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Administradores Hospitalares

Alexandre Lourenço diz que Serviço Nacional de Saúde continua a falhar aos doentes não-Covid

15 set, 2020 - 10:57 • Olímpia Mairos , Miguel Coelho

O diagnóstico é feito pelo presidente da Associação de Administradores Hospitalares, no dia em que o SNS comemora 41 anos. Alexandre Lourenço esteve na Renascença, nas Três da manhã, e defendeu a aposta num plano integrado para recuperar milhares de consultas e cirurgias que foram adiadas por causa da pandemia.

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O presidente da Associação de Administradores Hospitalares, Alexandre Lourenço, defende a criação de um plano integrado para recuperar milhares de consultas e cirurgias que foram adiadas por causa da pandemia.

Em entrevista à Renascença, Alexandre Lourenço defende, por outro lado, a criação de um sistema de cores, à semelhança dos alertas da Proteção Civil, para que as pessoas conheçam e participem na evolução da Covid-19.

O Serviço Nacional de Saúde completa hoje 41 anos de vida. O Presidente da República assinalou a data com uma mensagem onde elogia os profissionais de saúde e defende um reforço dos meios do SNS para responder ao grande desafio dos próximos tempos.

Há quem fale já numa segunda vaga de Covid-19, há quem diga que é apensa uma nova fase. O certo é que os casos estão a aumentar. Acha que que o SNS está mais bem preparado?

Temos obrigação de estarmos mais bem preparados, uma vez que, se em fevereiro, março, abril ainda pouco conhecíamos da Covid-19, hoje já temos uma perceção bastante mais clara de como é que devemos acompanhar estes doentes e, de certa forma, de como é que o sistema deve estar organizado para enfrentar esta doença.

Evidentemente, contamos com várias fragilidades. E a maior fragilidade neste momento são os doentes não Covid, que continuam a ter muitas necessidades que não estão a ser satisfeitas pelo SNS. Aliás, a nossa grande preocupação é essa, para além da preparação para esta época que se vai iniciar a partir do outono, e que é da preparação de conviver com este aumento da incidência da Covid-19 e também das infeções respiratórias. Ainda estamos um bocadinho num período de janela, em que podemos reforçar esta resposta aos doentes não Covid, porque, daqui a algum tempo, certamente, será mais difícil.

Quando refere que, provavelmente, não foi feito tudo o que podia ser feito para recuperar as cirurgias e consultas canceladas por causa da pandemia, que dados concretos é que pode adiantar sobre essa recuperação, ou não, do tempo perdido por parte dos hospitais?

Durante o mês de março e abril, a opção foi redirecionar os recursos existentes para a Covid-19 e essa opção revelou-se acertada, uma vez que não tivemos nenhuma situação de rotura do sistema. Durante esse período, o que fizemos foi um adiamento de consultas, cirurgias. Evidentemente, foi difícil parar o sistema e redirecioná-lo, mas hoje está bastante mais difícil reativá-lo. Estamos a falar a nível, por exemplo, dos médicos de família, de mais de quatro milhões de consultas presenciais que não foram realizadas, mais de dois milhões de contactos e de consultas de enfermagem, mais de um milhão de consultas hospitalares, mais de 100 mil cirurgias. Portanto, estamos a falar de um volume de cuidados que não foram prestados e que, necessariamente, vão ter impacto na saúde dos portugueses.

Mas acha que os hospitais estão a conseguir recuperar o tempo perdido, as consultas adiadas, cirurgias? É possível recuperar?

Há muitas destas atividades que não são recuperáveis, porque elas deviam ter ocorrido naquele momento certo, naquele momento em deve ser feito o diagnóstico e que o início do tratamento pode ter a sua eficácia. Evidentemente, também os hospitais e os cuidados de saúde primários têm vindo a recuperar a sua atividade aos poucos. Mas continuam em défice, ou seja, o "stock" que nós temos de cuidados continua a aumentar e esse é um dado preocupante.

