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Presidenciais

Nuno Garoupa: “Contentes com Marcelo? Eu não estou”

13 set, 2020 - 14:00 • José Bastos

“Não sou apoiante de Ana Gomes, nem de nenhum candidato”, esclarece o professor universitário que detecta a contradição entre o aparente unanimismo à volta do presidente incumbente e o elevado número de candidatos. “Candidaturas-contra-candidaturas na lógica de claques de futebol? Para quê?”.

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"Faz-me imensa confusão que a questão central das presidenciais não seja: 'estamos ou não contentes com o mandato deste presidente?', afirma Nuno Garoupa na avaliação das apresentações de candidaturas de Ana Gomes e Marisa Matias que avaliam positivamente Marcelo.

“Se estamos todos de acordo em que Marcelo Rebelo de Sousa fez um bom mandato e merece ser reeleito, então para que estamos a fazer candidaturas contra candidaturas?”, questiona o antigo presidente da FFMS, ele que “não faz um balanço positivo” da presidência Marcelo.

No Conversas Cruzadas, o professor da GMU Scalia Law, Virginia, EUA, diz pretender, enquanto eleitor, que lhe seja oferecido um candidato alternativo a Marcelo Rebelo de Sousa não sendo André Ventura.

Nuno Garoupa, das vozes mais reconhecidas na área da direita liberal, afirma não ter decidido ainda o voto de janeiro 2021 e não confirma estar ao lado de Ana Gomes. “Não farei campanha, não estarei em comissão de honra alguma, nem serei apoiante de nenhum candidato’, reafirmando o que diz ser a posição expressa no início do ano.

Ana Gomes garante uma segunda-volta?

Não. Parece-me natural que Marcelo Rebelo de Sousa ganhará as presidenciais à primeira-volta.

Só um terramoto político ou uma deterioração da situação económica e social muito forte poderia produzir outro resultado que não a vitória de Marcelo à primeira.

Mas ouvi a apresentação da candidatura de Ana Gomes e de Marisa Matias e o meu problema é não perceber estas duas candidaturas, porque quando as candidatas se apresentam dizendo que fazem um balanço positivo - e uma delas até disse "muito positivo" - do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, não percebo porque não se vota, então, em Marcelo Rebelo de Sousa.

Faz-me confusão esta ideia de que se faz um balanço positivo de Marcelo, mas "não vou votar Marcelo, porque ele é de direita". Como também me faz confusão a lógica de alguma direita de dizer: "faço uma avaliação muito negativa do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, mas vou votar Marcelo Rebelo de Sousa, porque é de direita".

Estamos numa lógica de claques de futebol que é sinal de alguma deterioração do espaço público português.

Irei mais longe: se as candidaturas de Ana Gomes e Marisa Matias são contra André Ventura e a candidatura de Ventura é contra Ana Gomes e Marisa Matias - como o próprio veio dizer esta semana - não percebo qual é o interesse destas eleições.

Se estamos todos de acordo em que Marcelo Rebelo de Sousa fez um bom mandato e merece ser reeleito então para que estamos a fazer candidaturas contra candidaturas? Marcelo Rebelo de Sousa fez ou não um bom mandato?

E aqui vou ao meu segundo ponto. Eu, como já tenho explicado, várias vezes, neste programa, não faço um balanço positivo do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa. Por várias razões. E, portanto, estou na situação de perguntar em quem voto?

Não quero ser obrigado a votar André Ventura. Esse é o meu problema e, aliás, fiz declarações públicas em janeiro a dizer que gostaria muito que Ana Gomes avançasse, porque seria muito negativo que o único candidato que critica Marcelo fosse André Ventura e que as presidenciais se polarizam entre Marcelo e Ventura.

Mas Nuno Garoupa é referido no diário PÚBLICO como apoiante de Ana Gomes. Não apoia?

Não é isso que foi dito ao PÚBLICO em janeiro passado e obviamente ninguém me consultou desde janeiro sobre a questão. Eu não sou apoiante nem deixo de ser apoiante de Ana Gomes. Aliás, nas próprias declarações disse: 'eu não farei campanha, não estarei em nenhuma comissão de honra, nem serei apoiante de nenhum candidato’.

Agora, veremos em quem vou votar. O que quero - e foi isso que disse e reitero - é que, enquanto eleitor, me seja oferecido um candidato alternativo a Marcelo Rebelo de Sousa que não seja André Ventura. Mas esse candidato alternativo a Marcelo terá de ser alguém que comece por dizer: ‘eu não faço um balanço positivo do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa’.

Tiago Mayan (IL) não é esse candidato?

Tiago Mayan pode ser esse candidato, mas, infelizmente, não tem tido visibilidade na comunicação social, mas, nestes últimos dias, a própria Iniciativa Liberal tem-se dedicado nas redes sociais a criticar Ana Gomes e Ana Gomes a responder à Iniciativa Liberal.

Portanto, parece outra vez que o problema está entre as candidaturas que não vão ganhar e não no mandato de Marcelo Rebelo de Sousa.

É uma coisa – extraordinariamente - estranha: todos os candidatos estão a combater-se entre eles, mas é consensual que Marcelo é um excelente presidente da República.

Bem, se é consensual que se trata de um excelente presidente então vote-se Marcelo. Se esse é o consenso que sentido faz haver outros candidatos? Não consigo entender esta ideia das candidaturas de partidos porque "o presidente é bom, mas não é do meu partido".

Faz-me muita confusão esta lógica clubística.

E quanto à tese de que a candidatura de Ana Gomes nasce no apoio de António Costa a Marcelo?

Não sei as circunstâncias. Mas quando em janeiro se falou da possibilidade da candidatura de Ana Gomes foi muito antes do episódio da Auto Europa. A candidatura de Ana Gomes já estava na mesa antes de Palmela.

Mais uma vez acrescentaria que se o objectivo da candidatura de Ana Gomes, tanto quanto se diz, é mobilizar eleitorado do Partido Socialista, mais uma vez, é uma lógica partidária.

Não consigo perceber lógicas estritamente partidárias em eleições presidenciais. O nosso regime não está feito para isso. Porque se é essa a lógica mais vale voltar ao regime que havia no tempo do Estado Novo da eleição indirecta do presidente da República na Assembleia da República.

Se é uma lógica estritamente partidária então os partidos decidem os seus candidatos e vota-se na Assembleia da República indirectamente.

Isto não é o que está consagrado na nossa Constituição, não é o espírito da nossa eleição presidencial e faz-me imensa confusão que na eleição em que, evidentemente, está em causa a reeleição do presidente incumbente, a questão central não seja: 'estamos ou não contentes com o mandato deste presidente?'.

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