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Bootcamp Patient Innovation

Programa de aceleração ajuda doentes e cuidadores a desenvolver soluções

23 set, 2020 - 21:16 • Ana Carrilho

Plataforma Patient Innovation, criada por dois investigadores portugueses e onde todos podem encontrar resposta para inúmeros problemas de saúde, já tem mais de 2.400 soluções partilhadas. A maior parte delas simples, mas que podem mudar vidas. Várias já receberam prémios.

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“A nossa ideia é ajudar doentes e cuidadores informais a valorizar as ideias e produtos que desenvolveram para eles próprios. É essa a lógica do Patient Innovation. No site temos cerca de duas mil e quatrocentas soluções e neste programa (Bootcamp) que começou em Lisboa, prossegue (virtualmente) em Barcelona e termina em Copenhaga, temos projetos de doze países. O objetivo é ajudar a desenvolver, antes de mais o produto e depois, a sua comercialização para que possa ter impacto no maior número possível de pessoas”, explica à Renascença o fundador da plataforma, o investigador Pedro Oliveira.

O Bootcamp tem diversas fases. Depois da seleção feita por um grupo de especialistas em que se incluem dois prémio nobel, as equipas passaram uma semana em Lisboa (31 de agosto a 4 de setembro), mais concretamente na NOVA SBE, em que fizeram a validação médica e tecnológica e a adequação problema-solução e solução-mercado, especificamente para o mercado da saúde. Além das sessões na universidade, passaram por algumas unidades de saúde da capital.

A terceira fase deveria decorrer de 14 a 18 de setembro na IESE Business School, em Barcelona, mas devido à pandemia, foi virtual. Tempo para pensar no modelo de negócio e investigar o potencial de mercado para o seu produto.

No fim de Outubro, na Universidade de Copenhaga, está a prevista a apresentação do produto - em sessões de pitch - para potenciais financiadores.

O bootcamp já deveria ter acontecido em maio, mas devido à pandemia foi adiado e encurtado: em vez de 8 meses, deverá ter apenas 4-5 meses e terminar em novembro.

Doentes e cuidadores sabem melhor que ninguém do que precisam

“Estas pessoas têm em comum o fato de terem um problema que as aflige ou a alguém muito próximo. E como base nesse problema foram capazes de criar uma solução para os ajudar. Há pelo menos uma pequena percentagem que consegue dar o passo seguinte: materializá-la num produto ou serviço e comercializá-la”, diz Pedro Oliveira.

Helena Canhão, responsável da área médica da Patient Innovation frisa que “vivemos um momento – de pandemia - em que a própria prática clínica e a forma como interagimos com os doentes está a mudar. Há soluções muito interessantes que pretendem ajudar em aspetos diferentes”.

E dá alguns exemplos: um aplicação de telemóvel em que é possível tirar fotografias a uma lesão de pele e transmiti-la para uma consulta à distância – o que já existe – mas neste caso, com informação associada e a possibilidade do doente ir registando a evolução, se tem sintomas associados, etc. Ou seja, permite um diagnóstico mais precoce e eventualmente, evitar que evolua para um cancro de pele.

Ou outra aplicação que permite identificar os locais onde é possível aceder em cadeira de rodas. Uma solução boa para os utilizadores, mas também para as autarquias. Neste caso, o objetivo é que tentar que haja comunicação a nível europeu e reunir todas as aplicações que já existem e respetivos dados.

As soluções criadas pelas equipas que incluem pelo menos um doente e/ou um cuidador informal, estão em diferentes fases de desenvolvimento. “Uma das coisas que aprendem no bootcamp é que há vários níveis e estádios. Muitas pessoas pensam apenas na parte técnica mas depois isso tem que, por um lado interessar às pessoas, por outro ser fácil de usar e eficaz. E nem todos conhecem esses passos”, refere a Diretora da Equipa Médica, Helena Canhão.

A semana de Lisboa incluiu uma sessão sobre liderança, a cargo do professor universitário, Miguel Pina e Cunha.

Frisando que “liderança é trazer novidade ao mundo e fazer as coisas mudar no sentido positivo”, classifica o projeto Patient Innovation como “exemplar, uma nova forma de ver os problemas de saúde que junta várias partes, não se baseia no conhecimento de apenas uma área”. Para Miguel Pina e Cunha, é uma forma de dar às pessoas que conhecem bem os problemas porque os vivem todos os dias, o poder de ajudar a resolvê-los.

A tecnologia ao serviço dos doentes e cuidadores

A belga Joke Van der Auwera desloca-se de cadeira de rodas e com a sua equipa está a desenvolver uma aplicação – On Wheels – que permite mostrar quais são os locais que lhe são acessíveis, tendo em conta as características da sua cadeira.

