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“Comunicar e sorrir através dos olhos”. A nova competência escolar

14 set, 2020 - 10:35 • Olímpia Mairos , Miguel Coelho

Cécile Domingues é psicóloga e psicoterapeuta, acompanha crianças e jovens em idade escolar e esteve nas Três da Manhã, para falar sobre o regresso às aulas. Numa altura em que pais e professores têm partilhado muita ansiedade, muitas preocupações sobre o uso da máscara, a redução dos intervalos, as refeições, os contactos, Cécile Domingues deixa conselhos para lidar com a nova realidade.

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Pais e professores têm partilhado muita ansiedade, muitas preocupações sobre o uso da máscara, a redução dos intervalos, as refeições, os contactos. É toda uma realidade nova a que temos de nos adaptar neste ano letivo, a partir de hoje, com muita mais gente na rua, também nos transportes, com muitos mais contactos e numa altura em que há uma preocupação adicional, que é o facto de os casos de Covid-19 terem voltado a aumentar em Portugal de forma preocupante. Um conselho para os pais que estão, nesta altura, muito ansiosos, a preparar-se para levar os filhos à escola.

O primeiro conselho, para já, não é tanto para as crianças. É mesmo para os pais. Tentar manter uma certa calma, apesar de todas as medidas, todas as preocupações e cuidados que devemos ter, mas, no fundo, é conseguir transmitir também à criança e ao jovem uma certa calma, relativamente a tudo aquilo que deve também respeitar a nível de normas. E lá está, eu costumo dizer que a vida nunca para e, apresar de tudo isso, temos que, efetivamente, continuar com o nosso dia a dia, retomar a nossa rotina de uma forma diferente sim, é verdade, mas a vida tem que continuar.

Quando se começou a falar do regresso presencial à escola, os números da Covid em Portugal estavam bastante controlados. Agora estão a aumentar muito, teme-se que continuem a crescer, como é que os pais devem gerir esta informação que lhes chega e que chega também às crianças, como é que podem ajudar os filhos a perceber que podem ser um fator de risco, sem os assustar?

Para já, a comunicação é fundamental. Agora é importante também saber adequar a comunicação ao desenvolvimento da criança, a idade da criança. Não podemos comunicar através do medo, nunca ter uma atitude, ou melhor, uma comunicação através do medo. Nunca dizer à criança “não faças isso” ou” desinfeta já as mãos” ou “não te aproximes muito do amigo”. É importante também envolver a criança neste processo de compreensão do que é o vírus, o porquê de termos que usar a máscara, manter o distanciamento social, da higienização das mãos, todos estes cuidados devem ser transmitidos, mas de uma forma calma e ponderada e de acordo com o desenvolvimento da própria criança.

E para os professores? Imagino que para muitos também a ansiedade nesta altura será grande... Depois, há este problema da máscara, não é fácil falar com a máscara colocada, é mais difícil comunicar, até reconhecer os alunos. Pode considerar-se a máscara um entrave ao ensino? Como é que os professores devem lidar com esta questão?

Eu sempre acreditei que as crianças e jovens têm uma maior capacidade de adaptação relativamente aos adultos. Para nós é mais difícil, efetivamente, esta questão da máscara. Para todos é muito importante, quando comunicamos, também perceber e ver a cara das pessoas, a boca, a expressão facial. E neste momento não vamos ter. Neste momento vamos ter que comunicar através dos olhos, costumo dizer vamos sorrir também através dos olhos. É efetivamente uma fase de adaptação, não é fácil para ninguém, tanto para os professores como para os alunos. Agora o importante é tentar fazer com que esta fase não seja uma fase de bloqueio. As pessoas não podem ficar bloqueadas a pensar no que está aqui a incomodar e que está diferente. Temos que conseguir dar a volta, tentar adaptarmo-nos. A máscara, efetivamente, deve ser usada, porque são medidas de segurança e precaução. Temos que tentar dar a volta e tentar ultrapassar da melhor forma, apesar destas dificuldades que possamos ter.

Uma das grandes dúvidas dos pais é se se vai conseguir controlar os alunos dentro da sala de aula, porque é normal esta indisciplina nas nossas escolas. Neste contexto de pandemia, quais são os desafios para os professores?

Os desafios passam mesmo por aí, o manter as regras na sala de aula. Obviamente, e não nos iludamos, que as coisas não vão correr cem por cento bem, relativamente a esta questão do cumprimento das normas. É uma fase nova, os alunos estiveram afastados durante seis meses do contexto escolar fisicamente, ao nível da sala de aula, e este regresso também traz uma maior ansiedade e maior stress, porque existe aqui uma readaptação devido ao tempo também de ausência e uma adaptação às novas regras.

O que é importante e fundamental é esta questão de todos os dias, apesar de perceber que seja mesmo cansativo para todos, todos os dias tentar reforçar sempre esta ideia dos cuidados que se deve ter até um ponto que, efetivamente, tudo isso se torna um hábito. Agora, inicialmente, deve ser recordada à criança o porquê destas normas, sem fomentar medo, mas simplesmente fazer entender às crianças que são normas importantes de segurança para todos, tanto para elas como para os outros, e é importante também ter esta atitude de relembrar até criar um hábito de normas sociais, de atitudes sociais.

Se os pais ou os professores notarem que há maior ansiedade nas crianças, o que é que devem fazer?

É importante estar atento aos comportamentos dos alunos e dos filhos. E quais são os primeiros comportamentos que possamos observar? - É os alunos mais irrequietos, mais ansiosos, preocupados. Quando falamos de crianças, obviamente que as crianças têm maior dificuldade em expressar o que sentem, mas também se nota muito pelo comportamento e pelas atitudes que elas possam ter. E, então, é importante estar atento a este tipo de comportamentos, de preocupações.

E quando aparecem?

Esta ansiedade consegue ser aliviada, vamos dizer assim, através da conversa, da comunicação. Os pais e os professores, todos os cuidadores devem ter os cuidados. A família deve fazer também esta parte de tentar ajudar a criança a ultrapassar esta ansiedade. Mas, se porventura, a ansiedade for muito difícil de ser ultrapassada, se a criança começa a entrar num estado mais limitado, mais condicionado, quando sentimos que a criança já não tem esta alegria no dia a dia de ir para a escola, de estar com os amigos, é importante procurar ajuda de um profissional de saúde, de um psicólogo para tentar ajudar a ultrapassar esta questão da ansiedade.

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