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Empresas que nasceram do confinamento

A Covid-19 acelerou a passagem da Nevaro da universidade para o mercado

23 set, 2020 - 08:05 • João Carlos Malta , Joana Bourgard (vídeo) e Joana Gonçalves (infografia)

Há cerca de dois anos que quatro alunos da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa estavam a desenvolver um projeto para curar fobias através de realidade virtual e realidade aumentada. A pandemia veio baralhar tudo e obrigou-os a reinventarem-se. Apareceu a Nevaro, que viu no novo coronavírus um propulsor para arrancar. Durante esta semana, a Renascença publica um conjunto de histórias de empresas que nasceram entre 19 de março a 2 de maio, período em que o Governo decretou o confinamento do país.

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A Covid-19 acelerou a saída da Nevaro da universidade para o mercado
A Covid-19 acelerou a saída da Nevaro da universidade para o mercado

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Na cadeira de neurociências, Rita e Francisca começaram a projetar uma ideia a que mais tarde vieram a dar o corpo de uma empresa. O objetivo destas duas alunas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa era tratar fobias, com a ajuda da biomédica e da gamificação.

Já havia testes experimentais a serem feitos em hospitais, mas a pandemia suspendeu-os num ápice. Não se perdeu tudo, transformou-se. Foi exatamente o trabalho que estavam a fazer que lhes permitiu perceber o que é que na área de saúde era necessário quando a Covid-19 chegou, e acelerar o processo para (finalmente) constituírem uma empresa.

À Renascença, Francisca Canas, de 24 anos, narra o início da evolução cronológica dos factos. “Nós estávamos a realizar testes de prova de conceito e de piloto, no Hospital da Luz, mas com o surgimento da pandemia, tudo isso ficou em 'standby'.

“Foi tudo cancelado por tempo indeterminado. O projeto inicial ir-se-ia arrastar indeterminadamente até à fase em que teríamos comprovação científica de tudo isto para certificação médica”, concretiza Rita Maçorano.

Não parar, adaptar

As novas condicionantes levaram a um momento de reflexão sobre o que fazer. Mas as estudantes não pararam, adaptaram. “Tivemos de nos reinventar e adaptámos a plataforma que estava a ser utilizada no Hospital da Luz para a aquisição dos sinais fisiológicos para outro propósito”, lembra a jovem de 23 anos.

O grupo começa a perceber, através de entrevistas e contactos com pessoas da área da saúde, que havia uma necessidade para colmatar: monitorizar o quadro sintomatológico da Covid-19. O passo seguinte foi reajustar a plataforma para registar sinais vitais e indicadores do vírus: a temperatura, a tosse, e a capacidade respiratória.

“Adaptámos a plataforma e criámos a Nevarforcovid”, afirma Rita Maçonaro. Tudo num curto espaço de tempo, “porque a necessidade era emergente”. De repente foi necessário criar uma empresa, e tornar tudo mais formal. A isso obrigava a premência de dotar a plataforma dos protocolos necessários de proteção de dados.

Assim, a 27 de abril deste ano, em plena pandemia, nasceu a Nevaro. É uma das 1.226 empresas que foram criadas em Portugal durante o período de confinamento, entre 19 de março e 2 de maio, segundo os dados que a consultora D&B forneceu à Renascença tendo por base informação do Ministério da Justiça.

Os números de novos negócios revelam um decréscimo de 71% relativamente ao mesmo período do ano passado. A pandemia pôs fim a uma tendência positiva, na criação de empresas de que os últimos anos foram exemplos. Os setores dos transportes e dos serviços foram os que mais sofreram.

Se há oportunidade, é fazer na hora

“Queríamos disponibilizar isto na hora, e, por isso, constituímos a empresa. Fizémos todo o processo com uma firma de advogados para termos a plataforma de 100% ‘compliance’ para poder ser usada por toda a gente. Disponibilizámos a plataforma e estamos a aplicá-la a vários cenários diferentes”, resume Rita, co-CEO da Nevaro.

Francisca, a outra CEO, descreve o conceito da plataforma que deu origem à empresa. “É muito intuitiva, e pode ser utilizada tanto pelos cuidadores como pelos utentes dos lares ou pelo público em geral. Temos vários perfis para cada caso e a utilização é bastante simples”, adianta. “A pessoa introduz os seus dados vitais. Faz o registo bi-diário. Depois de inserir todos os dados, pode ver a sua evolução ao longo do tempo.”

