Tempo
|
A+ / A-

Postal de Quarentena – Cardiff

Os cinco meses mais importantes (e menos memoráveis) da minha vida

22 set, 2020 - 06:33 • Manon Hammond*

O País de Gales registou desde o início da pandemia cerca de 20 mil casos, dos quais resultaram 1.603 mortes, uma fração dos 41.788 óbitos no Reino Unido todo. Neste postal uma aluna explica como a sociedade demorou a perceber a gravidade da situação.

A+ / A-

Leia também:


Os últimos cinco meses foram sem dúvida dos mais importantes e impactantes que alguma vez vivi, mas o tempo tem sido francamente pouco memorável. Os briefings semanais, tanto de Westminster como de Cardiff, fundem-se todos num rol vago de políticos atrapalhados, cientistas frustrados e o primeiro-ministro do País de Gales a divagar sobre o quanto gosta de queijo. A matéria escolar passou do currículo do ano passado para o deste em alturas diferentes para as diferentes cadeiras, deixando a maioria dos alunos num limbo sem nunca terem acabado o 11.º, sem saber se alguma vez íamos acabar o 12.º e passando grande parte das “férias de Verão” a marrar a matéria do 12.º, não fosse ser decretado outro período de confinamento mal o ano letivo começasse.

À medida que os dias se fundiam, um após outro, durante a quarentena, o tempo tornou-se cada vez menos importante. Contudo, alguns momentos permanecem comigo, momentos que ajudam a fornecer algum tipo de estrutura à minha mente quando olho para trás. Cada um destes eventos representa diferentes fases da minha vida durante a pandemia e concedem uma boa perspetiva de como é que os Governos do Reino Unido e do País de Gales lidaram com o vírus.

O primeiro ocorreu no início de março. Tinha viajado para Londres para um concurso coral anual no Festival Hall, em Southbank. Nessa altura o vírus dominava os media, mas as pessoas continuavam a achar que era um assunto que não nos ia afetar muito, e que os efeitos apenas seriam marcantes na China. Em retrospetiva, acho que a maioria das pessoas sabia que o vírus nos ia atingir com alguma gravidade, mas só não queriam acreditar, não queriam acreditar que o ritmo confortável das suas vidas iria ser interrompida e posta em causa por uma ameaça sobre a qual nunca tinham tido de pensar antes. Seja como for, lembro-me claramente de o coronavírus ser um tema comum de conversa, mas que raramente era levado muito a sério. Quando uma soprano se queixou de dores de barriga e de febre foi recebida com um grito de gozo de “Oh! Corona!” e “Afastem-se, ela pode ter o toque da corona”, e quando fomos receber o nosso troféu de segundos classificados e os juízes insistiram em bater com os cotovelos em vez de nos apertarem as mãos, toda a sala se desatou a rir. As piadas com os toques de cotovelo e com a corona eram uma maneira de fazer troça de algo que era imprevisível para todos e talvez mascarasse algum medo.

O segundo evento aconteceu relativamente pouco tempo depois desse, embora sinto que tenham ocorrido em mundos diferentes no que diz respeito à nossa atitude para com o vírus. Nessa altura o vírus já era bastante mais importante no País de Gales, com casos confirmados e números a aumentar. As escolas em Inglaterra já tinham começado a fechar e as nossas conversas na sala de aula eram sobre a injustiça de os alunos de colégios privados ingleses estarem a acabar as aulas enquanto nós continuávamos a ter de estar ali!

Alguns dos nossos colegas começaram a entrar em quarentena por eles, ou algum membro da família, terem sentido sintomas. Uma das minhas amigas mais próximas estava em isolamento com a mãe; por isso tomámos a iniciativa de ir ao Taco Bell mais próximo para comprar a sua comida favorita para deixar à porta. Enquanto esperávamos pela comida recebi uma notificação de “última hora” e li rapidamente o título: “Ministro da Educação do País de Gales diz que os exames finais não se vão realizar este ano”. Eu e os meus amigos ficámos ali parados, em total silêncio. Tenho quase a certeza que tinha desejado, numa altura ou noutra, que os exames fossem cancelados, sobretudo enquanto recitava a conjugação do verbo “avoir” ou resolvia problemas complexos de frações e pensava que daria tudo para passar o dia em casa a ver “Netflix” em vez de fazer isto – mas naquele momento ninguém sabia como reagir. Queríamos festejar, mas ao mesmo tempo queríamos saber o que é que isto significaria em termos de notas e preparação. Os exames estavam a ser adiados ou mesmo cancelados? Como é que a escola iria funcionar durante o confinamento? Como é que as universidades iriam lidar com uma fornada de alunos sem notas?

Gostaria de poder dizer que estas questões mereceram respostas eficientes e claras, mas não é o caso. Os meses que se seguiram foram polvilhados de declarações, contradições e afirmações vagas, com mensagens contrastantes vindas dos diferentes governos no Reino Unido. Não me interpretem mal, a separação de poderes entre Westminster e o Senedd [Parlamento autónomo do País de Gales] acabou por ser muito importante para Gales durante a pandemia. As medidas implementadas para lidar com as nossas taxas de infeção foram bastante fortes comparadas com as introduzidas pelo Governo conservador de Westminster e isso serviu para recordar as pessoas de que o País de Gales é capaz de se governar sozinho – mas não foi tudo pera-doce. A forma tanto como Westminster e o Senedd lidaram com a pandemia foi frequentemente pouco clara e ineficiente. Perdeu-se muito clareza quando o Governo trabalhista de Gales tomou medidas que o próprio primeiro-ministro Keir Starmer tinha criticado anteriormente em relação a Londres, tal como apoiar o algoritmo de resultados, mostrando que mesmo os políticos mais maduros não eram capazes de reconhecer os poderes autónomos do País de Gales.

A pandemia revelou um elemento da política do Reino Unido que muitas vezes passa despercebido, enquanto nos focamos em Boris Johnson e nas ações do seu Governo de Westminster em vez de nos poderes individuais do País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte. Talvez à medida que nos vamos focando mais nestes governos a forma como as pessoas encaram a política mude também, mesmo depois de a pandemia chegar ao fim. Ou então talvez tudo volte ao normal enquanto tentamos todos, desesperadamente, regressar a um sentimento de normalidade depois de meses de confusão e de diferença.


*Manon Hammond tem 17 anos e vive em Cardiff. Frequenta a escola Ysgol Plasmawr e está a preparar-se para os exames finais (que podem ou não acontecer) de acesso à universidade.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.