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Pandemia de Covid-19

Do jejum intermitente ao paleo. Confinamento pesou na balança e abriu corrida às dietas

14 set, 2020 - 13:41 • Sandra Afonso

Depois de meses confinados em casa, os portugueses procuraram ajuda para perder peso junto de personal trainers, nutricionistas e, claro, diferentes receitas de dietas. Há para todos os gostos, mas nem todas são científicas, alertam especialistas. E estamos a trocar "pratos típicos saudáveis" por outros que "não têm interesse nenhum nutricional".

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Mais tempo em casa e perto da comida, menos tempo no ginásio ou em atividades com exigência física implica menos desgaste calórico e aumento de peso, para a maioria. Segundo a nutricionista Ágata Roquette, durante o confinamento o peso dos portugueses poderá ter aumentado "3 a 5 kg no máximo". Quilos que podem somar-se a outros que já estivessem a mais e, aí sim, a situação começa a complicar-se.

Este verão a procura por nutricionistas e personal training aumentou 50%, segundo um estudo da plataforma Fixando. No entanto, a maioria (78%) admitiu não ter um plano alimentar e recorrer a medicamentos e suplementos para perder peso.

Apesar dos vários alertas sobre o impacto na saúde do excesso de peso, apenas 8% procuram diminuir os quilos por questões de saúde. Pouco mais de um terço, 38%, justifica a procura de ajuda com a reeducação alimentar. A maioria, mais de 60%, procuram estes profissionais para aumentar a resistência e a tonificação muscular.

Ainda em confinamento, já havia cadeias de ginásios on-line e profissionais a dar aulas individuais e coletivas à distância. O mesmo aconteceu com os nutricionistas. “Passado um mês do confinamento começaram a procurar ajuda ou pelos quilos e descontrole que já tinha acontecido na quarentena ou porque acharam que era a altura para começar a fazer qualquer coisa porque tinham mais tempo e cabeça para programar", diz Ágata Roquette. “Durante uma fase muita gente achou que não ia haver praia, nem férias, mas quando se aperceberam que afinal ia haver tudo isso e que íamos passar do confinamento para 'pernas à mostra', já que o verão estava a chegar, procuraram-me mais, aumentou muito o número de consultas nessa fase”, diz.

As dietas da moda

Há quem corte caminho por atalhos, o que nos dias que correm significa muitas vezes mergulhar na World Wide Web, nas redes sociais e no mundo dos influencers. Conforme o tópico, há sempre um "amigo/a" disponível para ajudar, com a melhor dica, já validada. Todos os anos surgem novas ideias, produtos e formas de emagrecer, algumas são cíclicas, como no vestuário, voltam a ser tendência passado algum tempo. Invariavelmente, todas têm uma coisa em comum, são passageiras.

A última moda é a dieta do Jejum Intermitente, que divide os profissionais: implica passar longos períodos sem comer (entre 12h a 36h), normalmente são 18 horas. Os defensores garantem que conduz à perda de peso, reduz a inflamação, previne doenças crónicas, aumenta a longevidade e a vitalidade, reduz o stress e melhora a concentração. A prática é milenar e está sobejamente registada numa vasta bibliografia. Várias religiões impõem ou aconselham o jejum, como o cristianismo, o islamismo, o judaísmo e o budismo.

Isabel do Carmo, especialista em Endocrinologia, não vai em modas mas desta vez diz estar rendida: "O jejum intermitente tem uma base científica, ao contrário de tudo o que tem aparecido." Uma conclusão por experiência própria, a médica admite que chegou a estar 30 dias sem comer em Custóias em 1979, mas é também o resultado da pesquisa para o mais recente livro, "Alimentação, Mitos e Factos - Uma Perspetiva Científica", editado este verão pela Oficina do Livro.

Ainda pelos livros, no top de vendas na categoria não ficção assistimos este verão a um duelo, revelador da preocupação crescente dos consumidores com a alimentação e o peso, mas embora as autoras partilhem muitos conceitos, divergem categoricamente sobre os benefícios do Jejum.

Em "O Poder do Jejum Intermitente" (Ed Planeta), Alexandra Vasconcelos, farmacêutica e terapeuta natural integrativa, apresenta um guia prático com os diferentes tipos de jejum, vantagens, efeitos e receitas. A especialista defende que corrige disfunções metabólicas, promove o bem-estar, previne doenças autoimunes, cardiovasculares e oncológicas e fomenta o envelhecimento saudável.