Uma app gratuita que também ajuda as cidades nas respostas para as pessoas com mobilidade reduzida que usam cadeiras. “Temos uma plataforma que recolhe todos os dados e podemos mostrar aos responsáveis quais são as ruas, lojas, restaurantes, cafés, museus, serviços, etc, que são acessíveis e os que não são. A partir daí podem fazer as adaptações necessárias e tornar os locais mais acessíveis.

A aplicação já existe há cinco anos e em menos de um ano deverá estar pronta uma nova versão. “Esperamos que cresça por toda a Europa, mas vai levar algum tempo”. Até agora não teve qualquer apoio financeiro, mas Joke espera que o bootcamp contribua e atraia o interesse de potenciais investidores.

Com um jantar do grupo marcado para o Castelo de S.Jorge, não foi fácil para Joke lá chegar. Ainda assim, beneficiou de “uma solução especial para mim, arranjaram um táxi acessível que me deixou mesmo à entrada”, confidenciou à Renascença.

O objetivo é que se deixe de arranjar soluções” especiais” e todos os que precisam possam chegar onde querem.

A equipa de Nicola Filzmoser também está a desenvolver uma aplicação que pretende ajudar as crianças com dor crónica, nomeadamente, enxaquecas.

Através de um jogo, a Happyr Health explica aos mais novos o que significa ter dores frequentes e como lidar com elas. Nicola sabe bem do que fala já que sofre de enxaquecas desde os seis anos. “Mudaram muito a minha vida, agora sei com o lidar com elas e quero passar esse conhecimento. O mesmo acontece com o meu sócio.

“Ajudamos as crianças a lidar com a dor em situações sociais, emocionalmente e não fisicamente. Ainda não há cura para as enxaquecas, há alguma medicação que resulta, mas é melhor que saibam o que fazer, para que se sintam melhor sem estar sempre a recorrer à medicação”, explicou à Renascença.

A primeira versão da Happyr Health, simples, deverá estar pronta até ao fim do ano.

Sarah Venturim Lasso e a sua equipa criaram um cinto que tem um sensor, monitorizando assim a respiração de doentes com problemas pulmonares. O controle pode ser feito em casa ou em qualquer lugar, em tempo real, durante 24h e sem necessidade de ir ao hospital. “Podemos melhorar a vida destes doentes, ajudá-los no tratamento e ajudar os médicos a perceberem melhor como é que os doentes se sentem, como é que a doença se está a desenvolver”.

Trata-se um cinto fino, com um sensor que se localiza no peito e nos lados, perto das costelas, acompanhando o movimento da respiração. Os resultados são enviados por sms para o telemóvel.

Sarah tem alergias e o sócio, Charles, problemas respiratórios. A Steup Air já tem um protótipo e a passagem por Lisboa deu-lhes a oportunidade de fazer parceria com um médico especialista português e começar a fazer testes em doentes em menos de um mês.

A AppDermis pretende ser uma ferramenta para pessoas com doenças de pele, ajudando a perceber a doença e a melhorarem a sua qualidade de vida. Males que tanto Gonzalo Fernández Picó como a sua colega de equipa, Michaela conhecem bem: tiveram ou têm dermatite atópica.

A AppDErmis é uma aplicação de telemóvel que, com a ajuda de fotos, fornece informação aos doentes sobre a evolução da doença. Gonzalo admite que precisam de algum dinheiro para desenvolver a tecnologia e por isso espera que através do bootcamp consigam dar visibilidade ao projeto e conseguir financiamento.

Esse também é um objetivo de Anxton Caballero com o projeto Heuristiks, bastante ambicioso: ajudar os profissionais de saúde a identificar os doentes em qualquer circunstância, através da impressão digital. “Por exemplo, vais na rua e tens um enfarte. Quando chegar a ambulância, recolhendo a impressão digital identificam-te e num segundo têm acesso às tuas doenças, alergias, medicação, etc. Pode salvar vidas”.

Passo a passo, inicialmente, a ideia é implementar o sistema num hospital, para todos os doentes. Numa segunda fase, ligar os hospitais de um país e posteriormente, passar ao nível europeu. Anxton garante que já têm várias unidades hospitalares disponíveis em Espanha, Alemanha e Polónia para integrar uma rede internacional. E espera consegui-lo através de subsídios europeus no âmbito do Horizonte 2020.

As dezenas de pessoas que, com os seus projetos, mereceram a seleção para participar no programa não escondem a satisfação pela oportunidade de mostrar as suas ideias, desenvolvê-las e se possível, torná-las comerciáveis e acessíveis a muitas mais pessoas que todos os dias enfrentam problemas semelhantes.

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