Caso os valores fujam dos parâmetros definidos, o utilizador é aconselhado a consultar os serviços de saúde para conferir quais os passos que deve tomar.

De momento, a aplicação está a ser utilizada em alguns lares e residências para idosos de forma mais continuada, em fase piloto (gratuito), em parceria com uma empresa da área de tecnologia para geriatria.

O projeto-piloto durará até novembro ou dezembro, altura em que se analisará o sucesso da utilização da app. “Caso seja positivo, negociaremos uma parceria comercial com esta empresa, de forma a co-comercializar a aplicação”, explica Rita.

O processo de formalização da Nevaro, recorda a jovem de 23 anos, não foi tarefa fácil.

Foi complicadíssimo, porque a nossa equipa é muito científica, com 'background' de engenharia ou de biomédica, e outros de mecânica. Esta parte, apesar de termos 'background' em empreendedorismo e negócio, foi uma aventura”, afiança Rita.

Mais projetos… vem aí o Holly

Dois dias depois estava criada a empresa. Houve algum receio, lembra Rita, até porque o produto inicial era muito diferente. “Há sempre o receio de isto não resultar. Vamos ter mais despesas, e depois não conseguirmos dar resposta. Para sermos sinceras, decidimos fazer isto porque é algo maior”, declara a empreendedora que com a Nevaro na mala, correu vários países europeus, e até já viajou para a China para participar em várias feiras e competições de start-ups.

Rita e Francisca são metade da equipa, a outra metade é formada por Miguel Lopes e André Manso.

André é responsável por toda a parte de desenvolvimento tecnológico da empresa. É ele que diz que o grupo não quer ficar por este único produto.

Na calha está já outra ideia. O stress provocado pelo intenso trabalho para arrancar com uma nova empresa, e as dificuldades do trabalho remoto que obrigaram a várias horas de trabalho, fizeram com que alguns elementos da equipa começassem a dar sinais de esgotamento. Mas o que podia ser só um problema levou estes jovens a uma nova solução. E assim apareceu uma segunda aplicação: a Holly.

“A maior parte da população, segundo diz a OMS, sofre de algum distúrbio mental, cobre uma percentagem gigantesca da população. Tentámos trazer a ciência e as estratégias que permitam lidar com essas realidades no dia-a-dia, sendo que nem todos vão a um psicólogo regularmente”, avalia André, de 26 anos.

Rita concretiza e detalha: “São estratégias de psicoterapia como o ‘tracking’, ou um pequeno diário para refletir sobre situações das nossas vidas.

Em resumo, a aplicação tenta desenvolver estratégias de psicoterapia que seriam feitas com psicólogo, e substituí-los por um guia mais digital com estratégias de jogo. “Dar murros para libertar energia, e relaxamento. Damos também métricas objetivas de como a pessoa está”, identifica.

A Holly faz ainda uma classificação “em forma de semáforo” do nível de ‘burnout’ do utilizador. “Isto não é para substituir os cuidados de saúde, mas avisamos a pessoa que se estiver entre o amarelo e o vermelho devem procurar ajuda. Vemos a saúde como um todo.”

O objetivo principal é o de monitorizar o “burnout” em ambiente de trabalho. Há já algumas conversas iniciadas com possíveis clientes, que estão interessados em recolher esses dados.

Estamos a falar de grandes grupos empresariais que querem proporcionar melhores condições de trabalho. Ao mesmo tempo que se consciencializam do estado de ansiedade dos seus funcionários, irá levar a que adequem as suas intervenções para diminuir esses níveis de ansiedade e percebam que necessidades os funcionários estão a esconder”, diz André Manso.

“Conseguimos comprovar com os nossos testes de que conseguimos reduzir a ansiedade 6, 4 vezes mais rápido do que uma terapia normal”, assegura Rita.

Investir no futuro

O momento é de grande investimento pessoal dos quatro jovens. André diz que a ideia é “ter uma fonte de investimento mais formal”, de forma a haver “quantias mais significativas que permitam acelerar o desenvolvimento” da Nevaro.

Não é o que se passa até ao momento, em que o grupo está ainda na fase de “doar tempo" à empresa. “Não tiramos um rendimento que se qualifique como um salário”, explica o engenheiro.

Nada que os demova para já. O ideal com que acarinham a empresa é de momento maior. “Todos nós mantemos esta ânsia de contribuir para esta causa, porque achamos que é nobre o suficiente para o esforço”, remata André Manso.

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