Mas muitos nutricionistas mantêm-se céticos sobre o jejum. Ágata Roquette, em "O Grande Livro da Alimentação Saudável" (Ed Contraponto), publicado também este verão, lembra que "estes resultados ainda não foram devidamente testados em seres humanos, apenas em ratos". À Renascença é perentória: "Nunca pedi nem pedirei a nenhum paciente que faça jejum intermitente. No entanto, se me aparecer algum paciente com essa ideia de fazer o jejum, dir-lhe-ei que não me parece um plano de emagrecimento, mas sim um estilo de vida que vão ter que adotar para a vida, porque senão acredito que recuperem o peso todo outra vez." A nutricionista acredita que é mais uma dieta ioiô, em que depois de uma perda rápida de peso a pessoa recupera os mesmos quilos e mais alguns. "E a minha dúvida neste momento ainda é, será que é mesmo saudável esse estilo de vida, será que tudo o que se diz está provado ou é só mais uma moda? Não sei responder ainda neste momento", admite.

Esta pode ser a dieta do momento, mas está longe de ser a única. Entre as mais faladas, destaque ainda para a dieta do Paleolítico ou Paleo, que recua 330 gerações para apostar nas proteínas, frutas da época, sementes e na quase abolição dos hidratos de carbono e lacticínios - recria o regime alimentar das sociedades caçadoras-recoletoras de há dez mil anos. A dieta Cetogénica (Keto), rejeita hidratos de carbono e açúcares, dá primazia às proteínas e aos lípidos saudáveis, para induzir o corpo a um estado de cetose e obrigar o organismo a recorrer às reservas de gordura. O regime Dash limita o consumo de gorduras más em detrimento das boas, açúcares e, acima de tudo, de sal. A dieta da proteína, semelhante ao regime de Atkins, é rica em proteína e com baixo teor de gordura e de hidratos de carbono, o pão está proibido. Há ainda quem se limite a beber um copo de água fria com sumo de meio limão três vezes ao dia ou água morna com limão em jejum. Muito populares são também as dietas detox, que misturam frutas, vegetais e suplementos em sumos e batidos, as dietas que contam calorias ou as que se baseiam num único tipo de alimento, como o abacate ou a tapioca.

Ágata Roquete afasta eventuais perigos de seguir as dietas da moda por uma ou duas semanas. O problema começa quando se prolongam por muito tempo, porque “podem trazer algumas carências nutricionais ou, muitas vezes, levam a pessoa a desistir pela restrição ser tão grande e, nesse caso, engorda tudo outra vez, rapidamente, e ainda aumenta mais um bocado o peso.”

Os portugueses estão a substituir a dieta mediterrânea?

Portugal tem a fama, mas terá ainda o proveito de seguir uma das mais equilibradas dietas do mundo? Ágata Roquette defende que "os portugueses sabem o que é comer bem, temos acesso a imensa comida variada e interessante, mas não aproveitamos bem estes factores". A nutricionista alerta que "não estamos a mudar para melhor".

Segundo a Direção Geral da Saúde, as duas grandes causas para o aumento da obesidade são o sedentarismo e a alimentação inadequada. Ágata Roquette acrescenta o stress em que hoje vivemos e as horas de trabalho acima do normal, que fazem com que a alimentação tenha ficado "descuidada". Na prática, estamos a trocar "pratos típicos saudáveis" por outros que "não têm interesse nenhum nutricional".

Este é um fenómeno global que, em Portugal, se intensificou nas últimas décadas, com o aumento do poder de compra e mais e melhores acessos ao mercado externo - são os alimentos processados, uma indústria multimilionária que continua em expansão, apesar de se multiplicarem os alertas pela saúde e ambiente.

"Fomos perdendo a alimentação mediterrânica que sempre nos foi característica e fomos deixando entrar hábitos que não tínhamos há uns anos atrás", avisa a nutricionista. "Consumo de refrigerantes, comida já feita, embalada, processada, pronta a pôr no forno ou a fritar não era de todo os nossos hábitos há uns 30 anos (quando era uma miúda)".

Ágata ainda se recorda da primeira vez que comeu fast-food, tinha 10 anos e vivia em Barcelona. Em Portugal na altura não seria possível. No entanto, admite que hoje, "aos 2-3 anos já todas as crianças experimentaram e gostaram de ir a restaurantes fast-food." Acrescenta que os tempos são outros. Não critico, mas há que voltar ao que éramos a maior parte do tempo e de vez em quando cometer os nossos excessos, seja em fast-food ou noutros tipos de alimentos. Mas, sinceramente, com tanta comida boa cá, seja doçaria conventual, queijos, pão, pratos típicos maravilhosos, os excessos deveriam seguir neste estilo e não em fast-food."

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