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Entrevista à Ministra da Coesão Territorial

Pandemia veio “ajudar” a mudar a “perceção daquilo que é o interior”

28 set, 2020 - 07:30 • Fábio Monteiro

Procura por apoios do programa + CO3SO Emprego foi “avassaladora” e continua a aumentar. “Neste momento, já temos quase cinco mil candidaturas e, portanto, ultrapassamos os 500 milhões de euros de procura”, adianta Ana Abrunhosa, em entrevista à Renascença. Ministra da Coesão Territorial revela ainda que não irá tomar posição e dar apoio a nenhum candidato presidencial. “Mesmo que tenha um favorito, nunca o transmitirei publicamente.”

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A pandemia da Covid-19 não deverá ser apenas um abre olhos momentâneo para o interior e o teletrabalho, frisa Ana Abrunhosa, ministra da Coesão Territorial, em entrevista à Renascença. “O que a História nos mostra é que hoje tivemos a pandemia do SARS-CoV-2, há uns tempos tivemos outros problemas. Portanto, temos grande vantagem - e até para os territórios mais congestionados, que têm hoje desequilíbrios – em desenvolver os territórios do interior”, afirma.

Segundo a governante, a pandemia veio “ajudar” a mudar a “perceção daquilo que é o interior”. “Hoje, verdadeiramente, as famílias e as empresas sentem as desvantagens de viverem e estarem sediadas em zonas mais congestionadas.”

Ana Abrunhosa, que recusa adiantar o nome do seu candidato presidencial favorito, admite ainda que, à semelhança de muitos portugueses, no início da pandemia perdeu “um pouco o chão”.


Em janeiro, afirmou, em entrevista ao Expresso, que “é mais fácil levar pessoas para o interior do que empresas.” Tendo em conta os números que revelou esta semana, relativos ao programa + CO3SO Emprego, quer reformular esta ideia?

De facto, tivemos uma procura avassaladora. Para uma dotação de 90 milhões, tivemos uma procura seis vezes superior à oferta. Neste momento, já temos quase cinco mil candidaturas e, portanto, ultrapassamos os 500 milhões de euros de procura. [O número de candidaturas anunciado no início da semana passada foi de 4.434 candidaturas.]

Paralelamente, temos uma outra medida dedicada ao interior, para apoiar projetos de investimento, para empresas que já cá estejam ou outras que se queiram sediar, e o que temos registado sempre é uma procura muito superior aos recursos que colocámos. Nessa medida, tínhamos um valor de 110 milhões e a procura também já ultrapassou quatro vezes esse valor.

Sentimos que as medidas que estamos a aplicar são aquelas que os territórios precisam, e, pela qualidade da análise das candidaturas, verificamos que são boas não só em quantidade, mas também em qualidade. Mas claro que uma candidatura não é uma aprovação e apenas aprovaremos os melhores projetos.

Esses números dizem concretamente o quê? Que a pandemia veio alterar a perceção das empresas sobre o interior ou que antes não existia simplesmente flexibilidade?

Temos várias situações. Houve uma mudança de perceção daquilo que é o interior e que a pandemia veio ajudar. Hoje, verdadeiramente, as famílias e as empresas sentem as desvantagens das zonas mais congestionadas.

O interior virou sinónimo de distanciamento social...

E mudou a perceção da ideia que o interior é deserto, de que o interior é só ruralidade, o que não corresponde à verdade. Temos, nos territórios do interior, cidades de pequena e média dimensão com elevada qualidade de vida, onde as famílias se refugiaram [devido à pandemia], e que perceberam que temos boas escolas, boa oferta de serviços de saúde.

Naturalmente, temos problemas, mas o litoral também tem problemas e as grandes metrópoles também. Em pandemia, muitas famílias vieram trabalhar em teletrabalho para o interior e muitas empresas perceberam que podem laborar de outra maneira.

E, à semelhança do que acontece na Alemanha, onde temos grandes grupos em aldeias, o interior significa melhor qualidade de vida.

Grandes grupos em aldeias. Consegue dar um exemplo em Portugal?

Consigo. Altran no Fundão.

Mas o Fundão não é uma aldeia...

Não é uma aldeia, sim. Consigo pensar em Trás-os-Montes, onde temos empresas que trabalham para todo o mundo. Posso dar o exemplo de uma empresa que trabalha o fumeiro e produtos tradicionais, mas também lhe posso falar de uma empresa que é o maior produtor europeu de insufláveis.

A verdade é que nos habituamos a falar do interior, e aí os políticos têm muita responsabilidade, com um discurso dos pobrezinhos, dos coitadinhos, na hora de pedir recursos. E, portanto, acho que hoje a mentalidade e o paradigma mudaram totalmente.

