pandemia estiver já no retrovisor, talvez se possa analisar o impacto da Covid-19 nesta geração na adaptação ao Ensino Superior. Porventura, poder-se-á estudar se entraram mais ou menos preparados que em anos anteriores.

Mas isto não impede Afonso de responder ao exercício especulativo. Daqui a uma década, o jovem deseja encontrar uma geração mais “resiliente” – “sempre fui adepto daquela máxima que aquilo não nos mata torna-nos mais fortes” - e que seja recordada por ser constituída “pessoas que se importaram umas com as outras”.

Já Maria Lopes não consegue fugir ao presente. “Diria que eramos os azarados do ano.” Todas as expectativas para a universidade “acabaram por ficar estagnadas por causa da pandemia e vamos ser os caloiros da pandemia”.

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