Temos vindo a alertar, desde o mês de abril, para a necessidade de ter um plano concreto de resposta a estes doentes, aos doentes não Covid, até pela definição clara do que é a resposta aos doentes Covid. Continuamos a acreditar que deveria existir um planeamento mais integrado que envolvesse não só os hospitais, mas também os cuidados de saúde primários, o setor social. E dou nota, por exemplo, que nós, em maio, lançamos um estudo sobre o que nós chamamos internamentos sociais. Os doentes continuam nos hospitais por não terem respostas na comunidade, respostas familiares, de unidades residenciais e reparamos nesse estudo que 20% dos doentes Covid, um em cada cinco, podia ter tido alta hospitalar, mas não tinha tido resposta na comunidade. E também para os restantes doentes, os não Covid, estamos a falar de um em cada dez. Este tipo de imperfeição do sistema, de falha do sistema, que leva a consequências quer na saúde das pessoas que continuam internadas, mas também em termos de libertação de recursos para outros doentes serem tratados, é um problema de sistema e deve ter uma resolução integrada, por exemplo, com os cuidados continuados, com o setor social.

Há uma necessidade de repensar o SNS numa lógica mais integrada, não só da prestação de cuidados de cada hospital per si, de cada cento de saúde per si, mas numa lógica de maior integração com a comunidade, com o setor social, com as autarquias, com as forças de segurança. E eu creio que para o futuro, não só para enfrentar a Covid-19, é necessário realmente repensar o SNS para mais 40 anos.

O problema é que a urgência da Covid e dos outros problemas não Covid que salientou se coloca agora e não nesse futuro mais distante. Nesta altura, não há ainda uma grande pressão nos hospitais, porque há menos internamentos por causa da Covid-19. Acredita que esta situação vai manter-se ou arriscamos a ter nos próximos meses uma situação semelhante à verificada em março e abril?

Creio que temos aqui uma janela de oportunidade de implementar algumas reformas, aproveitando este momento também de grande atenção sobre o SNS. Respondendo à sua pergunta, parece-nos óbvio que vai existir uma maior pressão sobre o sistema de saúde e nós temos que estar preparados para o pior, para que consigamos mitigar o que venha a suceder. Continua a existir uma grande incerteza, os hospitais estão a organizar-se para responder a essa incerteza, mas continua a faltar uma visão mais integrada que permita envolver os portugueses de uma forma participativa nesta resposta.

Perdeu-se tempo nestes últimos meses?

Eu creio que podíamos ter utilizado melhor o tempo. Vou-lhe dar um exemplo que os portugueses conseguem perceber com alguma facilidade. Todos nós, hoje, por exemplo, com as ondas de calor, mesmo com os avisos da proteção civil, conhecemos o sistema de cores, o aviso laranja, o aviso encarnado, todos sabemos que temos que ter algum comportamento de acordo com a evolução. Em relação à Covid, fazia todo o sentido que a nível regional, a nível distrital, desenvolvêssemos este tipo de modelos para as pessoas perceberem, por um lado, qual é que é a evolução da pandemia, que vai necessariamente ter impacto sobre o seu comportamento, porque o comportamento de cada um de nós vai ser muito importante para conseguirmos responder à Covid-19, e, por outro lado, para as pessoas perceberem também a capacidade do sistema de saúde responder.

Ter um mapa, por exemplo, por freguesias ou concelhos, em que essas cores fossem aplicadas consoante o grau de contágio?

Ou até por distrito, em que as pessoas pudessem participar e perceber de uma forma bastante simples como é que a pandemia está a evoluir e o que é esperado delas, perceberem se os serviços de urgência estão disponíveis, se devem ir ao médico de família, se devem ligar para a linha de saúde 24. Esse tipo de modelos envolve mais a população, responsabiliza a população e, na prática, conseguimos um melhor controlo de uma pandemia, que neste caso vai depender muito do comportamento individual.

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