Muitas empresas perceberam também que têm de mudar a sua forma de trabalhar. E muitas delas até descobriram que podem trabalhar com uma parte dos seus trabalhadores em regime de teletrabalho. A própria Administração Pública também descobriu isso. Acredito que o teletrabalho pode ser uma forma de nós trabalharmos do interior para o mundo.

"Acredito que o teletrabalho pode ser uma forma de nós trabalharmos do interior para o mundo."

Tem a esperança que esta mudança – uma abertura forçada ao teletrabalho - seja duradoura?

A pandemia continua e vai continuar em 2021 - penso que nos temos de mentalizar disso. O que a História nos mostra é que hoje tivemos a pandemia do SARS-CoV-2, há uns tempos tivemos outros problemas. Portanto, temos grande vantagem - e até para os territórios mais congestionados, que têm hoje desequilíbrios – em desenvolver os territórios do interior.

Não é por nada que, no resto da Europa, os territórios de fronteira são desenvolvidos e esta [entre Portugal e Espanha] é das menos desenvolvidas da Europa.

Se tivesse que imputar culpas, a quem é que o faria?

Acho que somos todos culpados há demasiados anos. Não é algo que seja deste século e é algo que começou há décadas e décadas. Começamos a concentrar tudo nas grandes cidades e as pessoas começaram a acreditar que tinham oportunidades de vida nas grandes cidades, e daí o êxodo não só para as grandes cidades como para outros países da Europa e do Mundo.

Tivemos períodos muito fortes de emigração e até isso hoje é uma oportunidade, porque muitos dos nossos portugueses emigraram para a Venezuela. O regresso de muitos emigrantes é o reforço da força de trabalho de muitas empresas. Ainda por cima, estamos a falar de pessoas com grande empreendedorismo, pessoas com hábitos de trabalho extraordinários.

Refere muitas vezes a qualidade de vida do interior. Não existem, contudo, muitas ofertas de trabalho para trabalhadores com mais formação. Esses, vão continuar a trabalhar para empresas do litoral.

Se for ali ao CEI, em Castelo Branco, encontra engenheiros a trabalhar para empresas tecnológicas.

Mas Castelo Branco ainda é uma grande cidade...

Sim, mas se for ao Fundão não é uma grande cidade, é uma cidade média, encontra 700 engenheiros de vários países. Se continuar a subir, temos vários exemplos.

Existe a ideia de que no interior só há possibilidade da agricultura e da floresta, destas atividades mais tradicionais - que são muito importantes e eu não desvalorizo, pelo contrário -, mas mesmo estas atividades hoje são desenvolvidas com conhecimento, com inovação. O caso da agricultura de precisão: é uma agricultura que usa as tecnologias e que é cada vez mais eficiente e produtiva e que respeita o ambiente, a utilização dos solos e da água.

Já sinalizou a possibilidade de o programa + CO3SO Emprego vir a receber um reforço de verbas, após análise candidaturas submetidas. Consegue apontar uma data para uma resposta definitiva?

A prioridade agora é uma análise rigorosa, uma análise que permita critérios harmonizados no país. E uma análise rápida. Tendo em conta a quantidade de candidaturas, tudo faremos - porque também elas são de análise simplificada - para que seja o mais célere possível. Não me vou comprometer com uma data. Teremos para a semana uma reunião para tratar este assunto concretamente.

Gostava também de referir que considerando a tendência do teletrabalho, temos também no Plano de Estabilização Económica e Social, do ministério da Coesão Territorial, uma medida de estimulo ao teletrabalho.

Nós sabemos que para as pessoas, em teletrabalho, nem tudo são rosas. A tendência para a pessoa muitas vezes se desmotivar, a dificuldade de separar a vida privada do trabalho, leva-nos a atribuir alguma importância a espaços de teletrabalho e de coworking.

Estamos a trabalhar numa medida com as autarquias para criarmos uma rede de espaços de teletrabalho de coworking, que muitas vezes nem exigem grande investimentos, os espaços já existem, convêm adaptá-los para que as pessoas possam utilizá-los.

No início do ano, a rede de Aldeias de Montanha anunciou a criação de três espaços de coworking em volta da Serra da Estrela.

Em Trás-os Montes também já temos uma rede de espaços de coworking, agora é pô-los a trabalhar em conjunto, é financiar aquelas despesas que são absolutamente essenciais.

Na semana passada, o primeiro-ministro, quando apresentou o Plano de Recuperação Económica ao Grupo Parlamentar do PS, estabeleceu “três blocos essenciais” de intervenção. Um deles foi a “competitividade e resiliência do território”. Já planeou quais as primeiras medidas a implementar?

Esse planeamento cabe ao território em primeiro lugar. Nós o que temos recebido são os projetos prioritários, através das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, das Comunidades Intermunicipais e das autarquias, que têm estado a fazer as suas estratégias para o futuro.

Quais são as necessidades sinalizadas?

Têm sido sinalizadas muitas necessidades. Continuamos a ter necessidades de investir em equipamentos sociais, equipamentos de saúde, em escolas….

Escolas? Estamos numa região em que, nos últimos anos, fecharam algumas. Monsanto tinha uma que fechou ainda há seis anos por falta de alunos. [E voltou a reabrir em 2016.] Quando diz escolas, está a falar concretamente em quê?

Há muito investimento a fazer nas escolas. O interior é muito heterogéneo e o país também. No nosso ministério, nós gerimos os Fundos Europeus não só para o interior, mas para todas as regiões do país. A coesão é cuidar não só do interior, mas também do resto do território.

Continuamos, mesmo no interior, a ter necessidade de investir em escolas. Um investimento que é físico, mas também um investimento na escola digital. Dotando estas escolas de infraestruturas que permitam às crianças e aos professores e à comunidade educativa ter novos métodos de aprendizagem e de ensino - isso com a pandemia também se tornou vital.

Depois, a regeneração urbana. Nestes territórios, temos questões de mobilidade por resolver. Uma família que não tenha viatura própria tem problemas de mobilidade grandes. Estamos a querer trabalhar no âmbito das comunidades intermunicipais no que são o transporte a pedido, transporte flexível, os serviços de proximidade. Garantir que os serviços vão ao encontro das famílias e que isso vai multiplicar infraestruturas.

Deixe-me agora inverter a questão: onde é que, tendo em conta a experiência do passado, não se devia investir?

Há investimentos que já fizemos e que não são necessários. Mas tenho alguma dificuldade de dizer onde não devemos investir porque nalguns territórios não precisamos de estradas, que é sempre o exemplo que é dado, mas noutros ainda precisamos. As estradas são uma via para a competitividade.

Se nalguns territórios não precisamos de construir mais escolas, se calhar precisamos é reorganizar e de pensar em métodos de ensino e aprendizagem, se calhar noutros territórios ainda precisamos de investir em escolas.

Cada território tem os seus problemas específicos e, portanto, o objetivo do ministério da Coesão Territorial é adaptar as medidas às necessidades dos territórios. O que é hoje necessidade da Beira Baixa é diferente das necessidades do Alto Minho. Dizer assim, globalmente, onde não podemos investir não é possível.


"O regresso de muitos emigrantes é o reforço da força de trabalho de muitas empresas."

Mudemos de tema. Há pouco menos de um ano, assumiu a liderança de um ministério feito – e estou a citar – “um bocadinho à sua medida”. A agenda que tinha prevista para a legislatura sofreu, é claro, grandes alterações devido à pandemia. É caso para dizer que veio ao engano?

Não vim ao engano, mas como todos os portugueses perdi o chão também. Quando disse que foi feito um pouco à minha medida, era um bocado [para dizer] que me sentia numa zona de conforto e que é um ministério que exige estar próximo do terreno. Eu sou uma ministra do terreno.

Tínhamos desenvolvido um pacote de medidas em fevereiro, em Conselho de Ministros. Tivemos que adaptar essas medidas ao período da pandemia. Abrimos um conjunto enorme de apoio às empresas para se adaptarem à Covid-19, para diversificarem a atividade económica. Tivemos uma procura extraordinária.

Tendo em conta as responsabilidades que ganhou, talvez o seu cargo pudesse ser agora ministra da Coesão Territorial e do Teletrabalho…

[Risos] E fui. Agora, como todos os portugueses, houve uma fase em que perdi o chão. Hoje, faço o que todos os portugueses fazem, com todas as cautelas, com toda a segurança, vou trabalhar, porque nós temos que dar o exemplo. Houve muitos portugueses que nunca deixaram de trabalhar durante a pandemia e nós foi o que fizemos, só que trabalhamos dentro de portas.

Quais as prioridades estabelecidas em fevereiro que tiveram que ser adiadas?

A prioridade era dar uma grande volta ao país. Era fazer grandes eventos com os atores no território. Para, olhos nos olhos, ouvir o que os atores no território consideravam que é prioritário para o futuro.

Uma última questão. Já refletiu sobre as eleições presidenciais que se aproximam?

Não é um assunto sobre o qual me desejo pronunciar.

Mas ficou surpresa por ter encontrado aqui [na terceira edição das Jornadas do Interior, nas Termas de Monfortinho] a candidata Ana Gomes…

É uma cidadã, é uma pessoa muito ativa politicamente e na sociedade. É uma pessoa com as responsabilidades que teve no seu grande passado e com o papel que tem na sociedade, não me surpreendeu nada.

Então, ainda não tem candidato favorito.

Mesmo que tenha, nunca o transmitirei publicamente.

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  • ze
    28 set, 2020 aldeia 13:32
    A "Pandemia" veio mostrar como estão os serviços, os paises em geral preparados para uma catástofre destas,Todos estão preparados só para a "economia",vulgo EUROS e quanto mais melhor!..........